Sesc SP

postado em 05/04/2019

Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?

lama-caos-dest

      


DA LAMA AO CAOS
que som é esse que vem de Pernambuco?

José Teles
Coleção Discos da Música Brasileira
2019 | Livro Digital
ISBN 9788594931689

À venda na loja virtual ou aplicativo de sua preferência:

:: Amazon
:: Apple iBooks Store
:: Google Play Livros
:: Kobo
:: Wook


Sinopse

No aniversário de 25 anos do álbum, o jornalista e crítico José Teles reconstrói a trajetória do disco que transformou a música brasileira ao fincar sua "parabólica" de samplers e guitarras pesadas nos ritmos populares de Pernambuco: Da lama ao caos, de Chico Science & Nação Zumbi, lançado em abril de 1994. Colunista de música do Jornal do Commercio, de Recife, desde 1987, Teles foi testemunha privilegiada do nascimento do álbum e da cena manguebeat, encabeçada por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. No livro, ele entrevista músicos, produtores, empresários, diretores de gravadora, designers, fotógrafos e jornalistas para recontar a história e os bastidores do disco que colocou Recife – a "quarta pior cidade do mundo", de acordo com relatório de 1991, de um órgão ligado à ONU – no centro de toda a cena cultural dos anos 1990. O livro é o primeiro título da coleção Discos da Música Brasileira.

Como escreve Teles: "A contemporaneidade começava a botar as patolas de fora, surgida de onde menos se esperava. Até então, os movimentos musicais no Recife saíram da classe média ou das elites da cidade. Da periferia, a exceção, que não chegou a ser movimento, foi o frevo, surgido do 'poviléo' (como se dizia no início do século 20). O movimento que surgiu para "contemporaneizar" a música pernambucana veio metaforizado de mangue, os homens-caranguejos, que juntaram o arsenal de ideias na Rua da Aurora, no centro da capital pernambucana, em edifícios localizados num trecho que pode ser visto como um emblema da estagnação da cidade". E continua mais à frente: "Não se imaginava que aquela turma, que se autodenominava 'caranguejos com cérebro', que se apresentava para plateias reduzidas e trocava ideias em barzinhos descolados, fosse extrapolar limites, divisas, fronteiras, que revigorasse a cultura pernambucana, influenciasse a música brasileira, e tivesse repercussão internacional". Ao autor, declara no livro o guitarrista do grupo, Lúcio Maia: "Eu acho Da lama ao caos melhor que Afrociberdelia [segundo álbum da banda]... Chico, eu, Jorge, Gilmar, todo mundo teve o tempo de uma vida inteira para pensar nele". A coleção Discos da Música Brasileira, publicada em português e em inglês, tem organização do crítico musical Lauro Lisboa Garcia.

 

Trecho do livro

À medida que se entrosou com os integrantes do Lamento Negro, Chico Science considerou a possibilidade de introduzir no grupo a guitarra de Lúcio Maia e o contrabaixo de Alexandre Dengue. Precisou convencer os companheiros de Loustal a irem ao Daruê Malungo. Lúcio e Dengue relutaram em aceitar o convite. Não achavam que aquilo tivesse a ver com o que pretendiam da música. "O Lamento Negro tocava muito samba-reggae, que eu odiava. Emprestava meu baixo pra outro músico, Gabriel. Até que Chico me tranquilizou: 'Meu irmão, não vamos mais tocar isso, eu juro a você. A gente vai fazer as mesmas coisas que no Loustal, só que com percussão' ", lembra Dengue.

Chico Science sabia ser convincente. Lúcio Maia trouxe o amplificador e a guitarra para Chão de Estrelas e tocou com a percussão do Lamento Negro. O que eles começavam ali desaguaria no movimento manguebeat. Alguns trechos de música que Chico adaptaria naqueles ensaios seriam incluídos poucos anos depois no repertório do álbum Da lama ao caos. "A primeira gravação nossa foi uma demo que fizemos com Chico, ele cantando "A cidade" Gravamos duas músicas pra botar num CD de Elcy [dono de uma loja alternativa de discos no Centro do Recife]", conta Osmair "Maia", do Lamento Negro.

Loustal e o Lamento Negro passaram a fazer apresentações em bares, clubes, festas. Shows separados, mas que em determinadas canções necessitavam de percussão. Então acontecia a mistura das duas bandas, que chegou a ser chamada de Chico Science & Lamento Negro, e finalmente foi batizada de Chico Science & Nação Zumbi. De Afrika Bambaataa & the Zulu Nation, obviamente, veio Nação Zumbi, sem esquecer que os maracatus eram de nação, ou seja, de uma etnia africana específica: Nação Porto Rico, Nação do Forte. O nome da banda vem dos maracatus e também de Zumbi, o mito negro do Quilombo dos Palmares.

Enquanto guitarra, baixo e vocal eram fixos (respectivamente Lúcio Maia, Alexandre Dengue e Chico Science), os percussionistas mudavam de acordo com suas conveniências. Os caras não se sustentavam de música, viviam de biscate ou trabalhavam com carteira assinada. Canhoto, por exemplo, 15 anos, era aprendiz de reparador de estofados. O próprio Gilmar Bola Oito, antes de garantir um trabalho fixo na empresa de processamento da prefeitura, se virava como podia, foi até magarefe do matadouro de Peixinhos (depois desativado e transformado no Centro Cultural Nascedouro). Chico Science sentiu que naquele caldo revigorante e sumarento estava sendo fermentada uma nova música, que precisava ser bem amarrada, organizada.

(Capítulo 2 - Loustal, Lamento Negro & O Mangue, págs. 46-47).

 

Veja também:

:: Ainda a lama, ainda o caos | Coleção de e-books sobre álbuns que fizeram história na cena musical do país estreia com livro que revela os bastidores do disco antológico de Chico Science & Nação Zumbi

:: Tutorial e-book | O que você precisa saber para começar a ler nossos livros no formato digital