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O que pensam os professores brasileiros?

Ilustração: Marcos Garuti
Ilustração: Marcos Garuti

O QUE PENSAM OS PROFESSORES BRASILEIROS?

Como se dá a formação dos professores brasileiros? O que mais os satisfaz profissionalmente? Esses educadores se sentem reconhecidos como atores relevantes perante a sociedade e as instituições públicas responsáveis pelas políticas educacionais? Apresentada no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc no dia 14 de outubro, a pesquisa Conselho de Classe – A Visão dos Professores sobre a Educação no Brasil teve como intenção dar voz aos professores da rede pública atuantes no Ensino Fundamental (I e II) e entender suas percepções acerca das condições de trabalho e de temas relacionados às políticas públicas educacionais. Debatem alguns dos resultados os pesquisadores em educação Ernesto Martins Faria e Laura Muller Machado, e o professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Umberto de Andrade Pinto.


Por que envolvê-los no debate educacional?
por Ernesto Martins Faria e Laura Muller Machado

Ouvir os professores é fundamental, pois são eles que estão na ponta com os alunos e são os responsáveis pela concretização de várias políticas educacionais. A pesquisa Conselho de Classe – A Visão dos Professores sobre a Educação no Brasil, feita pela Fundação Lemann em parceria com o Ibope Inteligência e o Instituto Paulo Montenegro, entrevistou mil professores de todo o Brasil com um questionário construído a partir de grupos focais em que alguns docentes apontavam aspectos que gostariam de discutir.

É importante dizer que é muito difícil agrupar as visões dos cerca de 1,4 milhão de professores de ensino fundamental representados por mil entrevistas na pesquisa. Existe, obviamente, uma diversidade de olhares entre os professores. No entanto, existem também questões que aparecem fortes para eles de modo geral, e é sobre elas que este artigo se dedica.

Sobre o que os satisfaz, 72% dos professores apontaram que o maior ponto de satisfação na profissão está ligado à contribuição para o aprendizado dos alunos, enquanto 65% apontaram a responsabilidade social da profissão. Em contrapartida, apesar dessa importante responsabilidade e do investimento que fizeram na carreira, eles não colocam como ponto de satisfação as condições de trabalho e não se sentem reconhecidos como atores relevantes perante a sociedade e as instituições públicas responsáveis pelas políticas educacionais. Apenas 23% colocaram boas condições de trabalho como ponto de satisfação, enquanto 20% em relação à remuneração.

Essas são informações de grande relevância para a implementação de políticas educacionais, pois elas podem engajar ou desmotivar os docentes em seu trabalho. Se a garantia do aprendizado dos alunos gera satisfação para os professores, é essencial ficar claro para eles a forma como uma política educacional a ser implementada irá impactar a aprendizagem. Por outro lado, más condições de trabalho podem fazer com que eles acreditem menos que é possível os alunos aprenderem. Por isso, é muito importante que o gestor consiga entender, com a colaboração dos professores, como contornar esses problemas e engajá-los na missão de garantir o aprendizado dos alunos.

A pesquisa mostra que os professores acreditam que podem contribuir – e muito – na formulação e implementação de políticas que interfiram diretamente na qualidade da educação. Por exemplo, 83% dos professores apontaram a importância de representantes dos professores participarem da construção da Base Nacional Comum. Ou seja, a participação deles no desenvolvimento de políticas é, em si, uma estratégia de valorização deste profissional, que certamente contribuirá para o seu engajamento e para a melhoria das condições de aprendizado em sala de aula. Também é fundamental que, mesmo quando os professores não participam da formulação das políticas, seja mostrado a eles que elas contribuem para o aprendizado dos alunos e que existem condições dentro da escola para que isso possa acontecer. É, portanto, importante que o gestor dialogue com os professores de modo a lhes dar suporte para que eles sempre tenham altas expectativas em relação ao aprendizado dos alunos.

A pesquisa perguntou aos professores quais são os fatores que precisam ser enfrentados com maior urgência no cotidiano escolar, e os mais citados foram: a falta de acompanhamento psicológico para os alunos que precisam, a indisciplina dos alunos e a defasagem de aprendizado dos alunos. Esses problemas do dia a dia, tanto para garantir uma boa gestão de sala de aula como para garantir a aprendizagem dos alunos, preocupam-nos mais do que as políticas e estratégias de longo prazo que estão ligadas a esses desafios, como formação de professores, currículo e materiais didáticos. Os professores apontam que a escola precisa estar mais preparada para as urgências no curto prazo, ou, como dizem alguns,“para apagar os incêndios do dia a dia”.

Convidados a atribuir peso à responsabilidade de cada um dos atores envolvidos no processo educacional, os professores colocaram em média – numa escala de 0 a 11 – a família no topo (4,26), seguida pelos próprios docentes (3,82) e, por último, os próprios alunos (2,92). Esses dados apontam que eles veem como decisivo na educação escolar a participação da família. A pergunta sobre as principais urgências apontou também que alguns professores entendem que ficam sobrecarregados com tarefas que deveriam ser assumidas pelos pais, enquanto há outros que acreditam que a escola deveria se envolver mais nas questões familiares.

O estudo, portanto, abre espaço para considerações dos professores sobre a relação da escola com a família dos estudantes, apontando para uma dificuldade de extrema relevância atualmente: a sobrecarga desses profissionais ao terem que assumir aspectos da educação que transcendem o desenvolvimento de habilidades cognitivas. Quando pensamos a educação de uma forma mais ampla, envolvendo tanto habilidades cognitivas como socioemocionais e o desenvolvimento de valores, percebemos que há vários atores que influem na formação do aluno – com destaque óbvio para a família. No entanto, é fundamental que a escola se veja também como protagonista. É difícil esperar que as famílias, muitas delas com poucos recursos e baixa instrução, possam liderar esse processo. Nesse sentido, um bom gestor escolar precisa ter no radar o desenvolvimento dessas habilidades na escola.

Por fim, a pesquisa trouxe perguntas sobre temas de grande relevância no debate educacional atualmente: avaliações externas, uso de tecnologias em sala de aula e Base Nacional Comum. Os dados apontam que instrumentos de suporte como avaliações externas e tecnologias são vistos como importantes pelos professores, embora ressaltem a necessidade de formação e materiais de apoio para o uso deles. Já em relação à Base Nacional Comum para os currículos de Educação Básica, que explicitará o que é essencial que todo aluno no Brasil aprenda, a visão também é positiva, embora apareçam preocupações em relação à atenção à diversidade. De forma geral, é possível perceber por meio das respostas que os professores recebem como positivos instrumentos que podem dar um norte para o trabalho em sala de aula.

Para além de explicitar os desafios, a pesquisa que fizemos permitiu pensar em estratégias para a superação deles, tendo como base principalmente a ampliação do diálogo entre as instituições governamentais e os profissionais da educação que atuam diretamente na escola. A ampliação dos canais de diálogo contribuirá significativamente para a efetividade de políticas atuais de extrema importância, como a Base Nacional Comum, as avaliações externas e o uso de tecnologias e inovações em sala de aula. Abrir espaços diretos para a participação dos docentes permite antecipar bloqueios, que muitas vezes impedem o sucesso de programas, e ajuda a definir prioridades. E, mais do que a simples criação, é preciso investir em formas de comunicação que não sejam vistas de cima para baixo, garantindo que os professores, se sintam parte essencial da política, como de fato são. Com a legitimidade das políticas perante os professores será possível construir uma unidade no discurso e coesão intraescolar nas escolas, auxiliando para que as políticas sejam bem implementadas e os alunos recebam uma educação de qualidade.

Mais do que a simples criação, é preciso investir em formas de comunicação que não sejam vistas de cima para baixo, garantindo que os professores se sintam parte essencial da política, como de fato são.

Ernesto Martins Faria é coordenador especialista na Fundação Lemann e mestrando em Gestão e Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).
Laura Muller Machado é mestre em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo, especialista em análises e indicadores educacionais e membro da Fundação Lemann, onde desenvolve e coordena pesquisas em educação.

 

Protagonismo docente
por Umberto de Andrade Pinto


Os problemas relacionados à educação pública no Brasil estão na ordem do dia, seja nos espaços institucionais – em que são tratados pelos diferentes atores políticos – seja nos meios de comunicação. Pessoas de diferentes segmentos sociais são chamadas a participar desse debate, mas o segmento diretamente envolvido com as questões educacionais em sala de aula comumente não é ouvido. É frequente, na televisão e nos jornais impressos, vermos empresários, jornalistas, sociólogos e, sobretudo, economistas serem chamados a participar desse debate, mas nem sempre temos a presença de um professor que está trabalhando lá na escola pública.

No que se refere ao perfil desses professores, destaca-se o fato de, segundo a pesquisa Conselho de Classe – A Visão dos Professores sobre a Educação no Brasil, 86% deles terem frequentado o ensino fundamental e médio em escolas públicas, mas ao partirem para o ensino superior (65% dos entrevistados) terem tido que pagar para tornarem-se os professores que atuam nas escolas públicas. Essa distorção explica-se pelo fato de a oferta de vagas no ensino superior no país ser oferecida majoritariamente pela iniciativa privada (em torno de 80%). Desde o período militar, passando pelas décadas de 1980 e 90, as políticas públicas na área educacional voltaram-se para a expansão do ensino superior privado em nosso país e, ao mesmo tempo, para a contenção da oferta de vagas nas universidades públicas. Assim, por decorrência dessas políticas, a formação inicial de professores ficou privatizada. Por outro lado, a distorção dos professores terem que cursar o ensino superior privado revela uma injustiça social, pois fica depositada no futuro professor a responsabilidade de custear sua própria formação profissional para atender ao preceito constitucional que prevê o direito de toda a população brasileira ter acesso a educação escolar. Ou seja, o que deveria ser responsabilidade do Estado brasileiro – a formação de professores para a Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio – ficou sob a responsabilidade das Instituições de Ensino Superior (IESs) privadas, que nem sempre primam pela qualidade dos cursos que oferecem.

Outro aspecto importante a ser destacado sobre o perfil desses professores refere-se à baixa escolarização de sua família de origem. Somente 8% de seus pais frequentaram o ensino superior. Assim, em termos salariais, esses professores recebem mais que o que seus pais recebiam; mesmo considerando que, no caso do Estado de São Paulo, um professor da rede pública em início de carreira e com jornada de quarenta horas semanais tenha um salário pouco acima de dois mil reais. Cabe ainda destacar que o fato de terem crescido em um ambiente familiar de baixa cultura escolar implica a necessidade de ampliar a formação cultural de uma categoria profissional cujo trabalho é justamente contribuir para a formação humana de crianças e jovens, o que requer dela uma sólida formação científica e um repertório cultural muito mais amplo daquele ambiente sociocultural em que convivem seus alunos. Tudo isso justifica a premência de uma formação inicial para professores de elevado nível qualitativo.

Quanto ao que mais traz satisfação na atuação docente, o aspecto mais citado pelos professores foi sua contribuição para o aprendizado dos alunos, seguido da responsabilidade social. Por outro lado, eles se sentem bastante desvalorizados como profissionais, uma vez que trabalham em condições que não favorecem o aprendizado de seus alunos, e a remuneração que recebem é ainda muito inferior à dos demais profissionais de nível superior.

Entretanto, os dados mais surpreendentes referem-se ao fato de não serem ouvidos nos diferentes espaços públicos que discutem e decidem as mudanças educacionais. Os professores sentem que sua opinião não é considerada pelo Ministério da Educação, pelos meios de comunicação ou organizações não governamentais, nem pelas secretarias de educação das escolas às quais estão vinculados ou mesmo pelas universidades. Esses dados corroboram com outros estudos que têm demonstrado o porquê do fracasso de muitas das políticas públicas na área de educação: o esvaziamento total do protagonismo docente. Uma vez que são os professores que atuam nos diferentes contextos educacionais, eles deveriam ser mais do que ouvidos: deveriam também participar ativamente dos processos de decisão dessas mudanças.

Os professores acreditam que, se sua opinião fosse ouvida, a educação no país poderia melhorar, pois isso teria impacto em suas condições de trabalho e, consequentemente, no desempenho escolar dos alunos. Se os professores participam nas diferentes instâncias que decidem pelas mudanças na área educacional, sentem-se comprometidos com o que fazem, pois ficam envolvidos com as implementações a serem feitas. Ao mesmo tempo, o trabalho coletivo fica fortalecido, e toda a comunidade escolar é favorecida por um ambiente de cooperação e solidariedade.

Cooperação e solidariedade são valores intrínsecos a uma educação alinhada à formação de novas gerações comprometidas com a construção de uma sociedade menos injusta, no que se refere à distribuição dos bens materiais e simbólicos produzidos coletivamente, e, portanto, uma sociedade mais fraterna. Transferir para o interior das escolas públicas iniciativas articuladas à lógica do mercado – como é o caso de premiação de professores com melhor desempenho – só acirra a competitividade, valor este que não combina com o direito igualitário que todos devem ter de se humanizarem na sua plenitude.

Se os professores participam nas diferentes instâncias que decidem pelas mudanças na área educacional, sentem-se comprometidos com o que fazem, pois ficam envolvidos com as implementações a serem feitas

Umberto de Andrade Pinto é doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autor de Pedagogia Escolar: Coordenação Pedagógica e Gestão Educacional (Cortez Editora, 2011).

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