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postado em 16/09/2016

A massificação do sonho

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Michel Arnoult, design e utopia ilumina um personagem que acreditou nas possibilidades democráticas do design moderno: redesenhar o ambiente e os modos de vida coletivos

Por José Tavares Correia de Lira*

 

Em distintos campos da cultura, os anos 1950 a 1970 foram de enorme vitalidade no Brasil. Enquanto o país se redefinia no ciclo de desenvolvimento urbano-industrial e estilos de vida e visões de mundo tradicionais eram sacudidos, também viriam à tona sínteses explicativas e projetos estéticos de grande fôlego. A constituição de um meio de design é indissociável desse processo. Ele se fez em sintonia com novas crenças e valores que o período infundiu, articulando-se à invasão concomitante do cotidiano por uma multidão de produtos industriais: maravilhas eletrodomésticas, utensílios de toda sorte, alimentos enlatados e empacotados, remédios, cosméticos, produtos de limpeza, móveis. Produzidos e consumidos em escala inédita, eles sorrateiramente redefiniram a paisagem material da sociedade: agora também feitos em plástico, alumínio, acrílico, fibra de vidro, vinil, poliéster, incorporaram técnicas sofisticadas, químicas, mecânicas, eletrônicas e, logo depois, cibernéticas; remodelaram a experiência sensorial, gestual e simbólica dos brasileiros diante da nova galáxia de interfaces e informações, formas, texturas e imagens em que passamos a habitar. Desde então, camadas e camadas de design começaram a se sobrepor ao social: na superfície e nos subterrâneos das cidades, no interior dos lares e nos espaços de consumo, nos objetos pessoais e nas mídias, nos corpos, identidades, desejos e mentalidades, fabricando não somente um cenário novo, mas todo um ecossistema diverso.

Este livro ilumina um personagem que acreditou fielmente nas possibilidades democráticas do design moderno, de através dele atingir as massas e redesenhar o ambiente e os modos de vida coletivos. Sem deixar-se iludir pelo mito da criação original, mas intuindo as grandes responsabilidades do designer em um mundo humano cada vez mais mediado pelos artefatos, Michel Arnoult trilhou uma carreira das mais reveladoras de sua geração. Já em seus anos de ingresso na profissão, ainda na Europa, transitava entre referenciais eruditos e desafios pragmáticos do pós-guerra, de Marcel Gascoin ao utility furniture, e, no Brasil, aproximando-se ora de Oscar Niemeyer ora de Geraldo de Barros e Willys de Castro, embarcou até o fim nas promessas econômicas e civilizatórias do design.

A Mobília Contemporânea, empresa que criou com Norman Westwater em 1956, em São Paulo, especializada em design, produção e venda de móveis, foi seguramente o ponto alto desse projeto de síntese entre forma construtiva e acessibilidade ao investir em uma concepção sistêmica do móvel como agregado de processos e componentes intimamente articulados ao sistema de objetos e ao mundo da mercadoria, às práticas da vida e ao espaço edificado.

São múltiplas e instigantes as leituras que o livro organizado por Ethel Leon propõe ao rever atentamente a trajetória, as parcerias, frentes e circunstâncias de atuação de Arnoult; de sua formação na França à migração para o Brasil, dos anos de glória à frente da MC às experiências mais recentes em consultoria a grandes redes varejistas, em inovação tecnológica junto a microempresários e em capacitação de jovens no setor. Incluindo colaborações mais específicas de Annick Arnoult, Yvonne Mautner, Helena Ayoub, Mina Hugerth e Marcello Montore, o trabalho percorre mais de cinquenta anos de sua carreira e desenreda importantes matrizes e transformações históricas em múltiplas instâncias do design: nas concepções mesmas de móvel e na circulação entre projetos estéticos e empresariais no campo; nas redes sociais, culturais e profissionais dos designers e nos perfis de clientela; nos investimentos pedagógicos junto ao gosto médio ou em certa utopia do mobiliário popular, industrial, barato, racional, multifuncional e mesmo desmontável, prêt-à-porter, em supermercados e bancas de revista; no trânsito entre estratégias conceituais, comerciais e publicitárias, assim como entre identidades de marca e padrões gráficos; nas condições de produção no Brasil, do maquinário ao chão de fábrica, passando pela mão de obra especializada; nos embates com as características e os limites do público de design e do mercado nacional.

Articulando, assim, empenhos de massificação e circuitos de distinção, problematizando suas múltiplas realizações e frustrações, Michel Arnoult, design e utopia: móveis em série para todos oferece não apenas uma sólida contribuição à historiografia da área, mas nos permite evocar as grandes apostas e os limites do projeto moderno e seu papel na promoção do bem-estar e na fabricação de desigualdades. Ao mesmo tempo, descortina o processo de expansão da capacidade humana de redesenhar suas próprias condições de existência, no passado, no presente e no futuro.

 


*José Tavares Correia de Lira é arquiteto, professor da FAU–USP, autor de Warchavchik: fraturas da vanguarda (Cosac Naify, 2011) e organizador, entre outros, de Memória, trabalho e arquitetura (Edusp/CPC, 2013, com João Marcos de Almeida Lopes). Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.

 

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