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postado em 25/01/2021

São Paulo resistirá à pandemia?

Vista do mirante do Sesc Av. Paulista. Foto: Francis Anderson | Pixabay
Vista do mirante do Sesc Av. Paulista. Foto: Francis Anderson | Pixabay

      


Em seu aniversário de 467 anos, fica a pergunta: que cidade desejamos para o século XXI?

Por Nabil Bonduki*

 

São Paulo faz 467 anos em tempos da pandemia, um momento difícil para a humanidade e para a vida urbana, onde o vírus se difunde com mais facilidade. A Covid 19 já ceifou a vida de 25 mil paulistanos, entre casos confirmados e suspeitos, o que significa mais de um óbito a cada 500 habitantes. Quem não teve um ente querido levado nesse ano? Estamos de luto, sem ter o que comemorar. Nem mesmo a vacina, que ainda vai demorar para chegar a todos.

A cidade que desejamos está muito longe daquela que temos, muito mais longe do que há um ano. A pandemia escancarou a desigualdade em vários aspectos da vida urbana, na moradia, na mobilidade, no acesso aos serviços de saúde e educação, na conexão com a internet e com o mundo virtual, que se tornou nossa válvula de escape.

“Fique em casa”, a recomendação básica para evitar a Covid, é uma ficção para quem não tem casa, a população em situação de rua. Ela cresceu enormemente com os despejos dos muitos que não conseguiram mais pagar aluguel com a crise e a miséria que cresceu neste ano. Famílias inteiras foram para a rua e muitas estão abrigadas em barracas de camping nas calçadas da cidade. 

 


Sem-teto em São Paulo. Foto: Wilfredor | Wikimedia Commons

 

Para os 27% dos paulistanos que vivem em moradias precárias, onde três ou mais pessoas dormem no mesmo quarto, é muito difícil “ficar em casa”. A aglomeração que se quer evitar na rua está dentro da moradia, que ainda sofre com uma difícil conexão com a internet. Para os que precisam sair, como não se aglomerar no transporte coletivo quando a redução da frota mantem ônibus sobrelotados, verdadeiros vetores de contaminação. 

Em meio a uma 2ª onda, a situação é grave, mas é nesses momentos de dificuldades que as pessoas e os governos podem despertar e construir uma estratégia de superação. Ao invés de se acomodar ou cair na depressão, temos que buscar alternativas. E cobrar dos governos ações concretas para enfrentar a crise e, se possível, sair melhor do que entramos. Em São Paulo, já perdemos um ano, sem nenhuma iniciativa para enfrentar a crise, não podemos perder outro.

 

Planejamento

O norte para pensar o futuro da cidade e o que precisamos fazer para alcançá-la está expresso nos objetivos do Plano Diretor Estratégico (PDE) de 2014: uma cidade menos desigual, mais inclusiva e sustentável, mais humana e acolhedora, mais cultural. O PDE traçou uma estratégia urbana para transformar a cidade nessa direção e, mais do que nunca, precisamos tirar esses desejos do papel e agir. 

Para isso, São Paulo precisa de homens públicos com visão estratégica e que pensem grande. Que sejam inovadores e corajosos para aceitar desafios. Que saibam dialogar com diferentes segmentos da sociedade para construir consensos e colocar em prática uma espécie de “New Green Deal” urbano, que combine de maneira harmônica as quatro dimensões da cidade: social, econômica, ambiental e cultural.

 


Refroma do Vale do Anhangabau. Foto: João Alvarez | twitter.com/folha

 

Não podemos desperdiçar recursos em projetos supérfluos, caros, mal equacionados e que não enfrentam nenhum dos graves problemas da cidade, como a reconstrução do Anhangabaú, onde cem milhões de reais foram gastos enquanto ali no entorno a população em situação de rua só crescia. Não podemos fazer mais do mesmo, como recapear o asfalto, quando a cidade precisa ampliar o sistema de transporte coletivo de massa.

 

Habitação

A pandemia explicitou a gravidade da questão da habitação. Temos que ter um plano para garantir uma moradia digna para todos. Para isso, é necessário traçar uma intervenção emergencial de habitação e saneamento. Seria uma resposta efetiva à crise gerada pela pandemia, tanto para atender o direito de ficar em casa com dignidade como para gerar empregos, reativar a economia e ampliar a arrecadação.

A produção de moradias deve priorizar as áreas próximas dos locais que concentram o trabalho, reduzindo a necessidade de grandes deslocamentos, o que faz bem para as pessoas, para a economia e para o meio ambiente. Para isso, é fundamental combater a especulação com imóveis ociosos, para fazer cumprir a função social da propriedade.

 


Edifício ocupado na avenida 9 de Julho. Foto: Toni Pires | Divulgação

 

Os mais de 80 edifícios ocupados pelos movimentos de moradia na área central, assim como os explorados como cortiços insalubres, deveriam ser os primeiros a serem reabilitados, preferencialmente por processos autogestionários, contando com a participação dos próprios moradores e a custos mais baixos que os convencionais. Terrenos vazios, estacionamentos, galpões subutilizados e edifícios obsoletos precisam virar habitação social. 

Na outra ponta da cidade, favelas e assentamentos precários precisam ser saneados, urbanizados e qualificados para reduzir a desigualdade socioterritorial e a segregação. A criação de pólos de desenvolvimento econômico, definidos no PDE para gerar trabalho nas áreas com vulnerabilidade social, é essencial. 

 

Meio ambiente

Para os paulistanos, tão importante quanto evitar o desmatamento na Amazônia é preservar as áreas protegidas urbanas demarcadas no PDE: os remanescentes da Mata Atlântica, as Áreas de Proteção Permanente (APP) junto aos córregos e fundos de vale, a Zona Rural e o território guarani. Implantar os 168 novos parques propostos para que a cidade possa compatibilizar zonas adensadas junto ao sistema de transporte coletivo de massa com áreas livres e verdes.

 


Ciclo faixo no Viaduto do Chá. Foto: José Cordeiro | Divulgação

 

Priorizar a questão ambiental é obrigação nesses tempos de emergência climática: garantir uma gestão sustentável dos resíduos sólidos, usar energia limpa nos ônibus, despoluir os cursos d'água, estimular a energia solar e promover a segurança hídrica. O espaço viário precisa ser democratizado, reservando faixas exclusivas e qualificadas para o transporte coletivo e para a mobilidade ativa, dos pedestres e ciclistas. A cidade precisa ser das pessoas e, para isso, o uso do automóvel precisa ser racionalizado. O inventário das emissões mostrou que 65% dos gases de efeito estufa na cidade decorrem da nossa mobilidade insustentável.

 

Vida urbana

Os lugares de memória e os espaços culturais precisam ser protegidos, pois sem identidade não há futuro. No aniversário de São Paulo, homenagear os pontos de referência que revelam nossa história é indispensável. A cidade dos nossos sonhos é da cidadania cultural, que transforma as áreas públicas em arenas culturais, lugares de vivência e de sociabilidade. Espaço público povoado pela cultura é lugar seguro.

É essa a cidade que desejamos construir nos próximos anos, mas a situação é tão grave que precisamos antes evitar que percamos a cidade que tínhamos. Ela foi fortemente abalada pela pandemia.

As recomendações para evitar a transmissão do vírus (praticar o isolamento social, evitar aglomerações e o transporte público, não frequentar ambientes públicos fechados, etc.) são essencialmente “antiurbanas”, porque restringem a circulação de pessoas. O que enriquece a vida em metrópoles como São Paulo é a possibilidade de juntar gente, de gerar encontros e aglomerações. Isso está proibido, a bem da saúde pública. 

 


Rua 25 de Março vazia. Foto: Mapio | FAUUSP

 

Mas as metrópoles não resistem a isso. Elas se caracterizam por reunir milhões de pessoas em um pequeno território, abrindo-se assim a uma gama de infinitas possibilidades: encontrar pessoas interessantes e manter intenso relacionamento social; ir a bares, restaurantes, festas e casas noturnas; ter à sua disposição uma grande oferta de equipamentos e eventos culturais, cinemas, teatros, shows, exposições e museus; frequentar uma diversificada e especializada rede comercial e de serviços; reunir cérebros e polos de conhecimento e desenvolvimento científico, centros de pesquisa e universidades. Essa é a riqueza da vida urbana.

Há quase um ano essa potencialidade está suspensa e os impactos são enormes. Quantos teatros, cinemas, bares, restaurantes, casas noturnas, hotéis e lojas vão resistir às restrições, que voltaram agora na 2ª onda? Não podemos perder tantos lugares e instituições, que são a alma da cidade. Mantê-los é fundamental. A vida urbana que conhecemos não irá resistir a essa pandemia sem um apoio mais forte do poder público.

 

Pós-pandemia

No último ano surgiu uma nova cultura que pode abalar os alicerces da vida urbana contemporânea: viver no isolamento. Possibilidades que já eram disponíveis, mas não usuais, passaram a fazer parte do cotidiano, como lives, aulas e consultas online, teleconferências, delivery, e-commerce e home office. De uma hora para outra, viver nas cidades passou a ser dispensável para muitos. 

Cerca de 10% dos moradores dos bairros de classe média deixaram a cidade e passaram a viver em casas no litoral, na serra ou no campo, de onde exercem normalmente suas atividades. Muitos, mesmo vivendo na cidade, vão se acostumando ao trabalho e entretenimento em casa. Isso afeta muito uma metrópole como São Paulo, que pode perder o que tem de melhor.

 


Virada Cultural 2019. Foto: Nelson Antonie Milenar | Divulgação

 

O que enriquece a vida urbana é a possibilidade de reunir pessoas em lugares públicos que, para se viabilizar economicamente, necessitam de gente, de muita gente. O que seria da cidade sem a Virada Cultural e o Carnaval de Rua, sem a Paulista Aberta, sem os bares, restaurantes e a vida noturna, sem os cinemas, teatros, centros culturais, exposições de arte, museus e shows? 

Para uma São Paulo mais inclusiva, precisamos de uma ação emergencial, sobretudo na moradia. Mas, além disso, não podemos deixar que a pandemia e seus efeitos nefastos desestruture a cidade que tínhamos, com sua enorme rede de espaços culturais, de entretenimento, de gastronomia e lazer. Se eles desaparecerem, São Paulo nunca mais voltará a ser a mesma.  

 

*Nabil Bonduki é arquiteto e urbanista e professor titular de planejamento urbano na FAUUSP. Foi o relator e autor do texto aprovado do Plano Diretor Estratégico de São Paulo e Secretário Municipal de Cultura de São Paulo.
 

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