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postado em 31/05/2021

Um olhar sempre à frente

Anna Bella Geiger | Foto: Diana Tamane
Anna Bella Geiger | Foto: Diana Tamane

      


Um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, Anna Bella Geiger é revisitada no segundo livro da coleção Arte, Trabalho e Ideal


Filha de pais imigrantes poloneses, que desembarcaram no Rio de Janeiro na década de 1920, Anna Bella Geiger despertou para a arte, mesmo que inconscientemente, quando ainda era muito pequena. Conta ela que por volta dos dois anos de idade, com um lápis em mãos, já desenhava pelas paredes de sua casa. A experiência rotineira deixou nela bem marcada a necessidade de se expressar e o desejo constante de concluir os desenhos que via nascer. Sobretudo, expunha para todos sua vocação precoce para as artes.

Não à toa, ela desempenha um papel imprescindível e com características únicas na arte contemporânea brasileira, fatos esses que precisam ser cada vez mais conhecidos pelo público contemporâneo. Por isso mesmo, Anna Bella Geiger é o título do segundo livro da coleção Arte, Trabalho e Ideal, publicado pelas Edições Sesc São Paulo e organizado pela artista plástica Fabiana de Barros, pela jornalista e editora de imagem Marcia Zoladz e pelo cineasta e fotógrafo Michel Favre.

Na publicação, o leitor entra em contato com a artista primeiro por meio de um texto escrito por um profissional escolhido por ela mesma. No caso, Estrella de Diego, ensaísta e professora titular de Arte Contemporânea na Universidade Complutense de Madri. Depois, é a vez de ler uma longa entrevista concedida por Anna Bella, hoje com 88 anos, ao mexicano Pablo León de la Barra, curador da América Latina no museu Solomom R. Guggenheim, em Nova York.

“Investigar ‘arte, trabalho e ideal’ é como colocar em uma perspectiva triangular as relações entre o artista, os meios que ele emprega e a coletividade. É uma geografia tão variável e mutável quanto existem práticas, pensamentos e indivíduos. Um triângulo sempre em movimento, como um protótipo que escapa a modelizações”, enfatizam os curadores e idealizadores do projeto. “O trabalho do artista é abordado como um ato de transformação feito de tensões e resistências entre uma intenção e um gesto, uma ideia e um ideal, em contextos incessantemente redefinidos.”

 


O pão nosso de cada dia, obra apresentada na 39ª Bienal de Veneza, de 1980

 

Durante a adolescência, Anna Bella foi aluna de Fayga Ostrower (1920-2001), artista que seria apontada como pioneira da gravura abstrata no Brasil. Junto a sua mestre, vivenciava o caráter experimental da arte – a experiência transgressora – assim como se dedicava aos trabalhos figurativos para também compreender e adentrar o abstracionismo, tanto na pintura quanto na gravura. Segundo Anna, Fayga promovia o ambiente ideal para que seu processo individual acontecesse de maneira profunda, acessando no que produzia um sentido ideológico e socialista da época.

Aos 20 anos foi para Nova York, onde ficou por dois anos estabelecendo relações com uma modernidade ainda pouco vivida no Brasil e expandindo sua produção dentro do expressionismo abstrato. E é na metrópole norte-americana, no final dos anos 1960, que ela percebe o crescimento da arte conceitual, nova forma encontrada pelos criadores contemporâneos para exprimirem seus anseios. Desde então, o uso de novas linguagens e materiais imprimem um caráter experimental ao que Anna Bella faz. É assim que ela se torna pioneira da videoarte no Brasil, testando também fotomontagens, fotogravuras e xerox. 

Em determinadas fases, Anna Bella cria obras com um sentimento de alguém ou algo que se sente deslocado em relação ao seu redor. Em outras, a contestação sociopolítica e feminista se mostra com força, como nas séries Brasil nativo/Brasil alienígena e Bu.Ro.Cra.Cia, que ela revisita ao longo do tempo.

 


Brasil nativo/Brasil alienígena, 1976. Série com 18 cartões postais

 

“Anna Bella Geiger é uma pioneira nas artes plásticas desde que começou a trabalhar. Constantemente abraçando técnicas novas para se expressar como a videoarte, ou ainda como gravadora ao recortar as chapas de metal, transformando-as em tridimensionais, como na série Visceral. Defensora dos direitos políticos do indivíduo, sempre chamou a atenção para questões ligadas à mulher como em Bu.Ro.Cra.Cia, uma série que a acompanha ao longo de sua carreira”, destacam os curadores.

 


Detalhe de Bu-Ro-Cra-Cia, da série Sobre a Arte, Pintura e Cor, 1975

 

Para Fabiana de Barros, Marcia Zoladz e Michel Favre, a conversa que se estabelece entre os trabalhos de Anna Bella e o seu público são atemporais. Por isso há um contato constante com os mais jovens. “A força de suas preocupações feministas e sociopolíticas, expressas de maneira muito clara, criam um vínculo entre a sua obra e quem a vê pela primeira vez.”

Os curadores, aliás, reforçam que a contemporaneidade é, em primeiro lugar, um ponto central na obra de Anna Bella Geiger. “Os trabalhos traduzem sempre a questão do papel do artista na sociedade contemporânea. Um exemplo, entre outros, é a série de serigrafias Rrose Sélavy, que são impressas sobre as primeiras páginas de jornais, e assim congelam ao longo do tempo um determinado momento em uma cidade/vida.”

 


Trecho do livro

 

Veja também:

Brasil Nativo/ Brasil Alienígena | Na esteira da exposição homônima que esteve em cartaz no MASP e no Sesc Avenida Paulista, livro refaz a trajetória de Anna Bella Geiger, uma artista pioneira sob muitos aspectos 

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