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Fantasmas: Território do Pesadelo

Foto: Leekyung Kim
Foto: Leekyung Kim

Fantasmas, peça escrita por Henrik Ibsen em 1881, é considerada por muitos teóricos a primeira tragédia moderna da História do Teatro. Sua estreia foi um escândalo e o espetáculo foi proibido em diversos países da Europa sob a acusação de violar tabus. Um dos principais temas abordados por Ibsen em Fantasmas é o peso que sistemas dogmáticos exercem em nossas vidas, colocando o tabu e a religião num embate apocalíptico.

Segundo Roberto Alvim, a peça reflete parte do que acontece em nosso atual cenário político: “estamos em uma época de recrudescência de fundamentalismos religiosos, o que é um tema de implicações radicalmente políticas em nosso tempo, e a questão que se impõe é: por que precisamos desesperadamente de normas de conduta determinadas por religiões institucionalizadas? O que esta obra-prima de Ibsen parece nos desvelar é que a humanidade sempre teve uma imensa dificuldade em lidar com sua sexualidade e com os caminhos imprevisíveis, surpreendentes e dilacerantes do desejo”, explica.

Foi isso que motivou também o diretor a escolher essa obra de Ibsen: “Ibsen constrói o ser humano em cena com uma imensa complexidade. Os personagens possuem inúmeros vetores contraditórios e uma série de camadas de subjetividade que tocam instâncias não apenas psicológicas, mas sobretudo arquetípicas. Encenar um autor clássico como Ibsen é como tocar Bach ao piano – temos que descobrir de que modo cada acorde/ palavra precisa ser ativada para instaurar a densidade atmosférica que a obra requer” comenta Alvim.

Para dar vida aos personagens de Ibsen, Alvim buscou um elenco, que nas suas palavras, é quase “uma utopia realizada”. “Sempre tive o desejo de trabalhar com Guilherme Weber, Pascoal da Conceição e Mário Bortolotto. Esses três nomes possuem trajetórias notáveis no panorama do teatro brasileiro – Weber junto a Sutil Companhia de Teatro de Felipe Hirsch; Pascoal com o Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Correa; e Bortolotto em seu grupo Cemitério de Automóveis”. A eles somam-se Juliana Galdino, que fundou com o diretor a cia Club Noir, e Luísa Micheletti, atriz da cia há 2 anos.

Confira o que o Roberto Alvim, responsável pela direção, tradução e adaptação da obra de Henrik Ibsen, diz sobre o espetáculo Fantasmas:

"Fantasmas, peça escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1881, é considerada por muitos teóricos como a primeira tragédia moderna da História do Teatro: um pesadelo sobre religião, hipocrisia, corrupção, loucura, incesto e eutanásia.

Um dos temas centrais da peça é o peso que sistemas dogmáticos exercem em nossas vidas, soterrando nossos impulsos sob palavras mortas há milhares de anos, castrando nossa sexualidade, solapando nossa vontade de potência criadora... Estamos em uma época de recrudescência de fundamentalismos religiosos, questão de implicações radicalmente políticas, e a pergunta que se impõe é: por que precisamos desesperadamente de normas de conduta determinadas por religiões institucionalizadas?

O que a obra-prima de Ibsen parece nos desvelar é que a humanidade sempre teve uma imensa dificuldade em lidar com sua sexualidade e com os caminhos imprevisíveis, surpreendentes e dilacerantes do desejo...

Nesta peça, que foi proibida em diversos países da Europa quando Ibsen a escreveu, o tabu e a religião travam um embate apocalíptico, no qual a hipocrisia dos líderes religiosos e sua vontade de manipulação deflagram relações incestuosas, povoando o palco com os terríveis fantasmas de nossos desejos reprimidos. É então que entramos no campo ontológico da tragédia.

Há que se destacar a complexidade imensurável com que o autor constrói o ser humano em cena: cada uma das personagens luta com inúmeros vetores contraditórios, debatendo-se entre camadas de subjetividade que tocam instâncias não apenas psicológicas, mas sobretudo arquetípicas. A obra de Ibsen dignifica a condição humana, ao revelar que nossos desejos têm raízes muito mais profundas do que a cultura de massa, que nos bombardeia continuamente com estereótipos, quer nos fazer crer.

Trata-se de um texto aparentemente figurativo, mas que se abre para forças inconscientes, indomáveis, que correm por baixo das situações dramáticas e fissuram o véu frágil das aparências.

Encenar um autor clássico é como tocar Bach ao piano – temos que descobrir de que modo cada acorde (cada palavra, cada frase, cada tempo) precisa ser ativado para instaurar a densidade atmosférica que a obra necessita para amalgamar seus terríveis eventos. Trabalho dificílimo, posto que trafega fora dos códigos do comportamento normatizado. Mas uma vez que se consegue presentificar o universo do dramaturgo, que conduz nosso imaginário do mesmo modo como fazem os pesadelos, somos transportados para um território estético que amplia nossa experiência em direções desconhecidas."

A temporada de Fantasmas vai até 13/12/15, confira!

O que: Fantasmas
Quando:

Até 13 de dezembro. Sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 18h.

Onde:

Sesc Santana | Avenida Luiz Dumont Villares, 579 | 11 2971-8700

Ingressos:

Compra em nosso portal ou nas bilheterias das unidades do Sesc no Estado de São Paulo

 

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