Sesc SP

postado em 16/01/2017

Questionando o senso comum

Foto: pxhere.com | CC Public Domain
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Em Sociofobia, o filósofo Cesar Rendueles faz uma ambiciosa reavaliação crítica das tradições políticas antagonistas, para pensar o pós-capitalismo como um projeto factível, próximo e amigável

Por Welington Andrade*

 

O elemento de composição fob(o) provém da forma grega phobo e significa medo, mesmo traço semântico presente em um de seus derivados, fobia, palavra com a qual genericamente se designam as diferentes espécies de medo mórbido. Documentada como segundo elemento de compostos eruditos, a forma aparece, por exemplo, em antropofobia, fotofobia e hidrofobia. Assim, ao batizar seu livro de Sociofobia, o filósofo e docente espanhol César Rendueles deseja chamar especial atenção para um conceito ainda pouco conhecido, a rigor, e convidar o leitor a refletir sobre suas implicações na vida contemporânea. Eleito como melhor livro de ensaio do ano de 2013 pelos leitores do jornal El País e primeira obra do autor a chegar ao público brasileiro, Sociofobia trata das evanescentes formas atuais da sociabilidade humana, baseadas nos incontáveis tipos de conexões reais e virtuais que ligam os indivíduos por meio de uma densa rede apoiada pelas tecnologias da comunicação e da informação, e que nos estimulam a admirar os iguais e a temer os diferentes. 

Em primeiro lugar, o livro questiona o modo como lidamos com a cultura digital, procedendo a um exame crítico muito bem articulado daquilo que o autor trata como dogma ciberfetichista. A sociedade em rede, à qual prestamos um verdadeiro culto, tem rebaixado sensivelmente nossas expectativas em relação à qualidade da intervenção política que ela pretensamente nos proporciona e aos modos de relações pessoais por meio dos quais ela nos seduz. Em segundo lugar, Sociofobia faz uma apurada revisão crítica das tradições políticas com as quais o homem sempre esteve às voltas até agora, a fim de propor um estágio pós-capitalista emancipador a que possamos chegar. 

Procurando se aproximar não somente do especialista no assunto, para quem o livro certamente constituirá uma obra de franca interlocução, mas também do leitor incipiente, interessado pelo tema em geral, a quem não faltarão bons insights e excelentes descobertas, César Rendueles faz uso de uma prosa articulada e plena de referências, mas em nenhum momento hermética ou ensimesmada. Na esteira dos mais dedicados intérpretes da contemporaneidade, como Jonathan Crary, Nicholas Carr e Slavoj Žižek, por exemplo, o autor articula os conceitos e argumentos mais densos a uma série de dados, informações e casos retirados da literatura, da arte, da comunicação de massa e de fatos históricos recentes, com o objetivo de tornar muito viva a discussão. 

Ao terminar a leitura de Sociofobia: mudança política na era da utopia digital, o leitor compreenderá que o exercício da reflexão política não diz respeito à reunião coerente de preferências facilitada por algum dispositivo técnico. Antes de se configurar em um mecanismo de compatibilização de opções dadas, a sociabilidade humana é um processo de construção de objetivos compartilhados. 

 


*Welington Andrade é doutor em literatura brasileira, na área de dramaturgia, pela USP e crítico de teatro da revista Cult. Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.

 

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