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postado em 04/02/2020

Trânsito permanente

A saída do Reino Unido da UE aconteceu na última sexta, 31/01/20 Foto: Stux | Pixabay
A saída do Reino Unido da UE aconteceu na última sexta, 31/01/20 Foto: Stux | Pixabay

      


Num cenário de intensas transformações políticas em nível global, perspectivas históricas apresentadas no livro Identidades das nações lançam luz sobre os rumos que os países podem tomar

Por Bruno Batiston*

 

A elaboração da história é um processo complexo. Reiterado ao longo dos séculos, o esforço humano por ordenar os fatos numa sequência lógica contribui para moldar olhares múltiplos sobre a humanidade. Cada povo, amparado por sua experiência, estabelece uma forma própria de ver e se relacionar consigo e com o mundo – ou várias, complementares ou amiúde conflitantes, como ocorre nos territórios marcados por reivindicações e disputas milenares.

Quando conflitos vêm à tona, pontos de inflexão se apresentam no curso da história. Tais embates podem surgir tanto do enfrentamento com o outro quanto da assimilação da própria história e identidade. Ainda há pouco, por exemplo, enquanto os ponteiros do relógio global davam suas voltas mais recentes, assistimos aflitos ao agravamento da crise entre Estados Unidos e Irã desde que o general Qassim Suleimani foi morto durante um ataque americano no Iraque.

Essa é apenas uma das manchetes que têm movimentado os noticiários e levantado preocupações, como a recente saída do Reino Unido da União Europeia, apelidada de Brexit. Tais eventos suscitam em estudiosos de todo o mundo reflexões sobre quem somos enquanto pátrias e como chegamos até aqui. É o caso do britânico Peter Furtado, organizador do livro Identidades das nações: uma breve história, lançado no Brasil pelas Edições Sesc São Paulo.

 


Trecho do livro

 

A obra reúne artigos de 28 pesquisadores, quase todos historiadores, com ávido interesse em compreender a formação dos países em que nasceram e, na maior parte dos casos, residem e atuam ainda hoje. Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Egito, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Gana, Grã-Bretanha, Grécia, Hungria, Índia, Irã, Irlanda, Israel, Itália, Japão, México, Países Baixos, Polônia, República Tcheca, Rússia, Suécia e Turquia são as nações contempladas, que vêm de todos os continentes e representam dois terços da população mundial.

 

Transitoriedade

O trabalho de Furtado não tem a pretensão de estabelecer verdades categóricas sobre os povos de que trata. Em vez disso, o autor busca instrumentalizar os leitores para uma compreensão mais profunda, apresentando-lhes perspectivas de estudiosos nativos que conciliam o encanto pelas benesses de suas terras com um olhar crítico para as agruras de suas trajetórias. De fato, os relatos históricos contidos no livro acabam por incitar uma reflexão sobre o próprio fazer da história, que sofre influência de decisões políticas, tradições culturais e dinâmicas econômicas, entre outros fatores.

O historiador e professor Robson Della Torre, autor do texto de apresentação da edição brasileira de Identidades das nações, explica que as identidades nacionais são construídas historicamente a partir do legado sucessivo de gerações e grupos políticos que conquistam a hegemonia – sempre efêmera, como faz questão de ressaltar. Para ele, mesmo nos momentos caracterizados por rupturas drásticas, não se pode ignorar o substrato do passado, que constitui o ponto de partida para a formação de outras visões.

“A grande utilidade de se olhar para as identidades nacionais contemporâneas por uma perspectiva histórica é não apenas ter a dimensão de seu caráter provisório, conflitivo, multifacetado e politicamente útil a grupos hegemônicos, mas também compreender que cada nova construção identitária é resultado de inúmeras outras camadas discursivas que são reapropriadas, reelaboradas e ressignificadas pelo presente e que, por esse motivo, devem ser entendidas em seus próprios termos para que tenhamos uma visão mais sólida e ampla do conjunto”, defende.

 

Relações e reafirmações


Vista aérea mostrando a extensão do desmatamento na floresta Amazônica. Foto: Eduardo Martino/Panos Pictures.

 

Della Torre analisa, por exemplo, a atual conjuntura do Brasil, em que diferentes narrativas se contrapõem. “Elas não têm como escapar de ideias muito básicas lançadas já no início do século XIX sobre as ditas três ‘raças’ que comporiam a sociedade brasileira, ou mesmo das mazelas decorrentes da exploração colonial portuguesa como fundadoras dos dilemas sociais, econômicos e políticos que vivemos”, pontua.

Tal visão é corroborada pelo artigo dedicado ao país em Identidades das nações, que destaca o legado da cultura escravocrata e de uma estratégia de desenvolvimento social e econômico calcada na destruição predatória do ambiente. A despeito das aflições revividas nos frequentes relatos de guerra, a leitura do livro é deleitante, especialmente em passagens como o inspirado relato da ligação entre os neerlandeses e as águas ou diante de prismas surpreendentes sobre países como Espanha, Rússia, México e Itália.

No fim das contas, a obra retrata variados perfis de nações: das que nascem vocacionadas para o capitalismo às que mantêm traços do passado comunista, das que gozam de posições menos conflituosas às que enfrentam antigas disputas territoriais, das que preservam as tradições católicas às que expandem a influência do islã.

Compreender o cenário global em que hoje efervescem tensões é um exercício inexorável. Conhecer os fatos que determinam o lugar ocupado pelos países na atualidade pode não ter total eficácia em caráter preditivo, mas certamente traz à luz as grandes prerrogativas e desafios de cada um deles. Ao passo que interagem umas com as outras, nações se afirmam e reafirmam perante um mundo em trânsito permanente, sempre pronto para contrapor as tradições com os imprevistos da história.

 

* Bruno Batiston é bacharel em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina.

 

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