Sesc SP

postado em 04/08/2018

A fúria das mulheres negras

Jô Freitas (Foto: Edmar Júnior / Sesc)
Jô Freitas (Foto: Edmar Júnior / Sesc)

      


Membro do Sarau das Pretas, destaque da programação do Sesc durante a 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a atriz e poeta Jô Freitas fala sobre intolerância racial e feminismo

Por Gustavo Ranieri *

 

Já se vão 130 anos desde a tardia sanção da Lei Áurea, garantindo o fim da escravatura no Brasil. Porém, como apontam tantos estudos recentes, o preconceito racial continua um enorme impeditivo de igualdade entre as pessoas no país, ainda que, por aqui, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada em 2017 pelo IBGE, pardos e pretos representam mais de 50% da população.

Justamente por isso, continua mais do que necessário todas as formas de atuação que visem garantir direitos iguais e o fim da discriminação. Nesse sentido, a se comemorar, a arte permanece como uma grande catalisadora de seres pensantes nessa causa. E tem campo aberto durante a 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Neste sábado, 4 de agosto, um dos destaques da programação do BiblioSesc Praça de Histórias foi o Sarau das Pretas e o Slam das Minas, atividade que trabalhou o jongo, ritmo brasileiro de influência africana, assim como poesias de resistência e trabalho cenopoético – a mesma atividade acontece no dia 11 no BiblioSesc Praça da Palavra, às 15h. (Veja a programação completa aqui)

Jô Freitas, atriz, poeta, arte-educadora e performer é uma das participantes do Sarau das Pretas, juntamente com Débora Garcia, Elizandra Souza, Taissol Ziggy e Thata Alves. Ela bateu um papo a respeito da força dos saraus que se originam nas periferias, da luta contra o preconceito racial e sobre o empoderamento de mulheres negras.

 

Como você enxerga o panorama atual, em que a cultura negra tem muito mais destaque e espaço do que no passado, mesmo assim o preconceito é visível?
Justamente por causa desse acesso a redes sociais, do mesmo jeito que pode contribuir para que a arte periférica negra avance, tem também o lado ruim disso tudo. Há um crescimento muito grande dessa violência, do preconceito. A web fomenta um novo formato da violência e tem gente que acha que isso não atinge, mas atinge, sim, em uma estrutura muito ampla. Quando a gente vê esse avanço cultural com os saraus, por exemplo, percebo que eles ocupam o espaço e as brechas que o Estado dá, enquanto faltam políticas públicas.

Mas tais saraus alcançam um público que não está habituado a refletir sobre temas como raça, gênero e credo, ou acaba reunindo um “nicho” parecido?
Eu, com meu trabalho solo, por exemplo, atuo nas escolas e elas não estão tendo contato com essas discussões, as escolas não ampliam o estudo da poesia de resistência, poesia de pele preta... Também faço parte de outro coletivo chamado Sarau Pretas Peri, que acontece no meio de uma comunidade no Itaim Paulista. Lá, nosso público maior são as mulheres e homens que têm por costume ficar no bar ou em casa assistindo a TV. Consequentemente, meu trabalho atinge esse outro público e são esses lugares que me interessam. Já com o Sarau das Pretas, a gente tem um público que, em sua maioria, são educadores, professores, pessoas que se interessam por essa temática, mas não são poetas. É um público muito eclético.

Outra abordagem levada por esses saraus se refere ao feminismo praticado por mulheres negras. Ainda é necessário separar mulheres negras de mulheres brancas? Quanto tempo levaremos para lutar por um empoderamento feminino sem classificações?
Como a gente vive em uma sociedade racista, é preciso se colocar outro subnome, feminista negra, porque as necessidades são diferentes. Enquanto mulheres brancas estavam lutando para ter um salário igual ao do homem, as negras estavam loucas para poder sair de casa, conseguir ao menos trabalhar e ter uma independência. Então, é supernecessário existir essa divisão, é preciso entender a fúria dessas mulheres negras, desse povo preto.

E o que mais precisa?
Agora a gente está no momento em que precisa de ouvidos, pessoas que nos escutem. E por causa dessa fúria, o movimento está sendo mal interpretado e há pessoas que se aproveitam disso para fazer absurdos como um movimento antifeminista, que deturpa toda ideia e lógica do que é ser feminista. A gente voltou ao tempo de inquisição, em que ser mulher é sinônimo de histeria. O que reforço também é a necessidade do feminismo periférico, que ainda não é uma subdivisão. Enquanto os movimentos feministas pedem que as mulheres se empoderem, quando você chega na quebrada, elas dizem que não podem se empoderar, porque lá é outra ideia. E a gente foi entender quais eram as outras camadas desse empoderamento, porque não se pode chegar e falar para uma mulher largar o marido. Tem que ser um trabalho de base, de mostrar para essa mulher que ela tem capacidade de sair de casa, morar sozinha e se sustentar. Então essa é uma das pautas do feminismo que explicam essas subdivisões.

 

*Gustavo Ranieri é escritor e jornalista