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Diálogos entre literatura e ficção audiovisual

As relações interdiscursivas que podem surgir entre literatura e audiovisual são diversas: adaptações, inspirações, alusões, paródias etc. São diálogos e empréstimos de diferentes ordens: aspectos de gênero, adaptações de diferentes tempos e espaços, personagens e conflitos. Assim como as mitologias são fonte inesgotável de inspiração para a literatura e o cinema, estes últimos são fontes para a ficção televisiva. Algumas obras são tão importantes que se tornaram referências obrigatórias no trabalho de roteiristas, diretores e atores. Outro dia, lendo um desses clássicos, o Livro Das Mil e Uma Noites, me deparei com a seguinte história dentro da história:

 

“(...) Casei-me com minha prima, que tinha por mim um grande amor, tão grande que se eu me ausentasse um dia inteiro que fosse, ela não comia nem bebia até me ver de novo ao seu lado. Estávamos casados havia cinco anos quando, certo dia, (...) me deitei para dormir (...). Ordenei a duas servas que me abanassem. (...) foi então que ouvi (...): ‘Ai, Masuda, tadinho do nosso senhor! (...) Que desperdício de juventude com essa nossa patroa, a maldita!’. A outra respondeu: ‘Ih, fica quieta! Que Deus amaldiçoe as traidoras, as vagabundas! Ai ai, um homão que nem nosso senhor! (...) Casado com aquela safada que toda noite dorme fora’. Masuda disse: ‘E esse nosso senhor é besta? Por que ele não acorda de noite? Se acordar, vai ver que ela não está na cama!’ A outra respondeu: ‘Ai ai, que Deus acabe com essa nossa patroa! E ela por acaso deixa o coitadinho fazer alguma coisa? Ela coloca um calmante na taça de bebida que ele toma antes de dormir; ela dá pro coitado beber e ele fica que nem morto; aí ela sai e some até de manhãzinha. E quando volta ela aplica uns cheiros no nariz do coitado e aí ele acorda. Quanto esperdício, quanta perca!’” (22ª Noite, o rei das Ilhas Negras e sua Esposa, tradução de Mamede Mustafa Jarouche, 2005).


Quem assistiu à telenovela Caminho das Índias (Glória Perez, Globo, 2009) com certeza se lembrou da personagem Norminha (Dira Paes) que oferecia toda noite o “leitinho” do seu marido Abel (Anderson Müller). Assim que ele adormecia, Norminha saía para sua caça noturna. Os espectadores, e alguns personagens da trama, reagiam exatamente com a mesma curiosidade e indignação das servas do rei: quando esta traidora será descoberta? A antiga história fez tanto sucesso que a música da personagem emplacou nas paradas de sucesso com o refrão: “você não vale nada, mas eu gosto de você”.


Os desfechos para o mesmo conflito foram diferentes: cada geração conserva e recria os clássicos, as histórias que não perdem seu poder de encantamento. É a necessidade humana de narrar. A curiosidade com a vida do outro, as fabulações e fofocas, na verdade, guardam a necessidade de compreender o mundo e as próprias experiências. Comparando-nos, encontramos referências para nos situar neste mundo em que vivemos, espécie de limiar entre ficção e realidade. Precisamos narrar para organizar, compreender o mundo e a si próprio. Para registrar e lembrar, transportar e transformar. E para esquecer. Descansar no seio da ficção: puro deleite.


Iuri Lotman (autor de La Semiosfera 1: Semiótica de la Cultura y del Texto, de 1996) define a cultura como um espaço de memória comum em que se produzem, reproduzem e circulam os textos da cultura. A presença constante de alguns textos, sua conservação e recorrente atualização são condições que asseguram a memória comum para uma dada cultura. Neste sentido vale observar, ao acaso, alguns programas exibidos pela TV brasileira neste início de 2014. Adaptações de obras literárias clássicas e contemporâneas para as minisséries, bem como alguns filmes que trazem evidentes relações intertextuais: com a literatura nacional na adaptação de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado; Romance, de Guel Arraes, em diálogo com o clássico Tristão e Isolda; e O Homem do Futuro inspirado no tema clássico da viagem no tempo.


Sim, mas vale sempre lembrar e reconhecer: o cotidiano é a inspiração por excelência. Como escreveu Jorge Luis Borges na obra Esse Ofício do Verso: “A vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia – a poesia está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante. (...) Os livros são somente ocasião para a poesia.”

Daniela Jakubaszko é doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, professora da USCS – Universidade Municipal de São Caetano do Sul - e pesquisadora da produção de sentidos na ficção televisiva, com tese de doutorado sobre “A construção de sentidos da masculinidade na telenovela A favorita”.