Sesc SP

postado em 20/05/2019

Nota ambiental

Foto: Pxhere
Foto: Pxhere

      


Relatório da ONU aponta para necessidade de reformulação ética, política e econômica da vida em sociedade, um dos temas tratados em Mutações: dissonâncias do progresso


Por Gustavo Ranieri*
 

Um novo alerta ambiental e de extrema gravidade soou ao mundo no início do mês de maio de 2019. De acordo com um relatório da ONU, o maior já feito sobre biodiversidade, mais de um milhão de espécies da flora e fauna correm risco severo de entrar em extinção em poucas décadas. O responsável? A ação de nós, seres humanos, e o descaso político e econômico globais em torno da preservação do meio ambiente – ou a escala ainda reduzida das ações e tratados em vigor.

A notícia vai, de diferentes formas, ao encontro da temática abordada em Mutações: Dissonâncias do progresso, novo título da série organizada pelo filósofo e jornalista Adauto Novaes. A publicação traz artigos de 15 pensadores contemporâneos sobre como os avanços tecnológicos impactaram positivamente áreas fundamentais do nosso cotidiano ao mesmo tempo em que provocaram uma enorme ruptura negativa na nossa relação com o outro, com o nosso entorno e com a ecologia.

A questão ambiental, inclusive, é tratada no artigo "O que se entende por fim da humanidade? ou O fim do progresso como fim", assinado pelo físico, doutor em Cosmologia e curador do Museu do Amanhã, Luiz Alberto Oliveira. No texto,  Oliveira dialoga com o posicionamento do divulgador científico John Horgan e do filósofo Michel Serres para endossar que a humanidade, se comparada a séculos anteriores, se encontra em um dos seus melhores momentos, especialmente em aspectos como multiplicação de democracias, aumento exponencial da expectativa de vida, menor exposição à violência. Contudo, mais adiante, ele relembra o posicionamento do físico Stephen Hawking e faz, em seguida, um alerta: “o ‘melhor’ momento é também, e talvez inseparavelmente, o ‘mais perigoso’!”.

 


Luiz Alberto Oliveira | Foto: Edmar Júnior / Sesc
 

“É necessário que a maior parte possível da população possa compreender que existe hoje, sendo acumulado, um capital crescente de evidências, ou seja,  não são fantasias ou opiniões, mas evidências indicando esse processo global da ação humana transformando de maneira profunda e com grandes consequências o bom funcionamento do mundo natural e nossa relação com ele”, enfatiza Oliveira. “O instrumento necessário para que a maior parte possível das pessoas tenha esse conhecimento é o que vou chamar de educação generalizada. Assim sendo, educação em todos os níveis, com esse tipo de informação sendo disseminada para as pessoas compreenderem, pensarem, refletirem sobre o mundo em que elas vivem.”

Para o autor, o contraste entre o “melhor” momento e o “mais perigoso” também se dá pelo fato de vivermos um regime econômico extremamente imediatista e concentrador. “Se você entender o grande descompasso que existe entre esses avanços todos na educação, saúde e longevidade etc., e ver na contramão disso a concentração crescente de riqueza na mão de poucos, ultra ricos cada vez mais ricos, perceberá uma situação que, historicamente, se revela insustentável. Ou seja, civilizações em que a desigualdade interna afetou de modo significativo o seu ambiente ou sofreram mudanças ambientais são aquelas que entraram em crise e não há nenhuma razão para pensar que isso não aconteceria agora com a gente”.

Ainda na visão de Luiz Alberto Oliveira, mais do que ampliar ações pela preservação ambiental, é necessário, em sua opinião, que se combata uma situação mais grave: “Existem hoje poderosas forças de diferentes setores da sociedade fomentando ativamente a ignorância, superstição e intolerância. (...)É necessária uma postura de enfrentamento, de combate, de recusa, de resistência a esse projeto totalitário, que quer moldar a sociedade com a manutenção dessa situação calamitosa”, conclui Oliveira.

Tanto na questão ambiental quanto no que diz respeito a uma melhor relação nossa em sociedade, menos vazia e superficial, como debatem outros pensadores no livro Mutações: Dissonâncias do progresso, as nações estão diante uma bifurcação apontada pelo doutor em Cosmologia: “Ou a gente caminha para a construção de uma sociedade sustentável, de tolerância, de convívio, ou vai embarcar rumo a uma espécie de autodestruição, e essa situação é global”. 


*Gustavo Ranieri é jornalista e escritor.


Veja também:

:: Mutações: dissonâncias do progresso | Novo livro da série Mutações discute impasses entre o progresso material e a regressão dos valores da política e da organização social

:: V Salão do Livro Político | Edições Sesc lançam novo título da série Mutações durante o evento, no próximo dia 30, na PUC-SP

 

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