Sesc SP

postado em 02/10/2018

Um ano para jamais se esquecer

Batalha da Maria Antônia. Foto: Iconographia
Batalha da Maria Antônia. Foto: Iconographia

      


Três livros ressaltam a importância dos movimentos sociais, políticos e artísticos e as contradições vistas em todo o mundo durante o mítico 1968

Por Gustavo Ranieri*

 

Existem determinados anos que se tornam míticos na história do mundo, aqueles nos quais tudo parece acontecer, seja para o bem, seja para o mal. O de 1968 é, sem dúvida, um desses. Mais do que isso, poucos são os que conseguem defini-lo com precisão e explicar como foi possível que tanta coisa tenha acontecido naquele período.

No Brasil, amargando já quatro anos de ditadura militar, foi o ano em que entrou em vigor o famigerado Ato Institucional Número Cinco, em dezembro. Dois meses antes disso, em 2 de outubro, aconteceu o que ficou conhecido como a Batalha da Maria Antônia. Naquela tarde, estudantes da Faculdade de Filosofia da USP – mais associados à esquerda –  e da Universidade Mackenzie – mais associados à direita do espectro político – entraram em confronto com paus, pedras e bombas na rua Maria Antônia, endereço que abrigava as duas faculdades. O agravo foi a morte de um estudante, depois que um tiro foi dado a partir do prédio do Mackenzie.

O mesmo ano de 1968 foi também aquele que ficou marcado pelas célebres manifestações de maio em Paris, as quais desencadearam uma profunda renovação de valores da sociedade. O mundo também viu o que seria depois conhecido como Primavera de Praga, movimento político na Tchecoslováquia, o primeiro e contundente passo de revolta contra as lideranças soviéticas. Igualmente foi o ano de uma profunda perda: a de Martin Luther King, assassinado enquanto discursava durante uma greve dos trabalhadores.

 

Os lançamentos

O distanciamento dos anos possibilita pensamentos mais arejados e que integram tais fatos ao mundo contemporâneo. Para marcar as cinco décadas transcorridas desde então, as Edições Sesc lançam três importantes livros que não só ampliam o conhecimento, como possibilitam novas visões em torno de tudo o que aconteceu. 

Um dos livros é Maio de 68 e suas repercussões, de Kristin Ross, professora emérita de literatura comparada na New York University. Especializada na cultura francesa dos últimos três séculos, ela observa em sua análise como o viés político e a verdadeira importância das manifestações foram sendo substituídas por um ar mítico e restrito à histórias fantásticas pessoais e, nem sempre, coletivas. Ela também se vale de tudo que foi vivido para refletir sobre o momento atual do mundo e como a sociedade do século 21 se configura em meio aos fatos que a cercam.

Outro lançamento recebe como título 1968: reflexos e reflexões, o qual reúne artigos escritos por 11 pensadores de diferentes áreas da cultura. O maio parisiense, o movimento estudantil mexicano e seu ativismo, as vanguardas artísticas no Brasil, a política e as contradições são abordadas de forma cativante, levando o leitor a mergulhar no período texto após texto.

Por fim, chega às livrarias Anos de chumbo: o teatro brasileiro na cena de 1968, do jornalista A. P. Quartim de Moraes. A publicação é dividida em três partes e contextualiza a importância ativista do teatro brasileiro na luta contra a ditadura. Além dos capítulos, há como anexo textos assinados por nomes importantes como Augusto Boal, José Celso Martinez Corrêa e Anatol Rosenfeld. “Gosto de imaginar que este livro é uma modesta contribuição para a reflexão dos brasileiros sobre os destinos do país, neste momento difícil em que o mais inescrupuloso populismo, de direita e de esquerda, parece disposto a apagar da mente de quem a sofreu – e sonegar dos mais jovens, que não a viveram – a dolorosa experiência autoritária de 50 anos atrás”, enfatiza Quartim.

Ano grandioso e complexo, 1968 necessita de ser estudado, observado, revisto pelas antigas e novas gerações. Fica o convite por meio da leitura destes livros e de tantos outros materiais possíveis. Aproveite também para ler a seguir o bate-papo com Quartim de Moraes em torno do seu livro e de sua visão sobre o período.

 

Podemos afirmar que o teatro foi a expressão artística mais engajada, de fato, na luta contra a ditadura brasileira?
A gente do Teatro teve um papel de destaque na resistência ao golpe militar de 1964, mas não foi, certamente, o único segmento politicamente progressista do mundo artístico, intelectual e acadêmico brasileiro a se engajar na luta em defesa dos valores democráticos que estavam em jogo. Entre os artistas, por exemplo, o movimento tropicalista, de modo especial na música, deu contribuição valorosa na resistência à ditadura civil-militar. Mas no que se refere ao papel da gente do teatro, é preciso levar em conta que além do idealismo libertário influiu também o instinto de sobrevivência, já que a escalada da censura impedia o trabalho da ampla gama de profissionais que vivia da arte cênica. Além disso, quando se fala em engajamento na luta, é preciso lembrar – como está amplamente reconhecido e descrito no livro –  a ação do  movimento estudantil, principal responsável pela intensa mobilização popular que levou os protestos às ruas.

Em uma escala global, 1968 foi um dos anos mais emblemáticos e difícil de ser definido por completo, indo do movimento na França, a luta por igualdades raciais, manifestações pelo fim da Guerra do Vietnã, combate à ditadura no Brasil e a repressão advinda dela... Como você observa esse ano? Qual é o elo entre tais acontecimentos pelo mundo?
O século 20 foi um período de extraordinário desenvolvimento tecnológico que transformou radicalmente os valores da civilização ocidental, mergulhando-a em contradições das quais a principal talvez tenha sido a de não ter sabido tornar toda a humanidade beneficiária de um espetacular progresso que foi capaz de levar o homem à Lua, mas não de impedi-lo de morrer de fome na Terra. Cenário ideal para conflitos ideológicos. A partir da segunda metade do século 20, impulsionadas também pela transformação de valores morais que, entre outros efeitos, agravou o abismo entre gerações, essas contradições afloraram com maior vigor, até porque sua existência passou a ser compartilhada, em tempo real, em todo o mundo. O Brasil de 1968 foi um marco importante que é necessário manter em foco na perspectiva adequada de tempo e lugar. 

Por que, em sua opinião, depois de um “ano” tão transformador em escala social, política e cultural, estamos vendo neste 2018 o crescimento do pensamento conservador, da presença da extrema-direita não só no Brasil, mas no mundo?
Cada país vive a realidade que é capaz de criar. O que estamos vendo em 2018 é não apenas o crescimento do pensamento conservador e da presença da extrema-direita. É muito pior do que isso. Como, desde sempre, em política os extremos se tocam, direita e esquerda estão hoje no Brasil unidas pelos laços do mais desavergonhado populismo, cuja principal característica é um discurso em que se revelam notáveis formuladores de diagnósticos sombrios e óbvios sobre a realidade nacional, mas sem apontar soluções sensatas e plausíveis para as mazelas que condenam. Como, por exemplo, a necessidade de controlar as contas do governo. A razão dessa incongruência é clara: soluções para problemas graves reclamam medidas duras e remédios amargos que não se encaixam na fórmula populista de dizer apenas o que o povo gosta de ouvir, não aquilo que precisa escutar. O que não convém dizer no palanque impõe-se, depois da eleição, discricionariamente. Essa é a fórmula populista. De direita ou de esquerda. Às vezes resulta em impeachment.

 


*Gustavo Ranieri é escritor e jornalista

 

Veja também:

:: 1968 é tema de lançamentos das Edições Sesc São Paulo | Bate-papo com o jornalista e escritor Alípio Freire, dia 31 de outubro, no Centro de Pesquisa e Formação Sesc São Paulo, marca a chegada das obras

:: Levantes | Obra traz uma reflexão abrangente sobre a temática dos levantes, insurreições coletivas que buscam condições de vida mais igualitárias e desafiam formas de submissão a um poder absoluto

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:: vídeo

:: trecho dos livros

 

 

 

 

 

 

 

 

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