Sesc SP

postado em 24/04/2013

Victor Garcia: um mestre dos palcos

Ruth Escobar no espetáculo <i>O Balcão</i>. Foto: Djalma Batista
Ruth Escobar no espetáculo O Balcão. Foto: Djalma Batista

Fundamental para os estudos teatrais, livro de Jefferson Del Rios vai ao encontro de um mito do teatro moderno

 

Qual é a tarefa de um diretor de teatro? Servir à peça de um dramaturgo, avançar para além dela ou desafiá-la? Já há muitas décadas, artistas, pesquisadores e críticos teatrais discutem sobre como dirigir e montar um texto teatral, procurando apontar os limites da direção subjetiva. Coube ao diretor inglês Peter Brook, em O teatro e seu espaço (no original inglês, The empty space), redimensionar a questão, abordando-a sob uma ótima mais ampla, a da relação entre o teatro e a sociedade: “Uma sociedade estável e harmoniosa precisaria apenas procurar caminhos para refletir e reafirmar essa harmonia em seus teatros. Esses teatros poderiam se estabelecer com elenco e plateia unidos num sim mútuo. Mas um mundo caótico, e em transformação, precisa escolher entre um teatro que ofereça um sim espúrio ou uma provocação tão forte que estilhace sua plateia em fragmentos de intensos não”.

As conturbadas e vertiginosas décadas de 1960 e 1970 assistiram ao surgimento de um dos mais inventivos diretores teatrais do século XX, que fez do palco um espaço de provocação e negação da ordem vigente. Vinculado às grandes correntes estéticas modernizadoras do século XX, o diretor e cenógrafo argentino Victor Garcia (1934-1982) conferiu à arte da encenação um toque de grandeza e mistério. Durante os vinte e três anos de sua meteórica carreira, ele dirigiu espetáculos e concebeu cenários em oito países de três continentes, desafiando idiomas, culturas e tradições cênicas distintas. Tratado como uma lenda, Victor Garcia não deixou escritos ou depoimentos suficientes para um legado teórico. Não dirigiu grupos estáveis e não há quem se assuma, ou seja reconhecido, como seu herdeiro artístico. Também não se podem estabelecer correlações entre sua obra e a de outros criadores, a exemplo do que se faz com Bertolt Brecht e Roger Planchon, Jerzy Grotowski e Eugenio Barba, Antunes Filho e Peter Brook. Por essa e por muitas outras razões é que se deve celebrar o fato de as Edições Sesc SP lançarem um livro como O teatro de Victor Garcia: a vida sempre em jogo, do jornalista e crítico teatral Jefferson Del Rios – uma biografia artística de um criador excepcional sobre quem pairam, ainda nos dias de hoje, duas definições superlativas: genial e autodestrutivo.

Argentino de família espanhola, moreno de pouca altura, frágil, cabelos crespos, olhos grandes, temperamento difícil de apreender, Victor era, a um só tempo, arredio, solitário, carinhoso e sedutor. Desprendido de aplausos e dinheiro, ele passou a vida adulta em pequenos hotéis embora residisse em Paris, enquanto outros conterrâneos e parceiros de arte se estabeleceram muito bem na profissão, usufruindo dos encantos da cidade. Tudo o que tinha cabia em uma pequena mala; e assim foi até o fim. Victor Garcia sempre atuou nos limites da arte e de sua vida pessoal. Desprezou o palco italiano, que definiu como “caixa negra onde a vida não pode existir”. Pretendia fazer a representação ir além da realidade, do pensamento cartesiano. Buscava a fusão dos instantes metafísicos com a beleza mineral do diamante.

Na primeira parte do livro – Dos Andes a Paris –, o leitor é convidado a acompanhar o itinerário de um criador que não separou a arte da aventura (ou desventura) de existir. Jefferson Del Rios viajou à capital da província argentina de Tucumán, San Miguel –, a imponente cidade onde Victor nasceu e na qual vivem sua irmã mais nova, seus tios, primos e amigos – para recuperar fatos da infância e da mocidade do diretor. Em seguida, uma entrevista em Buenos Aires com a irmã mais velha franqueou ao biógrafo inúmeros documentos sobre o início da carreira de Victor guardados por ela. A parte brasileira da pesquisa foi, naturalmente, mais fácil, porque está na memória do próprio Jefferson, que se tornou amigo do diretor ao assistir nos palcos paulistanos às encenações explosivas de Cemitério de automóveis, de Fernando Arrabal, em 1968, e de O balcão, de Jean Genet, em 1969, passando a acompanhar sua carreira a partir de então. Para recuperar o percurso de Victor Garcia da segunda metade da década de 1970 em diante, Jefferson Del Rios começou a procura mais longa pela Europa e pelo Oriente Médio, estabelecendo, passo a passo, a sequência cronológica da vida e da obra do diretor que já gozava, então, de enorme prestígio.

A segunda parte do livro – Caderno de testemunhos – reúne mais de vinte depoimentos de familiares, amigos e profissionais que conviveram de perto com o diretor. São impressões, pontos de vista e declarações que recompõem a trajetória de um artista a quem as pechas de louco, maldito ou marginal soam fáceis demais. A atriz espanhola Nuria Espert assim se recorda do diretor: “Depois de Victor Garcia, tornei-me outra atriz sempre. Tenho sido uma boa atriz, digamos, mas ele me fez uma boa atriz diferente. De Bertolt Brecht e Sartre, eu passei às mãos de Victor e cresci toda, por dentro e por fora, e isso é até hoje. E não é tanto porque ele me ensinasse a ser uma atriz diferente, porque ele aparentemente não sabia dirigir intérpretes. Pelo menos, não seguia os caminhos de todo mundo. Ele não te dizia: “Cuidado como dizer isso” ou “Aqui, o que Yerma quer é...”. Não usava essa linguagem. Dizia à atriz que fazia a madame de As criadas: “Você é uma taça de champanhe: plim!“. Parece abstrato, mas não é, é concretíssimo. Essa atriz ficou com os olhos assim, mas quando estreou, ela era uma taça de champanhe que fazia aquele som. Em outro ponto de As criadas nos disse: “Vocês são assim como dois indiozinhos em uma missão, quando vão recitar o Pai-Nosso e ganhar um copo de leite”. Essa era sua maneira de dirigir, e éramos inteligentes o suficiente, e as boas atrizes que ficamos depois. Quando você olha os papéis desse modo, já não pode vê-lo como Stanislavski e se agarrar às suas experiências interiores para ter uma emoção. Todo o meu trabalho posterior está marcado por esse tipo de olhar que às vezes encontro sozinha, e às vezes ele me faz falta para encontrar, porque dá outra dimensão, tira você do realismo, tira da sua própria experiência, se projeta”.

Pesquisador atento e meticuloso, Jefferson Del Rios, em O teatro de Victor Garcia: a vida sempre em jogo, além do perfil biográfico-crítico do diretor, oferece também, a partir de anotações em textos teatrais, fotografias, gravações espalhadas por muitos teatros e documentos de acervos os mais diversos, uma detalhada reconstituição da atmosfera que emanava de suas encenações. Tal objetivo constitui um verdadeiro tesouro para atores, diretores, críticos e estudiosos, de modo geral, que admiram a arte que é a mais antiga representação da vulnerabilidade do homem diante do mistério da vida: o teatro. Vulnerável e misterioso também foi Victor Garcia, cuja trajetória merece ser conhecida pelas atuais gerações.
 

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