Sesc SP

postado em 25/10/2018

Frechal: a história de uma luta

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A partir de textos e imagens, a fotógrafa Christine Leidgens reúne a experiência de 6 anos vividos na comunidade negra de Frechal, no Maranhão, e traça um panorama histórico desde a abolição até 1992

Por Gustavo Ranieri*

 

Em 1989, após registrar a vida de povoados ameríndios no Peru e na Bolívia, a fotógrafa belga Christine Leidgens migrou para solo brasileiro a fim de realizar uma vontade por demais presente em sua vida: travar contato com a história dos negros que para cá vieram durante os séculos de escravidão e compreender a realidade de seus descendentes no Brasil daquela época.

Um convênio entre a Bélgica e o Brasil permitiu que a artista por aqui desembarcasse. Imaginava de antemão que acabaria por ir à Bahia para dar prosseguimento ao seu intuito, mas o destino foi outro. Por meio de um trabalho desenvolvido pela instituição Cáritas Brasileira, Christine foi levada ao Maranhão, mais especificamente ao quilombo de Frechal, no município de Mirinzal. O impacto foi tão grande e a relação com as pessoas de lá tão intensa que a fotógrafa acabou por morar ali por seis anos, até o fim de 1995.

Durante esse período, fez centenas de registros fotográficos, que anos depois resultaram em uma grande exposição e, agora, na versão revista e ampliada do livro Frechal, quilombo pioneiro no brasil: da escravidão ao reconhecimento de uma comunidade afrodescendente, com edição extremamente cuidadosa das Edições Sesc. Rico e completo, a publicação mescla dezenas de fotos com textos que abordam o tráfico negreiro do século 16 ao 19, a formação do quilombo, os rumos da fazenda após o fim da escravatura, a memória oral de seus habitantes contemporâneos e o reconhecimento pelo governo brasileiro, em 20 de maio de 1992, como a unidade de conservação Reserva Extrativista do Quilombo do Frechal, com 9.542 hectares.

 

Transformações

“Quando cheguei a Frechal não demorei muito tempo para sentir duas coisas: a diferença entre índios e negros. Como eu havia estado antes com povos ameríndios, percebi que eles, apesar de tudo, tinham conseguido manter suas culturas, sua história. E os negros em Frechal pareciam, por causa dos séculos de escravidão, perdido um tanto de suas identidades”, conta Christine Leidgens, que continua: “Também me chamou muita atenção como era possível sentir tão forte os rastros da escravidão que escorriam nas veias daquelas pessoas”.

A chegada da fotógrafa no quilombo foi justamente logo após um grave conflito entre os negros trabalhadores da fazenda que reivindicavam para eles a posse daquela terra, então propriedade privada. Um ato de desobediência de uma trabalhadora resultou na derrubada e queima de sua casa e na intensificação da luta, até culminar com o reconhecimento do governo e entrega das terras aos frechalenses.

A artista belga conta que depois de um ano morando ali, realizou a primeira exposição de suas fotos para os habitantes, provocando um momento muito único de reconhecimento deles mesmos sobre suas histórias e luta. “Muitas pessoas nunca tinham se visto em uma fotografia e ao se observarem ali, as emoções vieram à flor da pele, as pessoas ficavam muito arrepiadas, emocionadas. Foi nesse momento que nasceu a ideia do livro”, relembra. “Naquele período, eles falavam de mocambo e não de quilombo. Eram chamados de os pretos de Frechal. Já hoje eles têm um orgulho enorme de se afirmarem como negros e de Frechal ter aberto o caminho para outras comunidades serem reconhecidas de forma legal.”

 

O retorno

Depois de dezembro de 1995, quando voltou à Bélgica, Christine ingressou em novos projetos, mas jamais se esqueceu do Brasil e de Frechal. Ela diz que essa terra tupiniquim provoca um sentimento de pertencimento. Dez anos depois, em 2006, a fotógrafa regressou a uma Frechal completamente diferente e ao mesmo tempo igual. Diferente porque havia evoluído em recursos. Se quando foi para lá pela primeira vez não havia energia elétrica nas casas – resumidas a quadrados com redes e utensílios para cozinhar – agora o século 21 trazia suas marcas: “Hoje você chega e tem tudo lá, são casas como as das grandes cidades. Quando vivi lá, a maioria da população nunca tinha ido à capital São Luiz. A escola, por exemplo, era pequena. Hoje os jovens são universitários, vão para outras localidades”, celebra.

Sem saber como seria a reação dos frechalenses em seu primeiro retorno, a artista descobriu que a sensação era como se nunca tivesse ido embora, tamanho eram os laços construídos. Assim, acabou voltando outras tantas vezes, sendo a última em janeiro desde ano, quando ficou em Frechal até junho para realizar uma grande mostra, intitulada Exposição Bélgica, a qual havia passado por São Paulo entre novembro de 2017 e janeiro de 2018, com painéis expostos em estações da Linha 4 – Amarela do metrô.

“Quando o Consulado da Bélgica me pediu a realização dessa exposição também em Frechal, solicitei que em vez de expor apenas 20 fotos [como havia sido na capital paulista], fizesse a mostra com 80. E lá fui eu para o Maranhão com esse material. Precisava de uma sala para colocar essas fotos, mas, por fim, me deram uma casa que havia sido uma escola no passado e, dessa forma, acabamos por criar o primeiro espaço quilombola fotográfico em Frechal e talvez no Brasil”, enfatiza Christine, antes de concluir: “Frechal me deu a oportunidade de viver uma experiência fotográfica que diz muito sobre mim”.

 

* Gustavo Ranieri é escritor e jornalista.

 

Veja também:

:: trecho do livro

 

 

 

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