Sesc SP

postado em 10/08/2018

Olhar atento aos refugiados

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Bate-papo durante a Bienal do Livro de São Paulo colocou em pauta as medidas necessárias para melhorar o acolhimento daqueles que precisaram sair de seus países às pressas

Por Gustavo Ranieri*

 

Se comparado com determinados países europeus, é tímido o número de refugiados acolhidos oficialmente no Brasil. Até o fim de 2017, eram pouco mais de dez mil. Mas até abril deste ano, apenas metades deles continuavam com o registro ativo, o qual pode se tornar inativo em aquisição da nacionalidade brasileira, óbito, mudança de país, entre outros motivos. Em termos de comparação, só a Alemanha reúne cerca de 500 mil refugiados.

Ainda assim, apesar do pequeno número oficial, o Brasil nunca se preparou para receber essas pessoas. E a sociedade também não. O resultado é um problema sério no acolhimento e um crescente preconceito contra essas pessoas que precisaram sair de seus países às pressas para sobreviver. “Não acho que conseguir o emprego seja hoje a maior barreira que os refugiados enfrentam no Brasil. Acho que o maior desafio é o preconceito”, garante Marcelo Haydu, diretor executivo do Adus – Instituto para Reintegração de Refugiados, organização não governamental criada em 2010.

“Vejo claramente que há uma resistência muito grande em relação a vinda deles para cá em boa parte das pessoas. E isso não é achismo, pois acompanho esse tema há mais de uma década. Esse comportamento é mais perceptível quando os países que recebem essas pessoas estão passando por crises políticas e instabilidades econômicas, como é o caso do Brasil agora. Os refugiados são vistos então como concorrentes, pessoas que vieram roubar nossos empregos, como sendo um fardo para a sociedade. É fundamental que a sociedade entenda que um refugiado é um imigrante forçado, obrigado a sair do seu país  por violação dos direitos humanos, conflitos. Então, essa pessoa chega ao Brasil contra a sua vontade.”

Assunto crescente e pertinente a muitas nações, imigração de refugiados foi pauta também no Salão de Ideias, na 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, espaço com curadoria compartilhada entre a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sesc São Paulo. (Confira a programação completa aqui). O encontro, intitulado Contexto migratório e política de acolhimento, aconteceu nesta sexta, dia 10, com Haydu e William da Rosa, coordenador do programa de proteção da Cáritas Brasileira.

Para o ativista, o Brasil tem um papel bastante acanhado quando se fala de acolhimentos de refugiados. O trabalho governamental fica mais em oferecer proteção e documentação a essas pessoas, sendo que algumas ações mais destacadas acontecem em nível municipal. “Mas o que vai além disso sempre esteve historicamente nas mãos de ONGs, que se ocupam de dar auxilio a essas pessoas, aulas de português, cursos de qualificação profissional, acessibilidade ao trabalho. As ONGs suprem essa lacuna deixada pelo Estado.”

Recentemente, o Brasil recebeu mais de 60 mil refugiados venezuelanos, que se instalaram em cidades pequenas de Roraima. O alto fluxo levou o país a fechar por um dia as fronteiras. Na opinião de Marcelo Haydu, fechar fronteiras não é o melhor caminho. “O que precisa é haver um processo de distribuição, interiorização, trazer alguns venezuelanos do Norte para outras regiões, mas isso ainda está sendo feito a conta-gotas. Faltam espaços adequados para o recebimento dessas pessoas e vontades políticas. Sendo impedidas ou não de entrar, essas pessoas continuarão migrando. De alguma forma ela sairá do seu país quando precisa poupar a sua vida.”



*Gustavo Ranieri é escritor e jornalista