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postado em 09/09/2019

O que nos constitui como sujeitos sociais

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Baseado em extensa pesquisa acadêmica, Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil joga luz sobre a construção da identidade do país 

Por Gustavo Ranieri*

 

A imagem erotizada do carnaval brasileiro, com sol, praia, corpos seminus desfilando pelas ruas e avenidas, a libido estampada nos rostos, além da diversidade sexual convivendo em suposta harmonia, permanece fixa no imaginário do estrangeiro e até mesmo do próprio brasileiro. Ainda que não corresponda a verdade, esse retrato de certa libertinagem começou a ser pintado séculos atrás, quando os primeiros portugueses chegaram por aqui e, logo depois, quando a escravidão do negro africano se tornou o sustentáculo do processo de colonização.

Polêmico e fascinante, o tema é tratado nas quase 400 páginas do livro Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil. Escrito pelo sociólogo e filósofo Paulo Sérgio do Carmo e endereçado ao grande público, o título foi produzido com linguagem simples e jornalística, mantendo todo o rigor na apresentação dos fatos. “Espero que o leitor, ao tomar conhecimento dos ‘sabores e odores das coisas desconhecidas’, seja mais tolerante no convívio com a diversidade sexual que nos cerca e se dê conta também de sua complexidade”, salienta o autor.

Capítulos como “Navegadores, náufragos e povos da terra”, “Pecados sexuais, religiosidade e inquisição”, “Inquietações escravistas e quilombolas”, “Vivandeiras na Guerra do Paraguai” e “A sexualidade vigiada das famílias imigrantes”, entre tantos outros, dá o tom da extensa pesquisa para a concretização dessa obra, na qual prazeres e violências entre os povos que aqui habitaram ao longo de séculos se entrecruzaram e corroboraram para a construção da identidade do país.

 


Trecho do livro

 

Confira a seguir uma entrevista com Paulo Sérgio do Carmo sobre o que o levou a escrever Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil e as descobertas que o livro apresenta.

 

Muito falamos sobre aspectos variados que constituem a identidade do Brasil e do brasileiro. Pesquisar e escrever Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil, assim como o Ente a luxúria e o pudor (Octávio, 2011), partiu justamente de querer compreender melhor a nossa identidade ou foi fruto de outra opção?
Os dois livros foram escritos menos no sentido da busca identitária e mais na intenção de tratar, através de um amplo período histórico, as práticas sexuais dos habitantes de nosso país. Por meio de diversas leituras biográficas e múltiplos livros de variadas áreas do conhecimento pude constatar que ricos relatos sexuais, salpicados nas páginas publicadas, eram negligenciados pelas teses acadêmicas, por escolhas ou restrições metodológicas. A leitura de Casa grande e senzala de [Gilberto] Freyre me surpreendeu e serviu de ponto de partida bem como a adoção inconsciente de seu estilo: a centralidade do sexo e da sexualidade como ferramentas de compreensão sobre nós. Freyre também não negligencia fontes: dos livros clássicos a assuntos menos nobres como as rezas, crendices, modinhas populares etc. Ao não propor defender uma tese, o que seria um trabalho monotemático, pude aproveitar vários relatos e descrições de práticas sexuais de toda ordem social.

Quais mitos ou confusões históricas surpreenderam até mesmo você ao descortiná-los enquanto desenvolvia a pesquisa que resultou nessa obra?
Uma das surpresas foi a variabilidade de práticas sexuais entre os nativos da terra, a ponto de tratá-las no plural: “sexualidades indígenas”. Surpreendente também foram as Confissões do Santo Ofício da Inquisição. Estudiosos contam que até mesmo o inquisidor aparentava ter ficado chocado com o que ouviu. Outra constatação foi a alta taxa de natalidade e, ao mesmo tempo, de mortalidade infantil. Diversas câmaras municipais tinham discussões a respeito do que fazer para sustentar crianças abandonadas. Há que se falar também do pessimismo do sociólogo Paulo Prado em seu retrato luxurioso sobre o Brasil e, ao contrário, do otimismo de Freyre ao ver a miscigenação como um fator positivo na crença de que o sexo uniu o que as raças separavam.

No livro você mostra como “conquistamos” essa fama de país liberal sexualmente, da imagem carnavalesca que muitos ainda fazem sobre nós, ainda que não constitua a verdade. É possível nos liberarmos dessa imagem?
Ter a imagem (embora não verdadeira) de um país liberal sexualmente não é negativa, pelo contrário. Preocupante é carregar a fama de uma nação leniente com diversos abusos praticados nos segmentos sociais mais fragilizados (crianças, mulheres, homossexuais) e conivente com a exploração do turismo sexual. A França detém a fama de licenciosidade sexual e nem por isso a torna digna de reprovação.

 


Paulo Sérgio do Carmo | Foto: Edmar Júnior / Sesc

 

A violência contra minorias (o Brasil, por exemplo, apresenta altos índices de assassinatos de travestis e transexuais) encontra eco também nessa nossa conturbada identidade sexual?
Se tem um fator positivo é que os grupos LGBTs estão tendo maior visibilidade e conquistando maior espaço na sociedade. No entanto, isso alimenta mais “reação” (do que “ação”) de setores conservadores. Estes, a reboque, tentam barrar o processo libertário. O crescimento de vertentes religiosas retrógadas é preocupante. Alguns pais e familiares, ainda nos dias de hoje, chegam a ponto de expulsar de casa filhos que consideram ter conduta “desviante”. Este é um dado a mais no quesito intolerância.  Apesar de todos esses elementos, ainda atribuo tais atos como oposição a uma nova revolução sexual, que seria, em resumo, o combate à heteronormatividade.

E se precisássemos definir quem é o brasileiro a partir daquilo que é apresentado em Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil?
Um povo que insinua uma erotização carnavalesca, mas que não chega às últimas consequências. Explico: somos afáveis, sorrimos, olhamos nos olhos dos outros, abraçamos, beijamos, tocamos. Isso leva o estrangeiro a acreditar num comportamento mais aberto para além do que aparenta ser.

 

* Gustavo Raniere é jornalista e escritor
 

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