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postado em 29/06/2014

Mauro não é uma ilha

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Por Cris Lisboa e Marília Pozzobom*

 

Mauro não é uma ilha


“O seu corpo não é uma ilha”. A afirmação simples de Mauro Maldonato explica a relação entre o cérebro e a matéria física. Médico de formação, ele deixou de lado o bisturi para se tornar psiquiatra e professor de Psicopatologia Geral. A cura, agora, vem em forma de reflexões. “Eu acredito que essas temáticas, a psiquiatria e a filosofia, estão muito próximas”, diz. A afirmação explica a sua escolha de carreira, mesmo que a carne e a mente, em um primeiro momento, não pareçam andar lado a lado. “As doenças mais comuns hoje são as que estão ligadas ao seu relacionamento com o outro e com o mundo”, afirma.

É com uma percepção quase biológica de seus pensamentos que o escritor italiano explica como surgem as suas dúvidas e questionamentos existenciais: “Elas nascem de um movimento interno profundo”, explica. E o resultado dessas indagações internas podem ser encontrados na sua coletânea de livros, lançados pelas Edições Sesc São Paulo. São quatro obras que buscam não a solução dos questionamentos, mas sim promover um debate sobre esses assuntos. São eles: Passagens de Tempo, Da Mesma Matéria que os Sonhos, Raízes Errantes e A Subversão do Ser.


Uma questão de tempo

Dizer que Mauro tem um hobby em seu tempo livre soa ingênuo. Quem conhece e troca algumas palavras com o italiano, percebe que toda a sua rotina gira em torno de momentos planejados para que o tempo seja vivido e sentido, e não desperdiçado. Então diremos que para relaxar, ele busca conforto no blues, seu gênero de  música favorito. A preferência por um estilo nos faz entender o seu pensamento. Em suas obras e conversas o autor fala muito de angústia – a mesma angústia que o blues transforma em acordes.

Em inglês, blues significa melancolia e tristeza. A ideia de que o autor esteja tão próximo a um de seus temas de pesquisa, a ponto de torná-las um hobby é, no mínimo, irônica. Mas aceitar essa tristeza como parte funcional da vida faz Mauro sorrir. Ao perceber o tempo como uma fonte finita, ele se esforça para fazer com que cada segundo valha a pena – mesmo que isso signifique uma frase clichê. “É muito interessante que a pessoa não se iluda de haver todo o tempo do mundo”, diz.

Ideia pessimista? Nem tanto. “Nós temos um certo número de dias na vida. Quando eu sei que meus dias e horas são limitados, eu aprendo a dar mais valor a eles”, diz. Buscando uma resposta para a sua existência, ele achou uma realidade desacomodada. Cercou-se de letras ao invés de água. E percebeu que os nossos mundos são feitos hoje. Não amanhã. 

 


* Cris Lisboa e Marília Pozzobom são jornalistas e parceiras em projetos de conteúdo (ambas com matérias publicadas em revistas como a Rolling Stone, Trip e Noize).

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