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Quando a palavra já não basta

Foto: Cris Lyra
Foto: Cris Lyra

Peça faz sátira à mídia jornalística e explora de maneira poética como testemunhas de uma tragédia podem dar conta de noticiar o inexplicável

O fim do mundo se aproxima e será televisionado. Vivemos os últimos instantes de nossa existência ou é apenas o sol que se pôs para nunca mais nascer, restando a todos somente uma noite sem fim? Frente ao inexplicável, três repórteres de um programa e seu âncora buscam compreender a nova realidade que se impõe à população. Fraquezas assolam esses jornalistas que sentem uma inédita impotência de seus discursos e, pouco a pouco, deixam o que há de mais humano neles saltar à tela de quem os assiste – mas será mesmo que há alguém do outro lado acompanhando essa cobertura?

Envoltos nesse clima de dúvida, por vezes combinado à sátira, contracenam Amanda Lyra, Carolina Bianchi, Ranieri Gonzales e Rodrigo Bolzan, que formam o elenco do espetáculo Tragédia: uma tragédia, adaptação de texto homônimo do dramaturgo norte-americano Will Eno. A peça, pela primeira vez montada no Brasil, fica em cartaz até 9 de novembro, no Espaço Cênico do Sesc Pompeia. Quem assina a direção da montagem é Carolina Mendonça. Em entrevista à EOnline, ela conta mais detalhes sobre os significados e aspectos dessa “noite eterna” enfrentada pelos personagens e a forma tomada pela adaptação da diretora paulista de 34 anos.

EOnline: Qual a sua relação com a obra do Will Eno? É a primeira vez que dirige uma adaptação dele?
Carolina Mendonça: Quem descobriu o texto Tragédia: uma tragédia e me convidou para dirigi-lo foi a Amanda Lyra (atriz e produtora do espetáculo). A gente tinha feito um projeto anterior, uma adaptação do livro do autor norte-americano David Foster Wallace, que dialoga com esse universo do Will Eno. Nunca tinha lido nenhuma obra dele, mas sabia que o Felipe Hirsch tinha feito algumas montagens de seus textos. Além disso, eu já havia montado uma obra do Don DeLillo, outro norte-americano, que apesar de escrever muito romance, entra também no universo literário e dramatúrgico do Will nessa peça que escolhi adaptar. Então, de alguma maneira, eu tinha uma familiaridade muito grande com essa linguagem da dramaturgia americana contemporânea.

EOnline: Que aspectos do texto original foram mantidos e quais as principais mudanças?
C.M.: O texto está na íntegra e a tradução é bem literal, fomos muito fiéis em relação a isso. É difícil traduzi-lo, porque tem muito de como o Will articula a linguagem; ele repete substantivos e adjetivos, uma linguagem que às vezes parece redundante e gramaticalmente confusa, mas que se aproxima muito de um tipo de prosódia específica. Ele mexe bastante com a linguagem do jornalismo, começando de maneira formal e desconstruindo isso no decorrer do texto.

A maior mudança mesmo foi como decidi adaptar a peça cenicamente para o espaço. A proposta do Will Eno é que seja um estúdio de fato, em que cada um dos personagens tem uma locação bem específica. Os nomes deles já trazem onde eles estão: Constance, que está na casa, Frank, no estúdio, Suzana, em campo, e Michel, o especialista jurídico do canal, que é o único que muda de lugar, mas sempre está em uma escadaria. Minha adaptação tentou “explodir” esse lugar do estúdio. Ao mesmo tempo em que eles estão todos no mesmo lugar e esse espaço cênico é um grande estúdio, tem também a ideia de que os personagens permanecem à deriva e nunca fica claro que lugar é esse em que estão. Isso foi uma opção da encenação que se distancia um pouco de como o texto está escrito.

EOnline: Durante a peça, o público é surpreendido por um personagem visto através janela, atuando na calçada, em meio a quem passa pela rua. A escolha de uma figura observada de um outro ângulo foi algo que surgiu com os ensaios? Como foi a adaptação ao Espaço Cênico do Sesc Pompeia?
C.M.: A gente já sabia desde o princípio que a peça estrearia no Espaço Cênico do Sesc Pompeia, então ela sempre foi pensada procurando descobrir como incluiríamos as colunas no espaço e na encenação. A opção foi que a luz viria das colunas, ou seja, do centro do espaço. Seria um problema, mas, para peça, foi importante para trabalhar a metáfora de escuridão que ela traz. Também tinha essa profundidade do espaço, que eu achava interessante explorar com a ideia de noite eterna.

Esse espaço também me permitiu algo que há muito tempo tinha vontade: deslocar o ponto de vista do público. Cada um vai assistir à peça de um ponto de vista. A opção de deixar a testemunha, que é a única pessoa que viu o “fato” do sol se pôr, lá fora, com o mundo acontecendo, veio do espaço. Ensaiando, começamos a ver pessoas passando o tempo inteiro na rua e algumas paravam para observar, então, me veio essa sensação de que a testemunha teria que vir de lá fora, do mundo que estava continuando independente da peça, porque o texto tem algo que acho importante: nunca se sabe com certeza se é o fim do mundo, e se essa noite é realmente eterna, ou se é só aquilo com que lidamos todos os dias, o pôr do sol que traz a noite.

EOnline: Como esse iminente fim do mundo se reflete na construção dos personagens do espetáculo?
C.M.: Os personagens são todos jornalistas e, no prólogo da peça, o Will Eno se refere ao jornalista como essa figura que nos representa nas tragédias ou nos grandes acontecimentos, mas que, ao mesmo tempo, está sempre arrumado, com os dentes limpos, sem pegar nos destroços. É alguém que não joga pedra, não balança uma bandeira: ele se coloca ali de uma maneira neutra para nos representar. E aqui, eles estão tentando reportar o que seria o fim do mundo e não sabem exatamente o que aconteceu ou vai acontecer, mas têm a função de continuar falando e reportando.

Em um determinado momento, percebem que, se for o fim do mundo, é impossível eles mesmos não se afetarem por isso. Então, de alguma maneira, eu acho que a curva dos personagens é um pouco a função principal do jornalista, ou seja, a construção de um discurso que começa a falhar porque as palavras já não dão conta do que eles estão experienciando, até que começam a ter medo, duvidar, se afastar e não conseguir mais falar.

EOnline: Eles parecem se apegar ao passado a partir de quando percebem que estão nessa situação apocalíptica...
C.M.: Acho que tem um pouco disso, sim! É essa ideia de que, se é o fim do mundo e o sol nunca mais vai voltar, há uma projeção de futuro que é muito “escura”, né? Tem um momento no texto em que eles começam a não ver mais nada em sua frente e passam a projetar as coisas. A Suzana tem uma fala super bonita: “As pessoas são apenas as palavras que elas já sabem”, então, se a gente desconhece o futuro, vamos falar apenas sobre referências que já sabemos e, normalmente, isso é o passado – até porque o presente dos personagens está meio caótico (risos).

EOnline: De que maneira o tom de sátira foi incorporado à peça?
C.M.: Algo bem específico da dramaturgia do Will Eno é que ele não é nada claro. A peça chama Tragédia: uma tragédia e, ao mesmo tempo, não tem nenhum fato de tragédia clássica. É como se a tragédia já estivesse dada desde o princípio da peça e nós vivêssemos nela. Não acompanhamos um personagem passando por uma trajetória trágica. Tudo isso é permeado também por momentos cômicos e um pouco de sátira. Algumas coisas têm um tom mais pesado que outras. Minha opção foi de manter esse lugar dúbio, que já é do texto. Acho que é bem mesclado e sutil mesmo, o que tem a ver com a linguagem que já usei em outras peças e que, nesse texto, casa muito bem.

EOnline: Em Londres, a peça estreou pouco depois do atentado de 11 de setembro, e veio ao encontro dessa sensação de possível fim do mundo. No atual contexto brasileiro, ainda é possível identificarmos algum fato que também aproxime o público desse tema?
C.M.: Eu li a peça em 2012 e, para mim, nunca fecha em nenhum acontecimento. Cada vez mais a gente está lidando com a ideia de fim. Apesar da peça não estar ligada a um contexto específico, acho que ela também fala sobre o 11 de setembro, as manifestações, a Copa do Mundo, as eleições – e a gente estreia justamente nessa semana –, a represa que está secando e nos faz pensar: “e se a água acabar?”. De alguma maneira, estamos sempre envolvidos com essa ideia do desconhecido e do futuro e acredito que é dessa ideia de fim que a peça fala. Podemos ver isso tanto a nível pessoal, pensando em fim de relacionamento e morte, quanto a nível social e econômico.

EOnline: Em entrevista dada em 2013, Will Eno disse: “quando sentimos necessidade de encarar coisas difíceis com honestidade, um certo tipo de teatro nos resgata. Quando há realidade demais na vida, outro tipo de teatro se torna popular. Não sei onde estamos. Provavelmente entre um e outro”. Para você, hoje em dia procuramos por qual tipo de teatro e em que medida Tragédia: uma tragédia mostra isso?
C.M.: O Tragédia mostra um pouco isso quando tenta falar sobre algo que é difícil, que é essa escuridão, o desconhecido. Acho que a gente tem realidade demais, e precisamos ter um certo deslocamento para falar sobre isso. Não é evitar falar sobre o que é necessário, e sim imaginar outras realidades possíveis, porque às vezes ficamos projetando as nossas mesmas realidades e isso é muito difícil de gerar uma transformação. Sinto necessidade de criar outros ambientes e outras realidades onde seja possível projetar coisas diferentes.

 

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