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Andrógino (2000), de Romuald Hazoumé, artista da República do Benin
Andrógino (2000), de Romuald Hazoumé, artista da República do Benin

ARTE CONTEMPORÂNEA PRODUZIDA EM PAÍSES AFRICANOS QUEBRA ESTERIÓTIPOS E GANHA ESPAÇO EM GALERIAS E MUSEUS PELO MUNDO

Nos últimos anos, obras produzidas por artistas de países como Congo, Zimbábue, Marrocos e Mauritânia ganharam galerias, exposições e mostras por todo o mundo, numa grande celebração da arte contemporânea do continente africano. Exemplo dessa ascensão é o fato de que neste ano a tradicional Bienal de Veneza nomeou como curador o nigeriano Okwui Enwezor.

Esse interesse, na opinião do pesquisador Renato Araújo, do Museu Afro Brasil, não se explica apenas pela globalização, mas também por uma tentativa de renovar a arte produzida na Europa. “Seria ingênuo imaginarmos que seja um interesse nas culturas e histórias da África. Uma coisa é o interesse na África enquanto um continente cheio de contradições, outra coisa seriam as suas riquezas culturais que têm podido ser capitalizadas e aproveitadas para ‘arejar’ um mercado de arte em via de estagnação”, observa. 

Há também um impacto decorrente da imigração africana, segundo Renato. “Hoje, na Europa, aquele que era considerado com muita simplicidade apenas o ‘outro colonizado’ já tem filhos e netos em território da metrópole. Sendo assim, jamais poderá ser visto da mesma forma que antes”, relata.

De acordo com o pesquisador, o fato de o Brasil ainda ter uma relação distante com a arte da África é explicado historicamente. “Na verdade, não temos só uma relação distante com a arte de lá, mas com a África em todos os níveis. Do ponto de vista da colônia, o que vem da metrópole é visto como modelo absoluto do necessário. Nós ainda somos muito colonizados, e a maioria de nós só se interessa pelo que vem do colonizador porque nos identificamos com ele”, acrescenta.

Para a curadora e diretora da Associação Cultural Videobrasil, Solange Farkas, o mundo tem urgência de um reposicionamento geopolítico para além do eixo europeu e norte-americano – e o mundo das artes também. “Essa é uma questão à qual o Videobrasil, em parceria com o Sesc, se dedica desde a década de 1990”, diz. “Pelas relações históricas, heranças culturais e, principalmente, pelo completo desconhecimento da arte contemporânea produzida nos países africanos, ou pela ideia estereotipada que tínhamos dela até então, esse continente se tornou um destino especial de nossas viagens e pesquisas.” Solange relembra que esses contatos resultaram em duas mostras: a Mostra Africana de Arte Contemporânea, no ano 2000, e a Mostra Pan-Africana de Arte Contemporânea, em 2005.

A curadora ressalta que a África é enorme e diversificada – composta por 54 países, cada um com suas características. “E o Festival de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil acaba sendo uma plataforma para diferentes suportes, temáticas e poéticas, que dão conta da diversidade e riqueza da arte contemporânea produzida por artistas de seus países”, afirma. Solange também destaca Abdoulaye Konaté entre os sete artistas africanos presentes na 19ª edição do festival, que segue até dezembro no Sesc Pompeia. Natural do Mali, o artista trabalha com tecidos para tratar de questões como aids, nacionalismos, extremismos religiosos e impactos da globalização.

IDENTIDADES
Não se trata de “arte africana contemporânea”, mas sim de “arte contemporânea da África”, esclarece Renato. “Parece apenas um jogo de palavras desnecessário, mas não é. A arte produzida por africanos nada mais é que arte contemporânea, e os artistas estão demandando serem vistos como artistas contemporâneos antes de serem carimbados como africanos.”

Independentemente de essa arte revelar ou não algumas temáticas relacionadas a princípios ou tradições locais, não se deve colocar numa mesma categoria obras de arte distintas e que muitas vezes usam linguagens universais ou que se querem universais. “Não podemos supor que este ou aquele artista contemporâneo, por ter nascido em determinado país africano, faz imediatamente sua arte ser entendida abrindo espaço para todo tipo de determinismo racial e histórico”, argumenta o pesquisador.

DIVERSIDADE DE OBRAS
EXPOSIÇÃO TRAZ UM RECORTE DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA ATUAL DO CONTINENTE AFRICANO

O público pode conhecer mais sobre as pinturas, fotos, desenhos, esculturas, instalações e vídeos de 13 artistas de 11 países africanos na exposição Aqui África – África Contemporânea através dos Olhos de Seus Artistas, em cartaz no Sesc Belenzinho de 20 de novembro a 28 de fevereiro de 2016.

Um projeto da organização não governamental Art for the World, a exposição tem curadoria de Adelina von Fürstenberg. “Há muito tempo o Sesc São Paulo tem dedicado espaço e especial atenção para regiões com localizações geopolíticas pouco privilegiadas no sistema da arte”, afirma a gerente adjunta da Gerência de Artes Visuais e Tecnologia, Nilva Luz. “Faz muito sentido para nossa ação educativa e de difusão que projetos desta natureza sejam cada vez mais incentivados, tendo em vista a nossa história tão conectada com a da África, e ainda tão pouco conhecida ou valorizada no país.”

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