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Enciclopédia Musical

por JOSÉ RAMOS TINHORÃO

José Ramos Tinhorão é conhecido como um dos mais relevantes pesquisadores e historiadores de música popular brasileira. Autor de mais de 25 livros sobre cultura popular e MPB, possui também uma longa carreira jornalística em veículos como Diário Carioca, Jornal do Brasil, TV Excelsior, TV Globo, Rádio Nacional, Correio da Manhã, O Pasquim, revista Senhor, Veja, entre outros. Seu primeiro estudo, Música Popular: um Tema em Debate, foi publicado em 1966, e desde então produziu também títulos como História Social da Música Popular Brasileira (Editora 34, 2010), As Origens da Canção Urbana (Editora 34, 2011), Pequena História da Música Popular (Editora 34, 2013) e Música Popular: do Gramofone ao Rádio e TV (Editora 34, 2014), entre outros. A seguir, os melhores trechos do depoimento de Tinhorão, no qual ele fala sobre ritmos brasileiros e pesquisa musical.

 

José Ramos Tinhorão esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E no dia 14 de outubro.

 

VEIA DE PESQUISADOR
Sempre procurei ser aberto a coisas de fora da minha especialidade. Quando comecei a pesquisar sobre música popular, eu já tinha minha ocupação de jornalista, a minha curiosidade por literatura. Naquela época, se alguém falava em música popular, achavam que a pessoa tinha confundido com folclore. Não havia o conceito de música popular urbana, do homem da cidade, o que é completamente diferente das manifestações de música popular do homem do campo. A cultura urbana da cidade, ao contrário da cultura do mundo rural, está muito próxima dos meios tecnológicos de divulgação.

O fato de eu ter uma cabeça muito curiosa e aberta para a cultura me ajudou demais na minha especialização em música popular brasileira. Quando eu pegava um tema qualquer, estava escrevendo preso àquele tema, mas o conhecimento paralelo enriquecia a forma de ver aquilo. Por exemplo, a literatura me permitiu fazer três volumes sobre a música popular no romance brasileiro. A curiosidade é fundamental, é preciso ter curiosidade pelo que naturalmente não deveria te interessar. Então fui por aí e me tornei um pesquisador de música popular.

BOSSA NOVA
Sempre que se fala de um tipo de cultura é necessário circunscrevê-la à classe das pessoas que produzem e apreciam aquele tipo de cultura. A Bossa Nova é o produto de uma classe média alta brasileira que, não se sentindo compatível com letras que falavam em “barracão” e “morro”, não se reconhece na arte do pobre. Ela se reconhece no equivalente da sua classe no país mais desenvolvido, e se contempla na cultura da classe média norte-americana. É por isso que a Bossa Nova transpira música americana. Eu não considero música brasileira. É a música americana feita no Brasil.

A única coisa original da Bossa Nova é o violão do João Gilberto. Até 1950, quando aparece o João Gilberto, o caráter da música brasileira era um tipo de música muito europeia. Desde o teatro musicado, o Brasil tinha uma tradição de receber como bom aquele som produzido na Europa. Quando os Estados Unidos entram muito forte com a sua música, o Brasil passa a consumir música norte-americana, mas antes do João Gilberto o pessoal da Bossa Nova procurava imitar jam sessions, de jazz, onde os modernos se reuniam. Vem João Gilberto, do interior da Bahia, e começa a tocar um violão da escola tradicional do violão, com o jeito de tocar da época da modinha, da canção, mas o ouvido dele mostra que há uma tendência para mexer naquilo, não continuar naquela linha já muito cansada. Ele começa então a jogar com o tempo. Ele altera o tempo da música. O primeiro clássico dele, “Desafinado”, já tem um título provocativo. A música não está no que se espera, no chamado dois por quatro. Ele faz um jogo dentro do dois por quatro, desmembrando-o, e isso é uma bossa nova.

TROPICÁLIA
O aparecimento da Tropicália está muito ligado à tendência, naquela época muito moderna, de transformar a música popular em um espetáculo. Uma das características do período da Tropicália é que o sujeito que produz a música também sobe no palco, então o Caetano Veloso e o Gilberto Gil são “homens show”. A música deles não se subordina só ao disco. Passa-se a acrescentar à música também o corpo.

Caetano e Gil, mesmo fazendo músicas diferentes, passam a ter uma característica comum, que é rejeitar a forma antiga da música tradicional brasileira e pegar o moderno, a música do Rio de Janeiro, que imita a americana. Então, está embutido o mesmo fenômeno de admiração pela música do mais desenvolvido. 

DISCOS BRASILEIROS
É muito difícil definir os melhores discos brasileiros, porque eu gosto de tanta coisa. Há clássicos, digamos assim. Gosto musical é algo tão estranho. Havia um compositor aqui em São Paulo que, em plena época da Guerra Fria, foi parar na Rússia comunista. Ele estava em umas montanhas, em um hotelzinho próximo a um circo. E aí, quando ele estava quase dormindo, começou a ouvir lá no circo tocarem uma música que ele reconheceu. Era “Mamãe eu quero”. Como é que alguém vai ouvir na Rússia comunista, que era isolada do mundo, essa música?

Na história da música popular de um país, determinadas se saem tão bem que ficam como clássicos. Elas representam um espírito e o gosto de uma época. Claro que você sabe que não está cantando algo que é do seu tempo, mas dá valor porque aquilo fica como um marco.

 

“O fato de eu ter uma cabeça muito curiosa e aberta para a cultura me ajudou na minha especialização em MPB. Quando eu pegava um tema qualquer, estava escrevendo preso àquele tema, mas o conhecimento paralelo enriquecia a forma de ver aquilo”

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