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A Chinatown brasileira

A realidade, hoje: o samurai japonês recua e o dragão chinês avança / Foto: José Paulo Borges
A realidade, hoje: o samurai japonês recua e o dragão chinês avança / Foto: José Paulo Borges

Por: JOSÉ PAULO BORGES

Nas calçadas do bairro da Liberdade, em São Paulo, ladrilhos em preto e branco com o desenho do mitsudomoe – símbolo do deus do trovão (kaminari) na mitologia japonesa – acompanham os passos das pessoas; ideogramas japoneses (kanji) identificam lojas, mercearias, hotéis e restaurantes e, à noite, do alto de postes vermelhos centenas de luminárias (suzuranto) lembram as tradicionais lanternas japonesas (chouchin) feitas de vime e papel. No viaduto Cidade de Osaka o pórtico (torii) de nove metros de altura, construído à imagem e semelhança dos portais existentes nos santuários xintoístas do Japão, completa o cenário japonês no tradicional bairro da comunidade nipônica na capital paulista. Mas o jornalista Sanenari Oshiro, 60 anos, não se ilude: “O bairro continua nipônico só na aparência; por trás das cortinas os chineses estão dando as cartas. A Liberdade ‘japonesa’ não existe mais”, ele se lamenta.

Descendente de japoneses, para Oshiro hoje em dia na Liberdade a realidade é esta: enquanto o samurai japonês recua, o dragão chinês avança pelas ruas e vielas do bairro. “Aqui funcionavam quatro cinemas ‘japoneses’, o Niterói, o Joia, o Nippon e o Nikkatsu”, recorda o jornalista. Cada um era responsável pelo lançamento, praticamente semanal, de longas-metragens produzidas pelos grandes estúdios do Japão e, em certas ocasiões, celebridades das telas da nação do sol nascente vinham ao Brasil para concorridas estreias nos cinemas da Liberdade. “Hoje, todas as salas estão fechadas”, diz. “Circulavam no bairro três jornais japoneses diários, cada um com tiragem de aproximadamente 50 mil exemplares. Um não existe mais e os outros dois estão mal das pernas.”

Quem desembarca do metrô que passa pelo bairro, sobe as escadarias e sai na pequena e agitada Praça da Liberdade, não percebe as mudanças apontadas por Oshiro. Sentados nos bancos, senhores aposentados conversam tranquilamente em japonês e, nas lojas, mercearias, livrarias, restaurantes e lanchonetes ao redor da praça e ruas próximas, os clientes são na maioria nipo-brasileiros e brasileiros em geral. Nesses locais, o atendimento é feito por nisseis e gaijins (como os japoneses chamam quem não é japonês).

A impressão é que a Liberdade continua o bairro japonês de sempre. Porém, dados da Associação Cultural e Assistencial da Liberdade (Acal), entidade que reúne mais de 100 lojistas, não deixam dúvidas sobre as mudanças: atualmente, por volta de 80% dos estabelecimentos da Liberdade estão nas mãos de empresários e comerciantes chineses. Por sua vez, o consulado da China em São Paulo estima que dos mais de 200 mil chineses que vivem legalmente hoje no Brasil, 90% se concentram na capital paulista, e muitos deles têm negócios e moram naquele espaço.

A China é um mosaico de povos e etnias, e essa diversidade também está presente na Liberdade, nas diferentes associações espalhadas pelo bairro. Os taiwaneses se reúnem no Centro Cultural Chinês e no Centro Cultural de Taipei, os chineses continentais são representados pela Associação Cultural Chinesa do Brasil e os cantoneses se encontram na Associação Geral dos Cantoneses.

Basta atravessar a Praça da Liberdade para ficar frente a frente com a face chinesa do bairro. Na mesma calçada lá estão o suntuoso restaurante Chi Fu e o modesto Ban Wa. No Chi Fu as garçonetes usam roupas típicas e falam mandarim. No Ban Wa o dono, Lian Chen, que era cozinheiro em Xangai, atrapalha-se com o idioma da clientela, basicamente brasileira. No Chi Fu a prosperidade salta aos olhos. No Ban Wa, Lian Chen batalha para conquistar o mesmo sucesso do vizinho.

Português e mandarim

Enquanto os jornais japoneses do bairro caçam leitores, os chineses assinam periódicos locais como o “Jornal Chinês para a América do Sul” e têm à disposição, em livrarias especializadas, revistas e livros vindos diretamente da China. A comunidade também tem acesso a esse material em locais como o Centro Cultural Escritório Econômico e Cultural de Taipei, na Rua São Joaquim. No primeiro andar, há uma biblioteca e uma sala decorada com indumentárias de antigas dinastias chinesas. Nos outros andares, um centro de meditação divide espaço com um local para eventos. A estimativa é que passem pelo Centro Cultural de Taipei, anualmente, cerca de 40 mil pessoas, entre orientais e brasileiros interessados na cultura chinesa.

Na Livraria Chinesa, que fica na Avenida Liberdade, clássicos da literatura e da poesia da nação mais populosa do planeta, além de dicionários, guias de viagem e livros sobre acupuntura, são oferecidos juntamente com pincéis e material para a prática do sumiê, sofisticada técnica de pintura originária da China. Outro espaço que atrai a atenção de muitos não orientais é a Sociedade Taoísta do Brasil, que fica no terceiro andar de um prédio próximo à estação Liberdade do metrô. Enquanto a cidade agita-se lá embaixo, no templo Tesouro do Espírito, diante de um esplêndido altar com a imagem de Lao Tsé ao centro (filósofo que viveu no século 6 antes de Cristo), algumas pessoas meditam em profundo silêncio, outras praticam cantos e mantras ou consultam o oráculo chinês I Ching.

No Colégio Angel, na Rua Fagundes, a rotina de meninos e meninas entre um e 6 anos de idade parece com a de qualquer outra escola brasileira. A diferença é que as salas de aula contam com duas professoras: uma ensina português e a outra, mandarim. Ali, todas as crianças são chinesas ou descendentes de chineses. Ideogramas e gravuras chinesas decoram as paredes. O material didático é adequado para os alunos aprenderem desde cedo as tradições culturais milenares de seus ancestrais.

Mas é na chegada do ano-novo chinês que o dragão mostra toda sua força na Liberdade. Comemorado oficialmente há dez anos no bairro, geralmente no mês de fevereiro, conforme o calendário lunar, o evento é considerado o maior do gênero fora da China. Nos dois dias de festa, mais de 200 mil pessoas lotam as principais ruas da Liberdade. Nessa época, os chineses se cumprimentam desejando, em mandarim, prosperidade (Gong Xi Fa Cai) e feliz ano-novo (Xin Nian Kuai Le).

Um comerciante de origem japonesa, que ainda resiste à invasão chinesa, revela o que, segundo ele, é o principal segredo da transformação da Liberdade de pequena Tóquio em Chinatown: a ousadia. “Os chineses chegaram e foram logo comprando pontos de japoneses, cujos filhos não se interessavam em dar continuidade ao negócio. Depois alugaram para outros chineses e assim foram tomando conta do bairro...” Para esse comerciante a esperteza maior dos chineses foi preservar intacta a grife japonesa do bairro. “Eles mantêm o nome japonês na fachada, contratam pessoal nipo-brasileiro para o atendimento, mas a gerência e a administração ficam por conta deles”, resume. E aponta outra característica dos ousados chineses: “Enquanto o japonês pensa duas vezes antes de comprar um contêiner de mercadorias importadas, o chinês compra três contêineres e inunda o mercado com produtos mais baratos”. De acordo com ele, os chineses estão presentes não apenas no ramo de restaurantes, mas também atuam com vigor no mercado imobiliário do bairro.

Bairro “movediço”

Seja como for, o fato é que a história dos japoneses na Liberdade soma mais de cem anos.

Em 1912, quatro anos depois do desembarque dos imigrantes pioneiros no Porto de Santos – que haviam feito a travessia até o Brasil no lendário navio Kasato Maru –, já se notava a presença de indivíduos de olhos puxados morando em porões insalubres de casas construídas na época da escravidão, na Rua Conde de Sarzedas. Na época, passava um córrego nos fundos que teimava em causar inundações, mas os alugueis eram baratos e a rua ficava perto de empregos, no centro da cidade, motivando a permanência dos inquilinos. Em geral, os cômodos eram alugados em nome de uma família e divididos entre amigos e conhecidos. O cheiro de missô (sopa japonesa tradicional) impregnava o local.

A ideia de transformar a Liberdade em bairro oriental foi do jornalista Randolfo Marques Lobato. Em 1969, ao lado de uma comissão de japoneses, chineses e coreanos do bairro, Lobato propôs um plano urbanístico para criar uma espécie de Chinatown, similar aos bairros turísticos orientais das cidades de Nova York, Seattle e São Francisco, nos Estados Unidos. Dois anos antes, a Liberdade havia feito uma grande festa para receber o príncipe Akihito e a princesa Michiko, o atual casal imperial do Japão.

A partir do final dos anos 1980, a eclosão do fenômeno decasségui iria provocar uma erupção e afetar profundamente a Liberdade (o termo decasségui significa literalmente “trabalhar fora de casa”). Só que para centenas de milhares de brasileiros, descendentes ou cônjuges de japoneses, esse “fora de casa” foi radical, ou seja, a ida para o Japão. “Centenas de micro e pequenas empresas de japoneses e descendentes fecharam suas portas, já que os proprietários passaram a vislumbrar melhores oportunidades no outro lado do mundo. Os negócios haviam sido duramente afetados pelos dois planos econômicos do governo Collor”, analisa o vereador Aurélio Nomura.

Isso abriu uma fissura na comunidade e rompeu a linha de sucessão em muitas lojas do bairro, afetando duramente as atividades do comércio, já que muitos filhos e netos de imigrantes deixaram tudo para trás na busca de uma melhor sorte nas linhas de montagem japonesas. No início dos anos 2000, o número de brasileiros decasséguis no Japão chegou a 360 mil. 

O movimento decasségui também interferiu de maneira significativa nas associações japonesas culturais e esportivas existentes no bairro. Várias tiveram de fechar suas portas por falta de associados ou reduziram ao mínimo suas atividades. A partir de 2008, com a crise econômica mundial, muitos decasséguis desempregados retornaram ao Brasil. Essa volta, e graças ao ingresso de capital que ela representou, deu novo impulso às associações japonesas e muitas delas conseguiram sobreviver. “Esse fato parece indicar que a vivência dos brasileiros no Japão contribuiu para que eles ‘redescobrissem’ sua alma japonesa e passassem a valorizar ainda mais as raízes de seus antepassados”, sugere Nomura.

Na preparação da tese “Perambulações no Bairro da Liberdade: Passeios ao Vivo e em Vídeo com Moradores Locais”, para a obtenção do título de doutorado, o psicólogo Danilo Sérgio Ide enfrentou sol e chuva, subiu ruas e ladeiras, enfim, gastou muita sola de sapato andando pelo bairro. Nessas idas e vindas, Ide se deparou com um bairro “movediço”. Primeiro, encontrou vestígios da passagem de italianos, portugueses e escravos africanos bem antes da instalação dos japoneses, que foram seguidos pelos chineses e, mais recentemente, pelos coreanos. “A paisagem do bairro ainda guarda fortes indícios das diversas comunidades que viveram ali em diferentes épocas, como os prédios da Lega Itálica, da Casa de Portugal e a Igreja dos Enforcados”, afirma. Mas o que chamou a atenção do pesquisador foi a chegada recente de um novo elemento étnico: o boliviano.

Há algum tempo, os imigrantes da vizinha nação ocupam espaços em São Paulo, especialmente no bairro do Pari, onde nos fins de semana se reúnem numa feira barulhenta.

“Minha missão é aqui”

Mas as marcas das pegadas desse povo já chegaram à Liberdade. No viaduto Cidade de Osaka, por exemplo, camelôs bolivianos oferecem suas quinquilharias. Ide não tem dúvida. Para ele, tendo em vista a característica historicamente “movediça” da Liberdade, aos poucos os bolivianos irão modificar a paisagem do bairro. Foi assim com todos os outros imigrantes que fizeram do lugar a sua casa e não será diferente agora. “A figura do boliviano começa a se destacar e, com o tempo, virão os restaurantes e, depois, o comércio. Mais tarde, o próprio bairro adquirirá características bolivianas, num processo idêntico ao que aconteceu com as outras colônias”, profetiza Ide. No futuro antevisto pelo psicólogo, o portal, as lanternas e as calçadas decoradas com motivos orientais, que hoje identificam a Liberdade, representarão não mais que indícios da passagem, num tempo remoto, de japoneses e chineses pelo bairro. Ícones deslocados dentro de um cenário boliviano.

Enquanto isso, o jornalista Oshiro afoga a saudade de uma “Liberdade que não existe mais” nos botecos autenticamente japoneses do bairro, identificados como izakayás. São pequenos estabelecimentos, de administração caseira, onde clientes e donos se conhecem pelo nome e, vez por outra, permutam confidências. O Kintaro (“menino de ouro”), na Rua Tomás Gonzaga, é um desses izakayás. De manhã, logo cedo, Líria Higushi assume a minúscula cozinha onde, num velho fogão de duas bocas, prepara uma variedade de petiscos que vão desde salada de polvo com pepino avinagrado a moela temperada com molho shoyu e açúcar. Mais tarde, quando William e Wagner, filhos de Líria, entram em cena, o pequeno Kintaro fica ainda mais acanhado. Acontece que os irmãos são robustos lutadores de sumô e simplesmente não cabem ao mesmo tempo atrás do balcão. “O aperto facilita a intimidade com os fregueses”, brinca Wagner.

Pequena, bonita, decidida, Juliana Wu não revela a idade por nada, nem sob tortura. Formada em pedagogia pela universidade de Tian Jin, cidade onde nasceu, situada a pouco mais de 100 quilômetros de Pequim, essa moradora da Liberdade não imaginava o que iria encontrar pela frente quando chegou ao Brasil. Antes de embarcar, a mãe dela chegou a indagar “mas onde fica esse país?”. Na época, as notícias sobre o Brasil falavam em roubos, violência, sequestros. “O que eu queria era ajudar o meu povo chinês no Brasil, o resto não importava”, diz ela. Juliana mora no bairro e trabalha no Colégio de São Bento, no centro de São Paulo, cujos corredores, salas de aula e refeitório vivem apinhados de chineses. A folha de matrículas mostra que mais de 20% delas são de alunos com sobrenomes que não escondem aquela procedência ou mesmo descendência. Uns nasceram no Brasil, outros chegaram recentemente. A escola criou até uma secretaria chinesa, com funcionários que falam mandarim, para ajudar na adaptação dos filhos e atender os pais que se atrapalham com o português. Juliana está feliz com o trabalho que faz e não pensa em voltar para o seu país de origem. “Minha missão é aqui, com o meu povo chinês.”

Ieda Watanabe, hoje uma senhora de seus 60 e poucos anos, nasceu na cidade de Kumamoto, no Japão. Em 1958, ela veio com a família para o Brasil. No começo, os Watanabe viviam numa fazenda de café, no interior do Paraná, e quando Ieda tinha 20 anos vieram para São Paulo e foram morar na Liberdade. “Comecei a trabalhar num salão de cabeleireiro de uma chinesa”, conta. Teve apenas um filho, que atualmente mora no Japão e é casado com uma japonesa. Ieda já foi visitá-lo algumas vezes e o filho insiste para que ela vá morar com ele, mas diz que não deixa a Liberdade por nada neste mundo. Nem se o filho morasse numa mansão. Garante que aqui tem de tudo e nada lhe falta. De manhã cedinho, Ieda pode ser vista praticando ginástica com um grupo da sua faixa etária na Praça da Liberdade.

Antes de vir para o Brasil, o chinês Bruno Chen pesquisou na internet e descobriu um bairro em São Paulo onde havia muitos restaurantes chineses. Foi assim que escolheu a Liberdade para morar. Ele nasceu em 1982, na província de Shanxi, e estudou politécnica numa universidade em Pequim. Bruno veio fazer mestrado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Na verdade, seu plano era seguir para os Estados Unidos, mas achou que seria mais fácil entrar numa faculdade brasileira. Completou o mestrado em 2008 e hoje trabalha num escritório chinês de informática, também na Liberdade. Além dos restaurantes chineses, esse imigrante destaca no bairro a presença de jornais e livrarias chinesas. Mas já pensou em mudar para um lugar mais calmo e mais seguro, como o bairro da Aclimação. “Lá também tem bons restaurantes e mercearias onde posso comprar produtos originários de meu país”, justifica-se. Por enquanto, argumenta, “vou ficando”. A namorada, também chinesa, dispara: “Eu adoro a Liberdade”.