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Desce pra ver!

Painel Desce pra Ver<br>Foto: Matheus José
Painel Desce pra Ver
Foto: Matheus José

Até o dia 2 de julho, quem passar pela frente do número 554 da Rua Piauí, em São Caetano do Sul (Grande SP), verá que ao fim da rampa de acesso à unidade do Sesc há um painel ilustrado. 

O convite só poderia ser um: desce pra ver!. E então, a curiosidade é provocada por novas percepções e aguça o imaginário de cada um. Desce pra ver é uma mistura de sonhos e fantasias que nos remete para um lugar qualquer do nosso imaginário.

Conversamos com Marina Faria e Natália Regina Gregorini, as duas ilustradoras que toparam o desafio de criar o painel. Marina é formada em Design Gráfico pelo Senac e trabalha criando ilustrações editoriais, comemorativas e murais. Ministra oficinas relacionadas ao desenho, à criação de histórias e ao exercício da imaginação. Natália é ilustradora e tem dois livros publicados, sendo o último um romance fantástico da Coleção Galo Branco. Ela também integra o coletivo Gravoar, onde ministra oficinas de xilogravura em diversos locais.

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EOnline: Foi a primeira vez que vocês conceberam uma obra juntas?

Marina: Não, mas a primeira vez aconteceu muito recentemente. Estudamos ilustração juntas há alguns anos, entre cursos e grupos de estudos, e sempre tivemos vontade de criar um mundo em que nossos trabalhos se encontrassem. A oportunidade veio no ano passado, quando a Renata Mesquita me convidou para ocupar as paredes da área de convivência do Sesc Taubaté, um mural chamado: “Vem que no caminho eu te explico”. O espaço era grande (foram 5 grandes paredes nessa primeira vez) e achei que era a oportunidade que estávamos esperando. Convidei a Natália pra me acompanhar na criação e, pra minha alegria, ela topou na hora. A primeira intervenção aconteceu em outubro. Voltamos meses depois, na primeira semana deste ano, para uma segunda intervenção, que transformava a primeira, reforçando o caráter narrativo das imagens que havíamos proposto para as paredes. O próprio tamanho da intervenção mudou: a história ganhou mais 4 grandes paredes. Tínhamos a sensação de estar sendo envolvidas pela história, como se ela tivesse lugar no mundo, não apenas nas paredes.

EOnline: Como a ilustração surgiu na vida de vocês? Além do trabalho com painel, em que outros suportes vocês criam? Que outras atividades derivam desta?

Marina: Nossa, essa questão leva a gente bem longe no tempo! Acho que eu sempre quis ser ilustradora, antes mesmo de saber que existia essa profissão. Quando era criança, uma das minhas brincadeiras favoritas era fazer livros ilustrados. Mesmo assim, o caminho não foi muito reto. Não existe formação em ilustração nem em livro ilustrado no Brasil. Fui estudar design gráfico e trabalhei com design durante algum tempo. Recém formada, comecei a fazer ilustrações esporádicas pras mais diversas mídias (jornal, revista, blog, murais — o primeiro projeto mural foi no Sesc Pompeia, a convite da Sandra Leibovici e da Simone Wicca), até que veio o primeiro livro ilustrado e compreendi que era hora de retomar pra valer o sonho que eu tinha desde pequena. Passei a me concentrar no trabalho com ilustração e as proporções se inverteram — o design é que se tornou apoio do trabalho. Além dos suportes que mencionei, também começaram a aparecer as exposições, oficinas, bate-papos e outras oportunidades pra falar sobre ilustração.

EOnline: Há artistas em que vocês se inspiram?

Natália: Muitos muitos! Não somos nunca sozinhos em nossas criações. Como venho das artes plásticas minhas primeiras referências foram grandes artistas, pintores, gravadores.. Gostava muito de ver as obras de Chagall, Cezanne, Van Gogh, Picasso, Guignard, e tantos outros. Não tinha muitas referências de livros ilustrados até ser apresentada a este mundo pelo ilustrador Odilon Moraes, nos cursos que história da ilustração que participei. Ele abriu meus olhos para os livros e desde então ilustradores como Shaun Tan, Lisbeth Swerger, Susy Lee, Gabrielle Vincent, Eva Furnari, Rebecca Luciani, Rebecca Dautremer, o próprio Odilon Moraes e muitos outros, são minhas companhias preferidas.

Marina: Uma infinidade...!  A primeira aproximação foi pelo universo das artes plásticas, que eu tinha contato em casa — livros de pintura, exposições que eu visitava com meus pais — e nas aulas da faculdade... Veio a paixão por Toulouse Lautrec, Odilon Redon, Van Gogh, Tarsila, Rembrandt (e muitos etc!). Depois é que conheci os ilustradores, através de pesquisas pessoais e, em grande parte, através das aulas e conversas com o ilustrador Odilon Moraes (um contato que tem sido fundamental na minha formação como ilustradora). Aí apareceram o Arthur Rackham, a Lisbeth Zwerger, o Maurice Sendak, o Shaun Tan, a Eva Furnari (ela foi resgatada da memória de criança, pois o trabalho dela acompanhou minha infância) e muitos e muitos outros. No painel que fizemos em São Caetano, aparece um personagem que é uma homenagem a um desses ilustradores que admiramos. O menino fantasiado de bicho, com uma coroa, é uma citação do Max, do livro "Onde Vivem os Monstros", do Sendak. O Max tem uma jornada interior por um mundo fantástico. No painel, propusemos que nosso mundo interior entrasse em contato com o mundo real e é o Max quem convida o transeunte a participar dessa fantasia.

EOnline: Como foi o processo criativo para o painel 'Desce pra ver'?

Natália: Como nós duas somos muito ligada às histórias, partimos da criação da história que a imagem do painel faria parte. Escrevemos em conjunto, uma escrevia uma parte e a outra continuava e assim íamos até chegarmos a um ponto em que sentíamos já ter a nossa história.
Depois, a partir do texto e de referências que tínhamos como livros e imagens que achávamos que tinham uma atmosfera parecida com o que imaginávamos, começávamos a desenhar. No caso deste projeto, como tínhamos de escolher uma cena que em si contivesse toda a força da história, demoramos para encontrar o momento certo da narrativa que seria transformado no painel. Foi um processo diferente dos anteriores pois tínhamos menos espaço e precisávamos da conta de contar uma história em apenas uma cena e precisávamos também entender melhor como nossos desenhos se comunicariam, pois nossos mundos, desta vez, precisavam ser  um mundo só. Foi um processo maravilhoso e de muito aprendizado. Fico emocionada de ver que estamos encontrando esse mundo em que nossas criações são mesmo como velhos amigos de lugares diferentes que se reencontram naquele novo espaço.

EOnline: Há uma história a ser contada pelos personagens que se encontram na cena?

Marina: Sim, o que vemos ali é um ponto chave de uma história. O ponto inicial são as criaturas chegando e se encontrando. Elas estão preparando algo especial para ocupar aquele espaço. Aos poucos vão se juntando e reunindo em um abraço, como quem vai contar um segredo. Desse encontro, nasce uma árvore luminosa, de onde irradiam folhas de luz. Também desse espírito do encontro nasce uma criatura que vai até a porta e bate, chamando quem está lá dentro. O que elas querem é reunir a maior quantidade possível de seres para multiplicar esse mundo fantástico. A pessoa que vem abrir a porta é uma pessoa comum e que não se dá conta de imediato do que se passa. É esse momento exato que vemos no painel e, para chegar até ele, fizemos os desenhos numa ordem em que essa história fosse contada — é provável que se possa compreender esse movimento através do time lapse. O que se segue na história é o espanto dessa pessoa, que será superado pelo encantamento que a levará a se juntar ao grupo, já transformada em uma criatura tão fantástica quanto as outras. Esperamos que o público que toma contato com essa imagem viva essa experiência e se sinta igualmente convidado a participar, trazendo à tona o mundo mágico interior que cada um de nós carrega e que torna possíveis as coisas mais inacreditáveis. Vemos o Sesc como o ponto de encontro que oferece o espaço ideal para que esse tipo de atitude floresça e daí vem o convite para entrar e explorar dois interiores: o da unidade e o de cada um, em contato com outras pessoas e com as atividades que são oferecidas ali.

EOnline: Como é ter uma obra em um espaço aberto ao público, inclusive aos transeuntes?

Natália: É maravilhoso! Eu sinto como se fosse mesmo um portal que abrimos que faz com que essa experiência de trazer nossos desenhos em grande escala para o mundo faça com que este mundo criado seja real, que as pessoas possam dialogar com as personagens com o corpo todo, como se conversassem com amigos no dia a dia. A experiência de pintar esses painéis e poder acompanhar a reação dos observadores é também incrível. É uma experiência muito intensa fisicamente pra nós, pois temos que pintar e movimentar o corpo todo, muito diferente do que habitualmente fazemos quando pintamos no papel, pequeno, com o corpo curvado sobre a mesa. São magias diferentes. E nesse caso, dos painéis, as pessoas que passam nos alimentam e nos dão mais energia a cada olhar brilhante e a cada comentário que fazem.

Marina: É uma experiência muito enriquecedora. O ilustrador raramente têm a oportunidade de interagir com seu público, mas fazer um painel não só coloca ilustrador e público em contato como o faz num momento extremamente poderoso, que é o da criação. Embora já exista um projeto e uma intenção, muitas decisões fundamentais só são tomadas no momento da execução e o público vê essas decisões nascerem e tomarem forma. Ele participa ativamente delas, porque passa, olha, comenta, dá seu depoimento — e tudo isso são elementos que são incorporados naturalmente no processo criativo. Ele também pergunta como chegamos até ali, de onde vieram aquelas ideias, como ele mesmo poderia fazer algo assim... Diz como se sente ao ver aquela imagem, que pessoa ou acontecimento aquelas personagens trazem à sua memória, qual é a história que ela reconhece ali. A troca é intensa e extremamente gratificante. Sempre terminamos um projeto mural com uma porção de novos amigos e pessoas queridas. Além do público, há sempre um sem número de profissionais envolvidos, responsáveis pelas mais variadas atividades (como preparar o espaço, o equipamento, a comida, fotografar, direcionar o fluxo de pessoas, etc) e sem os quais não se poderia fazer esse tipo de trabalho com qualidade.

Para ver a construção do painel, é só dar play:


 

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