Sesc SP

postado em 14/06/2018

Embalo dos sonhos

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Entoadas pelas mulheres da tribo juruna, 49 cantigas de ninar foram transcritas, traduzidas e gravadas para compor o livro Fala de bicho, fala de gente

Por Betty Mindlin*

 

Aproveitem os leitores a viagem extraordinária pelos yudjá do Parque Indígena do Xingu, também conhecidos como juruna, pelos sons e letras de Cristina Martins Fargetti, com a colaboração de Marlui Miranda. Duas grandes pesquisadoras, que a música e o amor por um mesmo povo tornam irmãs.

Cristina Martins Fargetti, linguista e musicista, autora do livro, dedica-se a eles desde 1989. Enquanto o saudoso professor Aryon Dall’Igna Rodrigues, verdadeira enciclopédia para os estudiosos das nossas línguas, indicava em 1986 que a língua juruna era quase desconhecida, Cristina, ao longo dos anos, trabalhou com professores juruna na escrita, com eles desvendando significados, aprendendo o idioma, registrando rituais, músicas, mitos, organização socioeconômica, sempre com autoria da comunidade. Tem uma íntima ligação com o povo.

No novo trabalho, sua atenção recai sobre um gênero musical pouco estudado nas pesquisas de diferentes profissionais: as cantigas de ninar. Antes de entoar as juruna, ela nos dá vontade de aprender as do repertório de Portugal, as menos numerosas brasileiras, as de García Lorca, as europeias. Fala das indígenas, ainda na sombra. E nos pega de surpresa: as crianças são envoltas em seres assustadores, cantigas de mães adúlteras, lamentos de pobreza... hão de adormecer não pelas letras e pelo conteúdo, mas por misteriosa magia de embalos e sons.

Foi um desejo dos yudjá gravar, escrever e traduzir as cantigas de ninar, não incluídas em projetos anteriores. São as 49 que constam deste Fala de bicho, fala de gente. Com eles, Cristina organizou oficinas, observou, viveu junto de mães e crianças, utilizou tecnologia avançada para o registro. Pela música, surge um universo cósmico. Há gente, os humanos, e os que ela traduziu como bicho-gente, entes misturados, que não podemos classificar de animais mas também o são.

Marlui Miranda, que já trabalhara com os yudjá, participou de algumas oficinas do projeto, orientou colaboradores de Cristina na tecnologia das gravações, deve ter cantado muito com sua voz dourada nascida do além, quem sabe dos Alapa, habitantes juruna dos céus, cantadores de gêneros musicais etéreos, mas não de ninar. Foi dela a gigantesca proeza de escrever as partituras de todas as cantigas do livro. Tive o privilégio de viajar muito com Marlui; pesquisamos juntas, desde 1978, a música de vários povos. Sei do dom que ela tem de se tornar indígena, com afeto e amizade, extraindo raízes musicais e instrumentais como se estivesse arrancando a mandioca na roça com as outras mulheres. No capítulo que escreveu, ela revela uma face nova: de filósofa, escritora, consumada estudiosa de teorias musicais, analista sofisticada. Os musicistas hão de apreciar as novidades que traz.

Com Cristina Fargetti e Marlui Miranda, refletimos como é fundamental valorizar a oralidade – aí compreendida a música – em coexistência com a escrita e a notação musical. Fala, voz, melodia, canto de belos artistas que não escrevem nem leem viram arte a exibir, expressão tão preciosa como a de escritores e músicos. Afinal, todo mundo sabe cantar, mesmo os iletrados; mas quantos cantores e compositores populares dominam a passagem a partituras?


*Betty Mindlin é antropóloga, com doutorado pela PUC-SP, e economista, com mestrado pela Universidade de Cornell. Trabalha há anos em projetos de pesquisa e apoio a numerosos povos indígenas da Amazônia e outras regiões. Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.
 

 

Veja também:

CD Fala de bicho, fala de gente | Lançado pelo Selo Sesc, projeto é a recriação musical de 15 cantos da tradição juruna, adaptados e arranjados pela cantora e compositora Marlui Miranda e pelo músico Surman

:: trecho do livro

 

 

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