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postado em 23/02/2017

Tópicos shakespearianos

Imagem a partir da obra William Shakespeare. Óleo sobre tela, de John Taylor (? - 1651)
Imagem a partir da obra William Shakespeare. Óleo sobre tela, de John Taylor (? - 1651)

Reflexões sobre Shakespeare, de Peter Brook, propicia ao leitor uma visão que abrange tanto os aspectos literários quanto os dramatúrgicos e cênicos do bardo inglês

Por Ron Daniels*

 

Homem de teatro, guru visionário de toda uma geração, místico e homem prático, a sombra (ou o raio de luz!) de Peter Brook parece ter pairado sobre toda a minha vida. Com apenas vinte anos de idade, ainda jovem ator do Teatro Oficina, li deslumbrado Shakespeare nosso contemporâneo – ainda tenho o exemplar cheio de frases que Zé Celso e eu sublinhávamos com abandono. O livro de Jan Kott inspirou a famosa montagem do Rei Lear dirigida por Peter Brook, com Paul Scofield no papel de rei. Essa foi a minha introdução a Shakespeare, pois chegando à Inglaterra, em 1964, o primeiro espetáculo que fui ver foi este inesquecível Rei Lear no Aldwych Theatre. Fiquei estarrecido. Não parava de chorar.

Lembro-me ainda de outros espetáculos deste grande diretor: o Marat/Sade, de Peter Weiss, estarrecedor; o Sonho de uma noite de verão na famosa caixa branca, revolucionário e acrobático; A tempestade, tão simples e pura. Durante os anos 1970 e 1980 fiz várias viagens ao teatro Bouffes du Nord, em Paris, para ver as suas montagens. Assisti ao Mahabharata, nove horas de uma teatralidade abundante e generosa, sentado no chão da plateia. Saía correndo durante os intervalos para comprar um sanduíche e voltava depressa para não perder o meu lugar; uma Carmen despojada, tão precária e sedutora, sem coro; um Ubu rei de uma loucura completamente coerente.

Nem todos os seus espetáculos funcionaram tão bem. Em Stratford-on-Avon, em 1978, quando eu fazia parte da diretoria da Royal Shakespeare Company, deparei-me com o Peter passeando pelo gramado à beira do rio Avon, sozinho, preocupado. Sua montagem de Antônio e Cleópatra, com Glenda Jackson no papel de Cleópatra, estava para estrear, mas os ensaios – inseridos no inevitável esquema constrangedor de uma companhia de repertório –, não tinham sido do seu agrado: não lhe permitiram nem o tempo nem a liberdade para mergulhar no texto com a profundidade com qual estava acostumado em Paris.

Através dos anos, suas montagens demonstraram cada vez mais uma surpreendente e arrebatadora simplicidade, um despojamento ousado e uma rejeição à teatralidade óbvia e banal. Este é o tom e a beleza deste seu último livro, Reflexões sobre Shakespeare.

O texto de Peter é como ele: calmo, gentil, muito paciente. Muito generoso. Possuidor de uma ironia bem sutil. E mesmo quando sério, dentro de si, e de suas palavras, parece arder um enorme calor humano e uma incrível e doce alegria. Neste livro não há fórmulas nem conselhos; o que ele propõe é uma busca constante, uma inquietude e insatisfação contínuas, uma procura feroz do que é simples, puro, precário e humano.

Lendo Reflexões sobre Shakespeare, fico novamente cheio de admiração por este homem de teatro tão sábio, humilde e carinhoso, que dedicou a sua vida à busca da verdade. O livro, uma recordação desta sua riquíssima vida, é, em minha opinião, uma leitura imprescindível para qualquer ator, diretor ou amante do teatro.

 


*Ron Daniels foi nomeado diretor artístico do The Other Place Theatre da Royal Shakespeare Company em 1977 e continua sendo um dos diretores honorários dessa mesma companhia. Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.

 

Veja também:

:: Trecho do livro

 

 

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