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Trajetórias: uma breve reflexão sobre nossas matrizes culturais

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“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”
Carlos Drummond de Andrade.


Nas culturas tradicionais cabe às gerações mais velhas preservar e transmitir códigos, valores e saberes essenciais para o bem comum. Na falta de modelos educativos formais, esses exemplos de autoridade inspiram uma conduta a ser seguida. Para esses indivíduos - e sociedades - a perda da memória coletiva poderia ser um golpe devastador, pois embotaria as referências de identidade e unidade construídas pela comunidade.

No mundo contemporâneo, os lugares e papéis sociais tornaram-se mais flexíveis e intercambiáveis. A despeito de certa hegemonia das mídias de massa, uma pluralidade de vozes alcançou representação produzindo discursos, questionando valores, experimentando novos arranjos e possibilidades de interagir no mundo. Diante das complexidades em disputa, os mais velhos foram sendo marginalizados; contudo, respeitar suas vivências, e se beneficiar de suas experiências e contribuições, denota uma atitude de convivência e cooperação entre os diversos grupos sociais.

É nesse sentido que o Sesc Piracicaba realiza o projeto Trajetórias, com curadoria do jornalista Romualdo da Cruz Filho, que promove um espaço de compartilhamento entre idosos, protagonistas em suas áreas de atuação, e a comunidade piracicabana, tendo como ponto de partida aspectos da vida profissional dos convidados, o cotidiano e a dimensão pública que os colocam em sintonia com as gerações atuais e as questões instigantes da contemporaneidade. A questão do acelerado envelhecimento da população mundial enseja reflexões e transformações urgentes.
Envelhecer é um processo natural que começa assim que se nasce. Assim, ao promover a cultura do envelhecimento por meio da valorização de idosos atuantes na comunidade, revelam-se inusitadas pistas de presente, a servirem como bússolas, nessa aventura que é viver.

Trajetórias

Prestar homenagens a profissionais que se dedicam ao mundo do conhecimento e da arte; refletir sobre a riqueza do material que produziram ao longo da vida e o valor que ainda preservam como fontes de pesquisa; avaliar o significado desse longo processo e suas implicações pessoais; pensar sobre a velhice e as lembranças que marcaram o tempo. Essas são propostas do projeto  “Trajetórias”.
Os homenageados desta primeira edição são referências do universo musical, artes plásticas, filosofia, jornalismo e história e foram escolhidos a partir dos seguintes critérios: reconhecimento público, vasta produção em suas respectivas áreas de especialidade e idade.
Cada encontro terá uma estrutura flexível e dinâmica, em formato de revista, com uma entrevista ao vivo, complementada por esquetes teatrais e intervenções musicais. Na conversa com o jornalista, cada convidado poderá falar sobre sua formação, os caminhos que escolheu trilhar, os artistas e pensadores que os influenciaram, o resultado do seu trabalho e a relação com o envelhecimento.
Serão encontros dinâmicos e instigantes, realçando o protagonismo social do entrevistado e a importância do seu trabalho para se compreender a “Cultura Caipiracicabana”. O objetivo é provocar cada convidado para que apresente histórias particulares ou não, mas ainda pouco conhecidas pelo público em geral e que merecem ser compartilhadas.

Ernst Mahle

Nasceu em Stuttgart, na Alemanha, em 1929. Por conta de perseguição no calor da Guerra, mudou-se juntamente com a família para o Brasil em 1951 e, dois anos depois, tornou-se um dos fundadores da Escola de Música de Piracicaba, onde exerceu durante 50 anos as funções de diretor artístico, professor e maestro dos vários conjuntos da entidade: Coro, Orquestra de Câmera e Sinfônica.

Naturalizado brasileiro desde 1962, recebeu o título de “Cidadão Piracicabano” em 1965 por seus trabalhos em prol da educação da juventude. Idealizador e presidente da Comissão Julgadora dos Concursos Jovens Instrumentistas Brasil – Piracicaba, de 1971 a 2003; foi professor em vários cursos de férias e festivais de música e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea; atualmente é membro da Academia Brasileira de Música.

Estudou composição com renomados profissionais, como: J.N. David na Alemanha, H.J. Koellreutter no Brasil e O. Messiaen, W. Fortner, E. Krenek em cursos internacionais de férias; estudou também regência com L. Von Matacic, R. Kubelík e Mueller-Kray.
Mahle é premiado em vários concursos de composição. Em 1995 recebeu o Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e em 2006 o Prêmio Martius Staden, conferido anualmente pelo Instituto Martius Staden ao profissional que mais contribuiu para o intercâmbio cultural Brasil-Alemanha. Em 2010, recebeu o prêmio APCA pelo conjunto de sua obra.
Entre suas composições figuram obras para todos os instrumentos de orquestra, música de câmera para as mais variadas combinações, concertinos e concertos; obras para canto, coro, orquestras de câmera e sinfônica, ballet e três óperas: Maroquinhas Fru-Fru (1974); A Moreninha (1980) e O Garatuja (2005). 

Mahle regeu, em 2014, oito recitais de sua ópera A Moreninha, um projeto aprovado pelo ProAc. Datam de 2015 várias composições para violão, como o Concerto para Viola e Sinfônica e de 2016, a Fantasia para Oboé e Orquestra.

Carmela Pereira

Neta de escravos, nasceu em 1936, no sítio da vó Beba, de nome Rio Acima, no povoado do bairro Monte Alegre. Com a morte dos pais, foi encaminhada ao Asilo de Órfãs Coração de Maria Nossa Mãe, só para meninas, onde iniciou seus estudos. Desde criança demonstrou sensibilidade à pintura e à escultura, técnicas que desenvolveu como autodidata. Seu talento foi revelado nos anos

80 por José Maria Ferreira, crítico de arte. Foi premiada em várias edições da Bienal Naïfs do Brasil, devido à riqueza primitivista de suas composições que incorporam elementos da cultura africana, sua formação religiosa e a memória de uma infância na roça. Os prêmios conquistados foram: Menção Honrosa (1992), Prêmio Aquisição (1994) e Elogio da Crítica (1996).
Como contadora de histórias, recorda o encontro inusitado e surpreendente que teve com o Saci Pererê, aos sete anos de idade. Outro feito da artista é a composição do hino ao líder negro Zumbi dos Palmares. Carmela é autora de vários livros, como: A Galinha Carijó, Conflito entre os Astros, A Gata Malhada, O Folclore de Piracicaba, 303 anos sem Zumbi, Manual da Empregada Doméstica, entre outros. 

Atualmente dedica-se ao Manual da Bruxinha Boa com enredo de magias e brincadeiras para as crianças e o Nascimento de Bila, que retrata seu encantamento com as constelações e o mundo nas diversas galáxias.

Cecílio Elias Netto

Polêmico e muito criativo, tem paixão pela cidade e seu patrimônio imaterial. Como jornalista se destacou pela qualidade literária dos seus textos. O estilo cáustico e desafiador tornou-se a marca registrada de suas manifestações como editorialista.

Cecílio é também um importante estudioso sobre os movimentos políticos de Piracicaba. Escreveu vários romances de costume, referências para o entendimento da tradição local. Atualmente é editor do site A Província.
A obra com a qual alcançou destaque no cenário nacional foi o Dicionário do Dialeto Caipiracicabano - Arco, Tarco, Verva – coletânea de frases e expressões típicas da cidade.
Neste encontro, o convidado apresenta um balanço sobre o seu trabalho: o que deu certo, o que deu errado, o que ele mudaria se pudesse voltar no tempo. Em especial, como encara o seu trabalho neste momento especial da vida em que a velhice tornou-se uma companheira inevitável.

Francisco Cock Fontanella

Doutor em Filosofia da Educação, professor da pós-graduação em Educação da Unimep (1992/2007), capixaba de nascimento, chegou à Piracicaba no período áureo da instituição então dirigida por Almir de Souza Maia. Iniciou seus trabalhos na universidade, baseado na obra de Emannuel Kant. Portanto, referência kantiana em um núcleo acadêmico, em que seus pares eram predominantemente ligados à teologia da libertação e ao marxismo. Destaca-se ao representar essa geração de pensadores que chegaram na cidade pelas mãos do pedagogo, doutor em educação e ex-reitor da Unimep, Elias Boaventura.
Nos anos 90 foi convidado para compor e fortalecer o Núcleo de Filosofia e História do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unimep. 
É interessante saber como ele conseguiu mesclar campos distintos do conhecimento: a metafísica idealista e o materialismo histórico. Seu livro O Corpo no Limiar da Subjetividade é a obra de referência para se entender esse processo, na qual ele faz uma leitura da moral contemporânea, relacionando dois elementos que se alimentam e se contrapõem: o corpo físico e a parte não física da natureza humana, a alma, o espírito. Trata-se de um estimulante exercício de reflexão.

Marly Therezinha Germano Perecin

Historiadora, doutora em História Social do Brasil pela USP, fez carreira no magistério público onde se aposentou. Paralelamente desenvolveu pesquisas junto ao Arquivo do Estado de São Paulo, onde fez levantamento da política colonial sob o governo de Morgado de Mateus, no século XVIII, no Oeste Paulista e Sul do Brasil. Destes trabalhos de pesquisa resultaram monografias publicadas em revistas especializadas e subsídios para a trilogia Encontro das Águas da qual fazem parte Ypié (Maria dos Anjos), As Águas do Adeus e Candeias em espelho d’Água. São textos de literatura histórica cuja abrangência vai do século XVIII ao XIX, constituem referência fundamental ao entendimento da evolução da economia e da sociedade do Oeste Paulista e sua cultura típica, a chamada Cultura Caipira. Como exemplo a Festa do Divino, presente em toda região, que representa o cerne de nossa cultura no Vale Médio Tietê.

Possui outras obras na linha das monografias. A Escola Instituto Baroneza de Rezende, A Síntese Urbana e os Passos do Saber e A Escola Agrícola Prática Luiz de Queiroz, que foi sua tese de doutorado merecedora de edição especial pela EDUSP, em 2004.
Também possui outros trabalhos, Alexandrina in Concert como experiência em teatro e os projetos de memoriais para ACIPI e ESALQ. O primeiro se materializou em 2010 na sede da própria instituição e constitui uma amostra das realizações piracicabanas na área do comércio. 
Na linha de pesquisa em história da arte produziu estudo crítico-iconográfico sobre o acervo pictórico da Igreja Matriz ituana O Esplendor do Vale.
Escreve artigos em jornais, revistas e faz análise política no Jornal de Piracicaba. Além de professora, palestrante e escritora, ocupa-se com os afazeres da casa, suas plantas e experiências culinárias, mas seu coração pertence aos filhos e netos, enquanto faz do Rio Piracicaba um referencial mítico em sua vida, a exemplo do que ocorre em sua família há sete gerações.

 [Fotos: Thiago Altafini]

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