Sesc SP

postado em 29/10/2021

Cânone da antropologia

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Araweté: um povo tupi da Amazônia, obra fundamental para os estudos sobre os povos indígenas do país, acaba de ganhar sua primeira reimpressão


Em 1986, a partir das pesquisas de campo e convivência com os índios, Eduardo Viveiros de Castro produziu sua tese de doutorado para o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ), intitulada Araweté: os deuses canibais. Em 1992, com o interesse da comunidade acadêmica internacional, a obra foi traduzida para o inglês, sendo publicada pela Universidade de Chicago sob o título From the Enemy’s Point of View. Naquele mesmo ano o texto original foi adaptado para o público não especializado, e desde então Araweté: um povo tupi da Amazônia é leitura obrigatória não só para os estudos da antropologia praticada no Brasil, mas também para qualquer um que se interesse pelos aspectos da vida dos povos indígenas que sobreviveram ao contato com os brancos.

O livro, porém, teve outros desdobramentos. Nos anos 1990, Viveiros de Castro perdeu o contato com a tribo após mudar-se para o exterior. Durante os anos 2000, ele não teve permissão para entrar na área, devido a presença de missionários evangélicos na região. Em 2010, conseguiu autorização para que dois de seus alunos – Camila de Caux e Guilherme Orlandini Heurich – entrassem na área para desenvolver novas pesquisas com os Araweté. Mesmo sob a mira de madeireiras e impactados pela polêmica construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, quando passaram por um processo de assistencialização das empresas do consórcio construtor da obra, eles ainda se mantiveram autônomos em suas normas, crenças e costumes.

 


Resiliência cultural: costumes mantidos após anos de contato com os brancos | Foto: Guilherme Orlandini Heurich.

 

Parte dessa pesquisa pode ser encontrada na terceira edição de Araweté: um povo tupi da Amazônia, publicada pelas Edições Sesc em 2017. A obra, que acaba de ganhar sua primeira reimpressão, foi revista e ampliada com dois capítulos de Camila e Guilherme e traz informações sobre os Araweté em dois momentos de sua história: mostra seu modo de vida atual em comparação com o período em que Viveiros de Castro conviveu com eles pouco tempo depois do primeiro contato oficial com os brancos. A esse novo material somam-se também imagens de ambos os períodos. 

 


Dois momentos: fotos de Eduardo Viveiros de Castro (esq.) e Guilherme Orlandini Heurich (dir.)

 

“Este novo gênero de livro é exemplar”, anota a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha no texto de orelha. Ainda segundo a professora titular aposentada da Universidade de São Paulo, trata-se de um livro “que todos deveríamos ler, ver e apreciar para entender um pouco melhor o país em que vivemos”. O trabalho empregado em registrar a língua, os rituais de caça, a alimentação, as relações afetivas, sexuais e reprodutivas, as características da agricultura, o xamanismo, as posições hierárquicas da tribo, enfim, a cultura de um povo de maneira tão singular é o que faz deste livro um cânone da antropologia.

 

 

 

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