Sesc SP

postado em 14/02/2019

Diversidade e convivência

Imagem: John Sloan | Visual Hunt
Imagem: John Sloan | Visual Hunt

      


No livro Plural e Comum, o sociólogo Vincenzo Cicchelli expressa a necessidade de se defender as sociedades cosmopolitas frente ao crescimento do pensamento xenófobo

Por Gustavo Ranieri*

 

Em 2016, quando Vincenzo Cicchelli, sociólogo italiano radicado na França, lançou por lá o livro Plural e comum: sociologia de um mundo cosmopolita, que chega agora ao Brasil pelas mãos das Edições Sesc, ele sabia que a expansão pelo mundo do discurso nacionalista e do pensamento xenófobo tendia a ser duradoura.

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, o expressivo apoio a Marine Le Pen – que perdeu no início de 2017 as presidenciáveis francesas para Emmanuel Macron –, o crescimento de partidos ultraconservadores na Alemanha e o mesmo fenômeno em diversos outros locais do globo, incluindo o Brasil, fizeram Cicchelli perceber e alertar, por meio desta publicação, para como os pensamentos reacionários acabam por afetar a chamada sociologia cosmopolita no mundo contemporâneo.

Ou seja, ao mesmo tempo em que a globalização transforma os produtos culturais em bens compartilhados e de forte impacto em distintas sociedades, independente de onde vivam, o cosmopolitismo também pede que as mesmas sociedades aprendam a conviver entre si em diversos âmbitos, como o da cultura, da ética e da política, e sem medo do outro.

 

Protesto anti-Trump | Foto: Alisdare1/VisualHunt

 

O pedido é justo, porém, entra em choque com o que o autor chama de “tensão fundadora entre o universalismo e o particularismo”. Em outras palavras, quer-se de um lado um mundo amplo e receptivo a todos. De outro, porém, o medo da evolução faz com que muitas pessoas – e governantes – se agarrem às suas raízes e as defendam radicalmente, como se fazer parte de uma sociedade plural e comum, como o título do livro, fizesse cada ser perder sua história e seu papel, o que Cicchelli rebate ao dizer que “há espaço para outros mundos no ator social, por mais raízes que ele tenha”.

É a partir desses sentimentos contraditórios que se expandem pensamentos radicais e ações intolerantes, os quais são perigosos para qualquer democracia e, obviamente, para uma sociedade cosmopolita. Reflexo disso é a recente decisão do deputado federal Jean Wyllys (PSOL) de dedesistir de assumir seu terceito mandato na Câmara e viver fora do Brasil para preservar sua vida após receber inúmeras ameaças de morte, ou o caso da antropóloga Débora Diniz, uma das maiores pensadoras globais, que também deixou o Brasil ano passado, após ter sua vida ameaçada por grupos fundamentalistas contrários à sua militância nas questões de gênero.

 

Jean Willys | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

 

Mestre de conferências na Universidade Paris-Descartes (Paris-V) e diretor do programa interdisciplinar Sociétés plurielles [Sociedades Plurais], na Universidade Sorbonne Paris Cité, Vincenzo Cicchelli concedeu a entrevista a seguir para falar sobre tais assuntos, abordados no livro Plural e comum: sociologia de um mundo cosmopolita.

Você acredita que a ascensão do pensamento ultraconservador em vários países do mundo, inclusive no Brasil, reflete a vitória do medo nacionalista e da "proteção" contra o pensamento cosmopolita?
Esse impulso do pensamento de extrema-direita no mundo, que está prestes a impor uma nova hegemonia global e que pode reivindicar forte apoio institucional, produção intelectual, vitórias em eleições políticas, está ligado ao medo do cosmopolitismo e o que ele representa, pelo menos no sentido mais mundano do termo. Na verdade, onde quer que a extrema direita triunfe, tem havido um aumento sem precedentes do discurso xenófobo, o retorno do antissemitismo, a condenação de todas as formas de hibridização cultural e a chamada para a preservação de uma cultura delimitada por fronteiras políticas reforçadas, consideradas patrimônio a ser transmitido dentro de um coletivo étnico nacional definido pela maioria dominante. Mas esse conservadorismo internacional marca igualmente a oposição ao que o cosmopolitismo impulsiona como mais forte, que é considerar a identidade como o resultado de uma tensão entre o particular e o universal.

Então, de fato, é um recuo após um avanço social?
Este recuo, esse encolhimento identitário é um questionamento profundo e pernicioso do pensamento universalista: sem este último, a expressão "cidadão do mundo" é simplesmente impensável. O pensamento universalista também baseia e legitima qualquer exigência de igualdade entre os indivíduos, independentemente de seu sexo, religião, etnia ou orientação sexual. Dito isto, este movimento representa uma rejeição fundamental não só do cosmopolitismo, mas também de tudo o que está na base de convivência em sociedades democráticas. Estamos a assistir nos últimos anos um ressurgimento do anti-iluminismo, que alguns acreditavam definitivamente conquistado através da luta pelos direitos civis, políticos e sociais, e o estabelecimento de estados de bem-estar, de um lado, através da divulgação de ideais democráticos e dos direitos humanos.

 

 

No Brasil, a importante antropóloga Débora Diniz e o deputado federal Jean Willys deixaram o país depois de receber inúmeras ameaças de morte. Isso muda o significado da democracia no país e vai na direção oposta ao título de seu livro Plural e comum. Qual é a sua opinião sobre esses fatos?
Certamente, o que vemos acontecer no Brasil é um ataque frontal à democracia, aos direitos humanos e às liberdades fundamentais. É muito lamentável que isso esteja acontecendo em um país que se engajou fortemente após a ditadura a favor de uma sociedade aberta e multiétnica. O que se deve temer é que o Brasil represente uma espécie de laboratório que cristalize tendências fundamentais observadas em outros países que se transformaram em democracias não liberais. Nesse sentido, o cosmopolitismo como combate ao autoritarismo fascista não está perdido, promovendo a luta por uma sociedade aberta. Em uma sociedade globalizada como a nossa, essa resistência só pode ser transnacional e terá que aproveitar as muitas oportunidades que as redes sociais podem oferecer, bem como uma colaboração mais próxima entre os países que pretendem tornar a luta pelos direitos humanos uma realidade. Parafraseando Marx e Engels, se um espectro assombra o mundo hoje, como o populismo da soberania, devemos fazer o chamado: "Cosmopolitas de todos os países, uni-vos!"

Quais são os principais obstáculos ao pensamento cosmopolita hoje?
O cosmopolitismo é um antigo sonho da humanidade, provavelmente o mais antigo, sem nunca ter sido apoiado por uma instituição forte, como foram as religiões, por exemplo. Se continua a nos assombrar 2.500 anos depois da sua criação, certamente corresponde a algo mais forte que as fantasias de poetas, filósofos, artistas e outras pessoas esclarecidas. Minha ideia é que ele continue a responder uma constante antropológica que poderia ser resumida pelo fato de que qualquer identidade, mesmo a mais local, precisa fazer parte de uma dimensão maior, universal, para poder se expressar, ser identificado e reconhecido em sua singularidade. Em sua história milenar, o cosmopolitismo sempre conheceu inimigos, muitos foram os ressentimentos expressos contra ele. Há um que está voltando em vigor no momento, com o impulso do nacionalismo: os cosmopolitas seriam traidores de sua nação. Eles prefeririam se preocupar com um vizinho abstrato, incorporado no que algumas pessoas consideram uma utopia – uma humanidade comum –, uma ideologia a serviço do Ocidente conquistador – os direitos humanos.

E como você estimularia esse pensamento cosmopolita entre os jovens?
Para combater esse retorno do anti-iluminismo que mencionei anteriormente, é fundamental repensar a educação dos jovens em relação aos outros, a convivência plural, o universalismo. Pois o cosmopolitismo como um estilo de vida promovido pela globalização é insuficiente para liderar a luta por sociedades abertas, respeitando o pluralismo, protegendo as minorias, promovendo as liberdades individuais, em suma, garantindo uma vida totalmente decente. Podemos aceitar sociedades globalizadas que são indiferentes aos direitos humanos? As sociedades tratam os jovens esquizofrenicamente, pois eles estão abertos ao consumo cultural global, mas os querem fechados aos imperativos éticos do universalismo dos direitos humanos? Nosso futuro dependerá da nossa capacidade de responder a essas perguntas.

 

*Gustavo Ranieri é escritor e jornalista

 

Veja também:

:: Em nome do bem comumElogio do político: uma introdução ao século XXI retoma a democracia e o pensamento filosófico desde a Antiguidade com o intuito de indicar que a vida na cidade livre sempre comporta um excesso

:: trecho do livro

 

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