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postado em 03/08/2021

As maravilhas do Islã

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Em O tempo dos inconciliáveis, o escritor tunisiano Abdelwahab Meddeb (1946-2014) distingue o islamismo político de cunho fundamentalista do islã pautado pela ética e pela estética

Por Arlene Clemesha*

 

Abdelwahab Meddeb foi um profundo conhecedor da história e da civilização árabe-islâmica. Nascido na Tunísia em uma família tradicional de comentadores do Corão, radicou-se na França para cursar letras e história da arte na Sorbonne. Seu olhar era, invariavelmente, aquele de um intelectual imerso no entrecruzamento e na própria fusão de tradições culturais.

Neste livro, publicado postumamente, reúnem-se crônicas em que o autor analisa diferentes questões envolvendo o islã, desde a sua relação com o Ocidente até o terrorismo praticado em nome da religião. Foram escritas no calor dos debates, mas de forma sempre erudita e informada, com recurso a fontes poéticas, históricas e filosóficas, fazendo referência aos clássicos da literatura árabe ou aos grandes autores da história do sufismo, revelando sempre conhecimento e erudição imensos. Suas análises desconstroem as visões binárias e simplificações que impedem a compreensão da realidade.

A coletânea principia com uma análise do que seria, para o autor, o problema central que hoje assola o Islã, qual seja, o auge de certo Islã restritivo, entendido como política e lei, em detrimento de sua dimensão ética e estética, cultivada por filósofos e poetas ao longo da história. Essa será a chave para entender boa parte das crônicas que vêm a seguir.

 


Trecho do livro

 

Dividido em seis capítulos ou seções temáticas, o primeiro analisa o problema do fundamentalismo religioso e do jihadismo radical, tecendo respostas islâmicas ao islamismo político. Meddeb era avesso ao enrijecimento do pensamento operado pelo islamismo político e não deixa dúvida de que, na sua visão, o que separa os salafistas radicais dos islamistas moderados é meramente seu modus operandi.

A questão também será vista pelo ângulo da relação nada simples entre o Islã e a Europa atual. O autor se volta à polêmica das caricaturas do Profeta para dizer, sem qualquer condescendência, que a defesa da liberdade de expressão como valor absoluto não significa coadunar com o racismo presente em certas representações fantasiosas do profeta Muhammad. Rejeita tanto o efeito de bullying implícito nas caricaturas como a psicologia da vítima que supostamente inocentaria a resposta criminosa dos jihadistas radicais.

Abdelwahab Meddeb lança luz sobre as raízes intelectuais da modernidade árabe-islâmica e alerta seu leitor contra outra dicotomia rasa que atribui o secularismo árabe à ditadura e associa o islamismo político chegado ao poder pelas urnas, no Egito e na Tunísia, à democracia. Armadilha essa que ignora a tendência secular e o debate de ideias em construção desde o século XIX pelos principais intelectuais árabes e islâmicos, de al-Tahtawi a Taha Hussayn, passando pelos reformistas islâmicos Al-Afghani e Muhammad ‘Abduh.

Além dessa divisão, o livro tem outra clivagem. Na primeira metade, observamos a abordagem leve e erudita de temas polêmicos, que envolvem profundas análises teóricas. Na segunda metade, os textos se voltam ao viés prático das respostas árabes atuais ou a grandes momentos da sua história. Versam sobre a luta da sociedade civil durante as revoltas de 2011 ou o papel das artes e da cultura também como resistência. Falam de algumas personalidades muçulmanas que se destacaram na defesa da liberdade e da pluralidade. Falam, em suma, das tendências intelectuais e teológicas que cultivam a diversidade no lugar da exaltação de um Deus único transformado em ser exclusivo, excludente e desprovido de reflexão. Resgatam a colaboração árabe-judaica na história para demonstrar como ela se situa no ápice da ideia e da práxis da pluralidade no Islã. Mais do que isso, Meddeb demonstra como o referencial grego foi e ainda é parte integrante da alta cultura árabe-islâmica; e esta, por sua vez, se percebe embrenhada nas raízes do que se entende por Europa.

A coletânea termina evocando as luzes islâmicas, a simbiose árabe-judaica existente nelas, e a incorporação da filosofia grega antiga. Para o autor, combater a imagem pejorativa que hoje se faz do Islã ficaria mais fácil se os muçulmanos cultivassem a memória e o conhecimento da alta cultura árabe-islâmica – “Jamais parar de transmitir as maravilhas do Islã”, nas palavras de Abdelwahab Meddeb.

 

*Arlene Clemesha é historiadora, professora de história árabe e atual diretora do Centro de Estudos Árabes da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.
     

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