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Mulheres têm suas próprias histórias pra contar

Ficção, feminismo, comportamento, literatura, cultura pop... Tudo isso está no radar criativo da escritora Aline Valek, seja em seu blog, na newsletter Bobagens Imperdíveis, no Medium ou na coluna que assina na Carta Capital. Nesta conversa com a Eonline, a autora dos livros Pequenas Tiranias e Hipersonia Crônica fala sobre a presença e a representação da mulher na literatura:  "Mais mulheres escrevendo trazem a possibilidade de outros pontos de vista na literatura. É a possibilidade de ouvirmos as vozes que foram sempre sufocadas e vermos que mulheres são diferentes, que não podem ser resumidas em clichês, que têm suas próprias histórias para contar".

A escritora participará do bate-papo Literatura e Gênero, dia 19/3 no Sesc Taubaté.

EOnline: No artigo Apoie a escritora, você fala das mulheres que nasceram escritoras mas que nunca puderam ser escritoras. Gostaria que você nos falasse um pouco sobre esta ideia.
Aline Valek: Se formos pensar que durante a história as mulheres sempre foram privadas de ter voz, oportunidades e recursos, então as escritoras que de fato conseguiram escrever foram uma parcela mínima das mulheres criativas e cheias de histórias para contar que poderiam ter se tornado escritoras mas não se tornaram; ou eram muito pobres, ou não puderam aprender a ler e a escrever, ou não podiam trabalhar, ou não poderiam se dedicar à escrita para cuidar dos filhos, ou tinham que trabalhar para sustentar sozinhas a casa e não puderam se tornar escritoras. Fico pensando que talvez eu nunca possa conhecer as minhas escritoras favoritas, porque, se escreveram, não chegaram à minha época; seus nomes foram apagados e seus trabalhos jogados no anonimato; tiveram suas vidas empurradas para a miséria e para longe da ficção.

EOnline:  De que maneiras o machismo se manifesta em obras literárias?
Aline Valek: O machismo pode se manifestar em estereótipos negativos de personagens mulheres ou na ausência delas. Colocar a mulher sempre num papel secundário, ou como a megera, ou como a mulher que precisa ser salva, ou ainda apenas como mulheres que existem em função de um protagonista masculino. Há também os casos em que mulheres nem aparecem na história, criando um padrão de histórias contadas por homens, sobre homens, fazendo coisas de homens e falando sobre homens. É na ausência ou no uso dos clichês que se perpetua uma história única, que não permite que outras narrativas sobre a mulher sejam criadas, influenciando a própria percepção da mulher na nossa realidade.


EOnline: Neste contexto, qual a importância de termos mais mulheres escrevendo e publicando suas obras?
Aline Valek: Mais mulheres escrevendo trazem a possibilidade de outros pontos de vista na literatura. É a possibilidade de ouvirmos as vozes que foram sempre sufocadas e vermos que mulheres são diferentes, que não podem ser resumidas em clichês, que têm suas próprias histórias para contar. Diversificar a produção literária é importante não só para as mulheres, mas para a literatura, para a própria sociedade; porque traz a possibilidade de sairmos das histórias únicas contadas sobre nós e construirmos narrativas mais diversas, mais humanas.


EOnline: Cite uma obra de ficção que na sua experiência seja importante na quebra de estereótipos sobre o gênero feminino.
Aline Valek: Difícil citar só uma, mas cito Jogos Vorazes, por ser uma história sobre uma jovem mulher no centro de uma trama política densa e violenta. Katniss está longe de ser a heroína que precisa ser salva por um homem, ela toma decisões e se torna um símbolo importante em uma revolução. Além de trazer várias outras mulheres fortes (e diferentes entre si) na história, acho essa obra importante especialmente por ter um apelo para o público adolescente, servindo para inspirar mulheres desde cedo e fazendo com que elas se sintam melhor representadas na ficção.

EOnline: Como foi a experiência de ilustrar o livro As Lendas de Dandara?
Aline Valek: Foi uma experiência de muito aprendizado e troca com a autora. Tivemos a responsabilidade de resgatar uma heroína histórica que foi apagada, então ao mesmo tempo que isso foi difícil por não haver registros de quem foi Dandara, isso também permitiu uma grande liberdade na hora de criar. Desde a narrativa até a construção visual, a ideia foi criar uma Dandara que quebrasse estereótipos, o que se manifestou na sua personalidade decidida, forte e de liderança, e também no seu visual: pele bem escura, mais escura que os outros personagens, e com o cabelo crespo sempre à mostra, características da negritude geralmente desprezadas, e que nesse livro seriam celebradas. E em meio a todo esse processo, tanto o crescimento de Dandara como personagem e de Jarid como autora me inspiraram muito e me mostraram como é gratificante trabalhar com mulheres, contando histórias de mulheres.
 

 

o que: Bate-papo Literatura e Gênero
quando:

Dia 19/3, às 14h30

onde:

Sesc Taubaté | Avenida Engenheiro Milton de Alvarenga Peixoto, 1264 | 12 3634-4000

quanto: Grátis

 

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