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postado em 06/05/2021

Mau tempo

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Fascismo e totalitarismo, palavras que retornam ao debate político em contexto diverso daquele em que foram forjadas, servem como pano de fundo para o livro Mutações: ainda sob a tempestade, organizado por Adauto Novaes

Por Andre Scoralick*

 

A ascensão da extrema direita em várias partes do mundo, nos últimos anos, e o emprego crescente de práticas antidemocráticas trouxeram de volta à cena pública e ao debate político duas palavras que pareciam relegadas aos livros de história: fascismo e totalitarismo. O retorno desses termos às mentes progressistas mais ilustradas vem acompanhado da pergunta sobre as condições de seu emprego na descrição do mundo atual, bastante diverso daquele em que foram forjados. Esse é o pano de fundo dos textos que compõem este livro. A partir dele, seus autores percorrem diferentes vias.

Éric Fassin analisa o populismo da extrema direita, enquanto Renato Janine Ribeiro discute as relações entre o fascismo e a banalização da violência, e Newton Bignotto examina o problema da xenofobia e do acolhimento ao estrangeiro a partir de conceitos como hospitalidade, fraternidade e solidariedade, e a partir dos direitos humanos.

Vladimir Safatle examina a atualidade das análises da economia libidinal fascista realizadas pela primeira geração da Escola de Frankfurt, enquanto Maria Rita Kehl encontra nos conceitos freudianos de castração e perversão referências que ajudam a explicar a psiquê do fascista e de um “parente próximo” – o machista.

Grégoire Chamayou propõe uma genealogia do liberalismo autoritário, enquanto Marilena Chauí entende que o neoliberalismo é a nova forma do totalitarismo, “pois em seu núcleo encontra-­se o princípio fundamental da formação totalitária: a recusa da especificidade das diferentes instituições sociais e políticas, que são consideradas homogêneas e indiferenciadas porque concebidas como organizações, isto é, como empresas – forma que, no mundo neoliberal, abarca tudo.”

Para Helton Adverse, uma das condições do totalitarismo é a credulidade que, por sua vez, assenta-­se no estreitamento do espaço público, lugar em que os juízos do indivíduo são submetidos à crítica.

José Raimundo Maia Neto analisa uma longa tradição cristã obscurantista para contextualizar o fundamentalismo religioso da atual extrema direita cristã e sua aversão à racionalidade filosófico-­científica.

 


Trecho do livro

 

Outros autores, enfim, encontram as raízes do mal-­estar contemporâneo no projeto moderno de dominação técnica do mundo que, orientado pela noção de eficácia, instrumentaliza a ciência e nos impõe uma visão de mundo pragmática e utilitarista, quando não cínica. Seguem nessa direção, por diferentes vias, Olgária Matos, que analisa o fenômeno do desenraizamento no mundo contemporâneo, Márcia Sá Cavalcante, que discute o uso de ambiguidades pelo discurso neofascista, Pedro Duarte, em seu exame da crítica de Hannah Arendt à resposta política de Heidegger ao problema da técnica, e Oswaldo Giacoia, para quem vivemos os efeitos da radicalização do niilismo.

Para esses autores, a retomada da crítica ao projeto moderno de dominação técnica do mundo é ainda mais urgente porque, como mostra Luiz Alberto Oliveira, os avanços recentes na matemática não linear, nas teorias do caos e nos modelos computacionais possibilitaram enormes avanços na compreensão de sistemas complexos, o que vem diluindo a fronteira entre as ciências da natureza e as do homem, e criando novas possibilidades de conhecimento – e controle – das coisas humanas.

Os textos de Antonio Cicero, Eugênio Bucci, Renato Lessa, Franklin Leopoldo e Silva, Jean­Pierre Dupuy, Pascal Dibie e Eugène Enriquez completam esta preciosa coletânea – imprescindível para quem quiser pensar, como diz Adauto Novaes, “nossos tempos de mutações”.

 

*Andre Scoralick é Doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo. Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.

 

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