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Todos os sons das Copas

A música pode carregar a identidade cultural e social de um povo, cantos, batuques e melodias são, por muitas vezes, mais fortes do que as bandeiras que nos identificam. No futebol não é diferente. Desde os primórdios da prática deste esporte, há mais de 100 anos, a manifestação está presente nas arquibancadas, no campo e nas festas que acontecem fora dos estádios.

O maior torneio de futebol do planeta não é exceção. A história das Copas do Mundo está recheada de musicalidade; das apresentações solenes do início das partidas ao explosivo grito de gol, os 90 minutos de um jogo podem ser traduzidos em emoções sonoras capazes de evocar tanto o espírito guerreiro quanto o deboche à equipe rival. 

Isso mostra o quanto o futebol é um esporte essencialmente feito de sons. Exemplo disso é que, mesmo com as recentes tecnologias das transmissões digitais em alta definição, alguns fanáticos mantêm a indefectível mania de grudar o ouvido no rádio, um dos veículos de comunicação símbolo da popularização do esporte nas décadas de 30 e 40, e grande responsável pela construção destas lembranças auditivas.

A fim de resgatar esta memória músico-futebolística, o Sesc Pompeia e o jornalista Marcelo Duarte idealizaram a exposição Música de Chuteiras que, a partir de 16 de maio, reúne material multimídia sobre os sons produzidos antes, durante e depois dos mundiais e que, a cada quatro anos habitam o imaginário dos torcedores. 

Entram em campo cantores, violonistas, pianistas e compositores, acompanhados por versos populares e canções festivas. Uma verdadeira seleção musical convocada a partir do acervo de dois grandes colecionadores de músicas de futebol do Brasil e dos arquivos do próprio Marcelo Duarte. Canções, hinos, gritos de torcidas e narrações de gols que embalaram as campanhas brasileiras  e transmitem até hoje toda a emoção sonora das copas.

"Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha/ Queria que eu tocasse castanhola/ E pegasse o touro à unha... Para tim bum, bum, bum"... Impossível esquecer a torcida brasileira entoando “Touradas em Madri”, composta por Braguinha para o carnaval de 1938, como provação aos espanhóis, que perdiam para o Brasil por 6 a 1, em jogo da Copa de 50. Canto transformado em silêncio no jogo seguinte pelos uruguaios, na fatídica final em que duzentas mil vozes se calaram dentro do Maracanã.

Somente em 1958, na Suécia, o brasileiro pode soltar a garganta. “A Taça do Mundo é nossa!/Com brasileiro não há quem possa/E-e-eta esquadrão de ouro/É bom no samba, é bom no couro”, música que embalou a conquista do primeiro título mundial da seleção canarinho, e serviu como apito inicial de um novo jeito de torcer. Momento crucial em que futebol e música entraram em campo, a partir daí a bola passou a inspirar músicos a comporem versos para exaltar nossas conquistas e levantar a torcida.
A exposição ocupa a Rua Central, o Hall do Teatro e o Conjunto Esportivo, com projeto cenográfico do arquiteto Álvaro Razuk, e traz ao público arquivos de áudio e vídeo que traçam um panorama da história musical do mundial. São mesas interativas temáticas nas quais será possível conhecer as músicas que embalaram a Seleção, os hinos dos 32 países participantes do mundial em 2014, as músicas oficiais da FIFA e curiosidades.

As mesas interativas são complementadas por vitrines que mostram discos, CDs, capas e encartes, com exemplares das coleções de Beto Xavier, Francisco Antônio Neto, Antônio Mier - colecionador e apresentador do quadro “Caçadores da Música Perdida” na Rádio Bandeirantes - e do próprio Marcelo Duarte, e por cabines nas quais o torcedor/cantor pode vivenciar toda a emoção de narrar um gol.

Para saber mais sobre essa combinação tão perfeita entre música e futebol, a E Online conversou com Marcelo Duarte.

EOnline: Como conheceu os colecionadores que emprestaram seus acervos?
Marcelo Duarte: Conheço o Beto Xavier há bastante tempo. Ele é um radialista gaúcho, que fez uma grande pesquisa sobre o assunto. Eu editei o livro dele: "Futebol no País da Música". Além de o livro ter ajudado muito na hora de escrever os textos, o Beto foi um consultor sempre que as dúvidas apareciam. Ele emprestou muitos discos que poderão ser vistos da exposição. Na fase final do trabalho, fiquei sabendo de um outro colecionador, Francisco Antônio Neto, um piauiense radicado no Paraná. Demorei a conseguir os contatos dele. Mas, quando conheci o Francisco, vi que a coleção era completíssima. Era a cereja que estava faltando para o bolo.

EOnline: Como começou a sua coleção?
M. D.: Os primeiros discos de minha coleção me foram dados pelo meu pai. Ele tinha os long-plays das conquistas brasileiras das Copas de 1958, 1962 e 1970, com narrações dos gols e as músicas feitas para a celebração. Eles estavam impecavelmente guardados. Que responsabilidade! Abri um pequeno espaço num armário para esses LPs e outros que fui comprando. Hoje tenho um acerto até que bem razoável. Mas muito menor que as do Beto e do Francisco.

EOnline: Qual a importância da memória musical para um esporte feito de sons como o futebol?
M. D.: O futebol é um esporte muito sonoro. Os cânticos da torcida, as cornetas, o apito do juiz, o barulho da bola, o grito de gol. É complicado assistir a um jogo de futebol em silêncio. Ainda mais numa Copa do Mundo, quando as pessoas gostam de se reunir. Durante a pesquisa, eu fui percebendo que muita coisa interessante que foi feita no passado estava caindo no esquecimento. A exposição "Música de Chuteiras" serve como um resgate dessa memória.

EOnline: As canções fazem parte da memória coletiva, nas vitórias ou nas derrotas, qual a sua lembrança musical particular das Copas?
M. D.: São muitas. Mas lembro de três que me marcaram muito a minha fase de torcedor adolescente. Aquela fase em que o futebol é a coisa mais importante do mundo. Devo até ter gasto os compactos de tanto que eu os ouvia: "100 Milhões de Corações", com Os Incríveis (Copa de 1974); “Gôôô-ôôl Brasil” (Copa de 1978), que depois teve uma regravação incrível com o Asa de Águia; e "Meu Canarinho", com Luiz Ayrão (Copa de 1982).

EOnline: Cite um dos momentos musicais mais marcantes da história dos mundiais?
M. D.: Acho que o caso mais sensacional de todos aconteceu na Copa do Mundo de 1950. O Brasil estava goleando a Espanha no Maracanã, quando o público, de quase 200 mil pessoas, começou a provocar os espanhóis com uma antiga marchinha de Carnaval: Touradas de Madri. O compositor da música, Braguinha, estava ali nas arquibancadas e, emocionado, começou a chorar. Um torcedor lhe deu a maior reprimenda: "Que é isso, espanhol! Veio aqui torcer contra o Brasil e agora está chorando, é?".

EOnline: A música pode carregar um componente de identidade importante para a torcida. Nos últimos tempos, porém, as canções entoadas são fruto de campanhas de marketing, em sua opinião isso tira a legitimidade?
M. D.: É um tema muito importante. Hoje a música virou mais um produto desse mercado que é o futebol. A escolha do cantor, da música, do ritmo atende a questões de marketing. Mas isso não significa que a música vai cair no gosto popular. Em 2002, por exemplo, as músicas eleitas pelo povo brasileiro para celebrar o pentacampeonato não tinham nada sobre futebol e nem tinham sido feitas para a Copa - "Deixe a Vida Me Levar", do Zeca Pagodinho, e "Festa", de Ivete Sangalo.

o que

Exposição: Música de chuteiras

quando

de 16/maio a 13/julho

onde

Sesc Pompeia

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