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Lugar de comida não é na lixeira


REDUÇÃO DO DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS É UM DOS GRANDES DESAFIOS SOCIAIS E AMBIENTAIS PARA O FUTURO

A cada ano, um terço dos alimentos produzidos no mundo vai parar no lixo. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), isso significa que 30% das terras agrícolas disponíveis são usadas para produzir alimentos que nunca serão consumidos. Esses desperdícios e perdas ocorrem ao longo de toda a cadeia produtiva, desde a lavoura até as residências, e causam sérias consequências sociais, econômicas e ambientais.

Para o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, há em primeiro lugar uma questão ética. “Não é possível ter no mundo 800 milhões de pessoas passando fome e outra parte da população jogando fora os alimentos”, afirma ele, que também chama a atenção para as implicações ambientais. “Além dos gases de efeito estufa gerados pelos alimentos que são descartados, existe uma quantidade de hectares, fertilizantes, maquinário e mão de obra que poderíamos poupar se fôssemos mais eficientes nessa cadeia.”

Anualmente, no mundo, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos (o equivalente a oito torres Eiffel) é desperdiçado, incluindo cerca de 45% de todas as frutas e legumes, 35% dos peixes e frutos do mar, 30% dos cereais, 20% dos produtos lácteos e 20% da carne (Fonte: FAO)

Alan faz questão de ressaltar a diferença entre perda e desperdício: enquanto as perdas ocorrem no âmbito produtivo, durante a colheita, armazenagem e transporte, o desperdício se dá pelo consumidor, na feira livre, em domicílios e estabelecimentos comerciais. “O Brasil tem muita perda porque muitos processos produtivos e logísticos ainda não são eficientes. Quanto ao desperdício no consumo, falta disciplina na hora de comprar, por exemplo”, analisa.

O desperdício de alimentos é uma questão cultural, observa a nutricionista e gastróloga Aline Rissatto Teixeira. “O Brasil é a terra da abundância, onde tudo que se planta vinga. Nessa lógica, o sentido de economizar comida se perde. Nós compramos um vegetal, mas só consumimos sua polpa. Tiramos toda a casca da batata antes de preparar um purê, sem sequer experimentar a preparação utilizando o alimento em sua totalidade”, exemplifica. Para ela, a educação é o caminho para modificar essas práticas. “Não basta informar o indivíduo que o desperdício de alimentos existe. Ele deve ser educado, entender seu papel e se tornar ativo quanto ao uso de partes não convencionais dos alimentos.”

No Brasil os desperdícios e perdas estão presentes em toda a cadeia, sendo 10% no campo, 50% no manuseio e transporte, 30% na comercialização e nas centrais de abastecimento e 10% no varejo e consumidor final (Fonte: Embrapa)

Aproveitar tudo o que o alimento pode oferecer como fonte de nutrientes é uma das práticas da cozinha sustentável, explica Aline. “Por desinformação, esse conceito é subestimado e frequentemente associado ao preconceito”, aponta. “Muitas pessoas pensam que o uso de ossos, peles, cascas, talos e sementes para cozinhar deve ser restrito aos mais pobres. Precisamos incentivar a todos, pois esta é uma prática de responsabilidade compartilhada. O desperdício de alimentos gerado por você afeta não só a vida de uma pessoa, mas a de milhões que vivem no mundo em situação de fome e insegurança alimentar.”

Na opinião do ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) Francisco Menezes, é possível mudar essa cultura do desperdício. “Seja de forma individual, em escolas ou através de campanhas que reforcem que o alimento é um bem essencial, ao qual todos têm direito”, afirma. “A educação alimentar é fundamental para vencermos o desperdício, considerando aqui que ela não se resume a ensinar o indivíduo a se alimentar bem, mas também a dar esse sentido coletivo ao alimento, informar que o alimento é um direito de todos, previsto na Constituição.”

O desperdício de alimentos é o terceiro maior responsável pela emissão de CO2 no mundo (Fonte: FAO)

O papel dos bancos de alimentos – que armazenam e redistribuem comida que seria desperdiçada – é fundamental nesse processo, observa o representante da FAO. “Deveria ser parte da normativa do funcionamento de qualquer central de abastecimento ter um banco de alimentos eficiente para evitar jogar fora o que não foi consumido na feira”, propõe Alan, e lembra que a meta da FAO para a América Latina é reduzir o desperdício a menos de 10% até 2025. “Nunca vamos ter desperdício ou perda zero. Esse é um ideal, mas o importante é reduzir substancialmente, para que se atinja um nível mais aceitável de eficiência no uso dos recursos.”

O Brasil é um dos dez países que mais desperdiçam alimentos. Cerca de 30% da sua produção é jogada fora na fase chamada de pós-colheita, ou seja, após o processamento ou até o alimento ser consumido (Fonte: FAO)

 

 



COM NOVO CENTRO DE CAPTAÇÃO E ARMAZENAGEM, MESA BRASIL SESC SÃO PAULO CONSEGUE AMPLIAR CAPACIDADE DE DISTRIBUIR GÊNEROS ALIMENTÍCIOS

Em 2015, o programa Mesa Brasil Sesc São Paulo completa 21 anos. A data marca mais um passo importante em sua trajetória: a criação do Centro de Captação e Armazenagem Mesa Brasil (CECAM). Com 1600 metros quadrados, capacidade para até 400 toneladas e uma frota de quatro caminhões, o espaço destina-se a captar e armazenar grandes volumes de doações de alimentos. Com o novo local o programa passa a atender mais pessoas e com maior qualidade, reforçando o compromisso de recolher alimentos próprios para consumo que seriam descartados, triá-los e distribuí-los a instituições sociais.

Criado para melhorar a logística do Mesa Brasil no estado de São Paulo, o CECAM serve de ponto de apoio para as 13 unidades do programa e tem função estratégica para distribuir alimentos entre interior, litoral e capital. A previsão é não apenas aumentar o volume de doações, mas também ampliar a gama de alimentos captados. “Hoje coletamos e distribuímos grandes volumes de doações com maior agilidade e, assim, os alimentos chegam a mais pessoas. Uma doação de melão, por exemplo, que atenderia somente as instituições sociais da capital, hoje chega ao interior e ao litoral. Essa dinâmica fideliza as empresas parceiras”, explica a coordenadora do CECAM, Karen Leal. “Contamos com uma equipe de captação dedicada a buscar novos doadores, para que em breve outras entidades sejam cadastradas e todas recebam alimentos variados e de qualidade.”

Com o início das operações em junho, o Centro de Captação recebeu 512 toneladas de alimentos nos três primeiros meses, como suco de frutas (156 toneladas), leite (95 mil litros), frutas (80 toneladas), arroz (25 toneladas), cereal matinal (10 toneladas), chocolates (32 toneladas) e chá pronto (72 toneladas).  A quantidade de arroz recebida, por exemplo, é suficiente para preparar 167 mil porções, e a quantidade de leite equivale a 317 mil copos.  Esses alimentos, assim como as demais doações que chegam diariamente ao CECAM, são distribuídos entre as 13 unidades do Mesa até chegar a quase 800 instituições cadastradas, atendendo a mais de 140 mil pessoas.

O PROGRAMA
Exemplo de organização e logística de distribuição de alimentos no país, o Mesa Brasil foi iniciado pelo Sesc SP em 1994 e, desde 2003, foi replicado nacionalmente. O programa é uma ponte que busca onde sobra e entrega onde falta. Alimentos in natura ou industrializados, que perderam seu valor comercial mas encontram-se em condições próprias para consumo, são recolhidos em empresas, centrais de distribuição, supermercados, padarias, sacolões, indústrias e feiras. Depois, são encaminhados a instituições como creches, abrigos, albergues, asilos e casas de convivência.

Além de coletar e entregar doações, o Mesa Brasil Sesc São Paulo também desenvolve ações educativas, como palestras, cursos e oficinas culinárias, ministradas por nutricionistas, culinaristas e outros profissionais que orientam as instituições atendidas e seus públicos sobre como montar cardápios saudáveis e evitar o desperdício, manter a higiene no manuseio dos alimentos e armazená-los de maneira correta.

 

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