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postado em 05/12/2018

Fora das caixinhas sociais

Cena do filme Pixote: a lei do mais fraco
Cena do filme Pixote: a lei do mais fraco

      


Em Meu nome não é Pixote, Ed Anderson escreve sobre como o cinema brasileiro abordou o jovem transgressor nas produções realizadas entre os anos 1980 e a primeira década do século 21

Por Gustavo Ranieri*

 

Em 1981, o cineasta Hector Babenco lançou o filme que, na época, foi apontado pela crítica internacional como um dos dez melhores do ano e, em 2015, elencado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como uma das cem melhores produções cinematográficas brasileiras de todos os tempos. O título ficou eternizado: Pixote: a lei do mais fraco.

No longa-metragem, Babenco expôs o drama e a barbárie do cotidiano de crianças que acabam por entrar em contato com a criminalidade. O protagonista, Pixote, é enviado para um reformatório, de onde sai com uma vida ainda mais difícil e violenta.

Depois desse filme, outros tantos expuseram o jovem transgressor em suas histórias e com contextos bem diferentes, incluindo o longa Meu nome não é Johnny, de 2008, dirigido por Mauro Lima. Entre um e outro se passaram 27 anos, marcados por uma série de filmes que se encaixam nessa temática. E foi esse período o escolhido pelo mestre em Ciências Sociais, Ed Anderson Mascarenhas Silva, para analisar e produzir o livro Meu nome não é Pixote: o jovem transgressor no cinema brasileiro, lançado pelas Edições Sesc.

 


Protagonistas dos filmes Pixote e Meu nome não é Johnny

 

É sobre o livro que conversamos com o autor. Confira o bate-papo a seguir:

 

Em seu livro, você analisa a presença do jovem transgressor no cinema, indo de um filme de 1981 a um de 2008 e se valendo de exemplos da literatura também. Em sua opinião, o fascínio que a transgressão exerce no público é fruto de um desejo desse de romper com as "normas sociais"?
Acredito que existam jovens que querem “apenas” romper paradigmas (na escola, na família ou entre os seus pares), sair de uma mesmice que lhe foi outorgada e pular o muro da retórica, ainda que a solução seja inventar uma outra roda, pois para eles o importante é contestar para ser ouvido. Outros, mais aquém em oportunidades, mas não menos importantes, nem sequer pertencem às normas sociais e a sua luta é de inclusão para ser visto. Sem dúvida transgredir é um verbo deveras sedutor, seja por abarcar possíveis rupturas associadas aos heróis da rebeldia ou favorecer uma feitura prática ou ideológica diferente dos padrões vigentes. Vemos no transgressor o indivíduo que se opõe a decisões de um grupo no qual está inserido e pode ser considerado outsider pela maneira própria de pensar. A transgressão também pode ser associada ao crime quando atua contra a ética da sociedade em questão podendo também provocar vítimas.

Como é o caso do personagem Pixote, por exemplo?
Tomemos por base o personagem Pixote que não teve escolha para exercer um outro destino. Sua sorte foi confinada na mediocridade de um sistema que se dizia reformador. Isso sem retratar o ator, Fernando Ramos da Silva, e sua breve permanência em um script real. Já o João de Meu nome não é Johnny encontrou nos delitos uma forma de se destacar em seu meio, mas sem grandes perspectivas pessoais. Hector Babenco apresenta um caráter singular em sua representação da metrópole como mais um personagem da cena e Mauro Lima expõe o asfalto da metrópole seduzido pelo tráfico entre a juventude classe média. Ambas as representações em película estão estruturadas no campo artístico e social e procuraram ampliar a dimensão do caráter dos protagonistas. Todos nós, enquanto público ou leitor, já tentamos algum dia quebrar o vidro das nossas caixinhas sociais inspirados por algum personagem ou situação que foi criada pela observação de mundo de determinado escritor ou cineasta. Alguns são bem sucedidos em seus intentos, outros dividem eternamente a frustração.

Como a sempre presente desigualdade social altera o modo como pessoas de diferentes classes observam o jovem transgressor no cinema e na literatura?
Primeiramente, devemos nos perguntar como se dá o acesso a cultura e ao lazer pelas classes menos privilegiadas. Através das políticas públicas voltadas para os jovens e suas questões de relações sociais, sei que existem algumas iniciativas como o vale-cultura, a meia entrada, salas de projeções populares na capital e periferia, encontro com escritores em bibliotecas, contrapartidas das leis de incentivo e outras ações não governamentais que tentam, ainda que de forma incipiente, suprir certas lacunas. Mas me deparo também com muitos jovens conhecidos de classe média que não se interessam pela leitura ficcional, noticiários ou atividades culturais, então creio que a questão está na estrutura da nossa formação desde o berço colonizador. A cultura e a educação para o desenvolvimento crítico deveriam ser os nossos pilares para combate das várias mazelas cotidianas, como violência, intolerância e analfabetismo, que teimam em nos diminuir enquanto fazedores de mundos. Vimos não tão distante o sucesso em bilheteria de filmes como Cidade de Deus, Carandiru e Tropa de Elite, bem como irônicas comédias populares que não primam pelo politicamente correto. Pixote apresenta uma estória que oscila entre o lirismo, emoção e violência e se divide entre os gêneros: drama social, melo drama, policial e aventura. Já a narrativa de Meu nome não é Johnny oscila entre o gênero aventura, romance e drama, com forte apelo juvenil através da trilha e ritmo frenético das cenas. Ambos tiveram referendadas críticas e atingiram variadas classes sociais em décadas distintas.

*Gustavo Ranieri é escritor e jornalista

 

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:: trecho do livro

 

 

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