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postado em 16/06/2016

Um novo espetáculo

Lígia Cortez. A dama do mar, 2013.
Lígia Cortez. A dama do mar, 2013.

Produzidas por um olhar cúmplice e devotado ao seu tema, imagens de Fotografia de palco II, novo livro de Lenise Pinheiro, revelam para o leitor uma outra encenação

Por Bob Wolfenson*

 

Num súbito pensar sobre o que é a fotografia, nos vem à mente o registro, o documento. No entanto, há inúmeros exemplos na história dessa técnica em que tais características são superadas pela mão forte do artista que opera e/ou está por detrás da câmera. Lenise é um exemplo claro desse modo. Nós, fotógrafos, sabemos, através dos acontecimentos capturados por nossas câmeras, o quão difícil é, a partir de uma situação dada, pensada e articulada por outros – como vem a ser uma peça de teatro –, imprimirmos algo de nós mesmos em imagens resultantes desse encontro.

Talvez exaurindo-o, subvertendo-o ou deixando-o rolar como se esperássemos uma epifania que se desencadearia à nossa frente e na qual a máquina fotográfica seria simples testemunha. Todas essas possibilidades são constituintes da forma com que Lenise atua, ora uma, ora outra, ora todas juntas.

Por meio da profusão de imagens produzidas por um olhar cúmplice e devotado ao tema, ela se amalgama aos seus sujeitos, tornando-se um deles. E revela uma outra encenação, a sua própria: uma sobre-encenação, nos entregando um novo espetáculo, outros dramas, outras texturas, luzes e sombras, as quais não são aquelas experimentadas pelo público no espaço cênico. Que nos perdoem os puristas dos dois lados desse encontro, mas se num arroubo herético sonharmos que fotografia também pode ser teatro, eu diria que a obra de Lenise prova ser a mais bela e contundente realização desse sonho.

 


*Bob Wolfenson é fotógrafo e possui obras nos acervos do Museu de Arte de São Paulo e do Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre outras coleções. Este texto foi originalmente publicado no livro (p.23).

 

Veja também:

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