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postado em 09/12/2019

Com a palavra

Peter Brook em seu teatro. Paris, 2013. Foto: Thomas Rome | flickr.com
Peter Brook em seu teatro. Paris, 2013. Foto: Thomas Rome | flickr.com

      


A partir dos textos de Shakespeare, Peter Brook investiga a relação entre uma palavra e seu verdadeiro sentido no livro Na ponta da língua

 

Mais de 400 anos após sua morte, ainda não se disse tudo sobre William Shakespeare, considerado por inúmeros estudiosos um dos escritores que melhor traduziu em palavras a experiência humana. Um dos maiores especialistas vivos sobre o bardo inglês, o diretor teatral Peter Brook, 94, mostra que a última palavra sobre Shakespeare ainda não foi dada em Na ponta da língua: reflexões sobre linguagem e sentido.

Em prosa leve, em que se percebe como o autor se diverte ao rememorar passagens marcantes de sua longa e produtiva vida, Brook busca as semelhanças e diferenças entre sua língua nativa, o inglês, e o francês, que ele “adotou” após se mudar para Paris, em 1970, onde fundou o Centro Internacional de Pesquisa Teatral. No prólogo, ele admite que, quase 50 anos depois, ainda não se sente à vontade falando sua segunda língua – e que os franceses percebem isso. Para Brook, as palavras podem ser uma necessidade, mas deve-se evitar que assumam o primeiro plano. “A essência é o sentido”, afirma o criador do conceito de espaço vazio.

Na ponta da língua se divide em três partes e nove capítulos curtos. A primeira parte do livro começa construindo um “arranha-céu” a partir de duas das palavras mais básicas que o homem concebeu: bom e mau (de onde derivam bem e mal, melhor e pior etc.). A seguir, Brook se diverte com as semelhanças e diferenças, às vezes cômicas, às vezes sutis, entre as línguas inglesa e francesa, a partir de sua experiência como britânico em Paris, encenando Shakespeare: “Em francês, a melodia passa através das vogais, ao passo que em inglês o elemento propulsor é a consoante”. Como um diretor de atores, ele se detém na forma como um ator deve declamar uma fala em cada idioma.

 


Trecho do livro

 

Na segunda parte, mergulha em suas memórias dos acontecimentos culturais dos anos 1960 e 1970 e reflete sobre suas teorias a respeito dos “espaços vazios” no palco teatral e na linguagem. Brook relembra suas experiências com o uso do espaço vazio no palco para demonstrar “o eterno problema de começar com uma forma, em vez de procurar o sentido”, o papel da intuição, que de fato é essencial em cena para “amparar a riqueza das palavras e a presença do ator” e o uso do vazio nos textos de autores como Beckett, Tchekhov e Shakespeare. “A mais refinada expressão do vazio é o silêncio”, conclui.

Por fim, se debruça sobre Shakespeare, talvez o maior criador de palavras, ao menos na língua inglesa. Comparando metaforicamente sua obra a um arranha-céu, analisa o movimento entre o “esotérico” e o “profano”, e o poder de suas palavras em transformar um amontoado de pessoas que não se conhecem, reunidas na plateia de um teatro, em uma unidade coesa, a humanidade. Aborda o uso do humor como forma de trazer os espectadores “de volta à terra”, e discorre sobre a genial simplicidade de uma das mais conhecidas frases shakespearianas: “to be or not to be: that is the question (ser ou não ser: eis a questão)”.

A edição brasileira traz, ainda, um posfácio do editor, tradutor, escritor e doutor em teoria literária Rodrigo Lacerda, que repassa os principais momentos da carreira e os temas mais importantes da obra de Brook, tratados em Na ponta da língua. Com este lançamento, o Sesc conclui mais um capítulo de sua relação com o grande diretor britânico, que em 2015 encenou a peça O terno (The Suit), no Sesc Pinheiros, e no ano seguinte lançou a edição brasileira de Reflexões sobre Shakespeare pelas Edições Sesc.

 

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