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Entre fotos e lágrimas: lembranças de um futebol em preto e branco

Instalação aproveita a Copa para fazer um recorte dos times prudentinos<br>Foto: Thiago Ferri
Instalação aproveita a Copa para fazer um recorte dos times prudentinos
Foto: Thiago Ferri

Era véspera da abertura. Logo cedo ele espalhava as 130 placas com imagens do futebol de Presidente Prudente entre as décadas de 1950 e 1970 pelo corredor. Estavam uma sobre a outra, sem qualquer organização ou configuração de exposição. Ainda era uma espécie de demarcação de espaço que o curador Walter Antunes procurava fazer. No meio da tarde, porém, ele abre em súbito a porta da sala de programação do Sesc Thermas de Presidente Prudente e dispara: “Não vai dar!”.

Como assim? Perguntavam-se todos ali da sala, com olhar vidrado em direção a Walter e dentes cerrados de apreensão. Mas, antes de qualquer intervenção dos interlocutores, o curador emendou: “Não vou conseguir terminar de montar a instalação hoje, mas isso pode ser um bom sinal, não é?”.

E novamente antes que qualquer um pudesse interromper sua retórica, completou: “É que as pessoas estão passando, vendo as placas, as fotos ali ainda no chão, sendo preparadas, e estão se achando nelas, encontrados amigos, parentes... Aí param, perguntam, conversam, contam histórias... Já conheci várias delas, são de verdade muito bonitas. Tem uma que... bom, o tempo está passando. Vou ficar até meia-noite, mas não vou conseguir terminar hoje. Vamos ter que abrir a instalação amanhã sem as legendas.”

“Mas tudo indica que vai ser emocionante, hein gente!”. E saiu, fechando a porta.

De fato, no outro dia todas as fotos da instalação Clássico Prudentino – Primeiro Tempo estavam dispostas no Espaço de Artes Visuais do Sesc Prudente. As legendas não. E enquanto Walter as colocava, interrompia o processo entre uma e outra para explicar que a exposição fazia parte da programação do Sesc na Copa e que fazia um recorte histórico entre 1950 e 1970, indo da tristeza nacional que foi o Maracanaço ao ápice da glória com o tri-mundial conquistado pela Seleção Brasileira. E foi exatamente nesse período, nesse intervalo de tempo, que o futebol prudentino viveu seus melhores dias, com dois times locais, a Associação Prudentina de Esportes Atléticos (Apea) e o Corinthians de Presidente Prudente.

No meio disso, Walter foi interrompido de súbito por um senhor que perguntava: “Onde arrumou essas fotos?”. “São do acervo pessoal de Valter Sabino e Sérgio Jorge, dois torcedores apaixonados do futebol prudentino”, respondeu.

“Olha eu aqui”, retrucou o senhor, com o dedo em riste pra uma foto. “Apareço aqui também, ó!”, emendou. Era Jamilson Lourenço Pereira, de 57 anos, ex-lateral esquerdo do Corinthians de Prudente na década de 1970 e apelidado de garrincha desde criança. “Não era pelo futebol parecido, era porque nasci um ano antes da Copa de 1958, aí fiquei com esse apelido desde pequeno”, explicou. “Mas, rapaz, emocionante demais me ver aqui, no meio da história do futebol de Prudente. Eram bons tempos aqueles. Coisa que nunca mais volta, nunca mais teremos igual...”, disse, entre um suspiro e uma lágrima rapidamente enxugada com a mão esquerda.

Entre uma história e outra, e a colocação de algumas legendas, Walter ainda deu entrevistas para imprensa local, que despertou interesse pela instalação. E no meio de uma delas surge no corredor dona Rosa Leonice e uma amiga. Ela para, olha uma foto, outra, a amiga a apressa para ir embora. “Pode ir, estou procurando uma coisa”, responde. A amiga parte e ela continua com a cabeça erguida, olhando de uma foto para outra até que dispara em súbito: “Aqui, achei!”.

Ela interrompe a entrevista de Walter. “É ele, olha aqui”, diz apontando para foto. “A senhora conhece esse jogador?”, questiona Walter. “Meu marido”, responde ela. “Olha ele nessa foto aqui também”, emenda, colocando a mão sobre a boca num misto de surpresa e emoção.

Walter inicia uma conversa sobre o marido de dona Rosa Leonice, que descobriu-se ser Natalino e que atuou pelo amador da Prudentina e no profissional do Corinthians de Presidente Prudente. “Chama ele para ver”, convidou. “Ele faleceu faz dois meses”, respondeu dona Rosa.

Enquanto Walter voltava à entrevista, Vladmir Emanoel, no alto dos seus 78 anos, apontou para final do corredor de 22 metros, com uma bolsa na mão direita, acabara de sair do vestiário depois de curtir uma piscina termal e disse: “Nossa Senhora, bons tempos hein. Coisa linda esse estádio, uma pena terem derrubado. Olha, esse jogo foi incrível, parou a cidade”, descrevia, tão rápido quanto caminhava.

No final do corredor, mirou a foto de Pelé num jogo em Presidente Prudente, em 1958, logo após ser campeão do mundo com a Seleção e consagrado o Rei do Futebol, e resumiu: “Esse negão era filho da...”, censurou-se com uma reticências. “Uma vez, num jogo aqui, depois de errar uns dois ou três arremates, ouvia vaias e xingamentos da torcida, tudo quanto é palavrão. Só ergueu a mão em palmo como se dissesse ‘esperem’. Fez cinco gols e o jogo acabou 5 a 3 pro Santos contra a Prudentina”, emendou, ao passo que subia as escadas em direção à rua.

Walter voltou à entrevista, o jovem repórter conheceu algumas histórias e até usou algumas dessas pessoas em sua matéria. Walter também conseguiu terminar de instalar as legendas e o Clássico Prudentino – Primeiro Tempo estava completo. Mas as lágrimas não esperam. Não precisam.

o que: Clássico Prudentino
quando:

Até 31/julho

onde:

Sesc Thermas de Presidente Prudente

Quanto:

Grátis

classificação indicativa:  Livre

 

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