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postado em 03/03/2020

O que quer a mulher?

Judith Butler no I Seminário Queer. Sesc Vila Mariana, 2015. Foto: Alexandre Nunes / Sesc
Judith Butler no I Seminário Queer. Sesc Vila Mariana, 2015. Foto: Alexandre Nunes / Sesc

      


Na tensa relação entre feminismos e psicanálise, a questão formulada por Freud esbarra em dissidências contemporâneas, notadamente a partir do trabalho de Judith Butler e Beatriz Preciado

Por Ana Laura Prates*

 

Sigmund Freud, o inventor da psicanálise, formula a seguinte pergunta em uma carta dirigida a sua discípula Marie Bonaparte: "A grande indagação que ficou sem resposta, à qual eu mesmo não soube responder, apesar de meus trinta anos de estudo da alma feminina, é a seguinte: O que quer a mulher?" De fato, a pergunta sobre o desejo feminino acompanha a história do movimento psicanalítico desde sua inauguração, com a escuta das histéricas – então condenadas à loucura e ao confinamento que lhe era destinado –, e a consequente elevação de seu sofrimento à dignidade de um discurso. Arriscaríamos mesmo a dizer que, desde o nascimento, o discurso da histérica e o discurso do psicanalista, embora distintos, são solidários e, até mesmo, aliados.

A história da íntima relação entre os feminismos e a psicanálise, entretanto, sempre foi repleta de tensões e mal entendidos. A chamada primeira onda do movimento feminista teve início no final do século XIX e intensificou-se no início do século XX, com a luta pelo voto feminino – as chamadas Sufragistas – e pela igualdade de direitos civis e políticos em relação aos homens. Foi nessa mesma época que Freud escandalizou a sociedade médica de Viena, ao apresentar a tese de que a sexualidade infantil recalcada era a principal causa das neuroses, e que a repressão sexual infringida, sobretudo às mulheres, era a grande responsável pelos sintomas histéricos. Ainda que alinhada à concepção universalista do ser humano no que diz respeito à relação com a linguagem e a cultura – e, portanto, no plano dos direitos –, a psicanálise nunca deixou de questionar a diferença em relação à sexualidade. O parâmetro fálico para essa diferença, e seus desdobramentos problemáticos, como a noção de inveja do pênis, sempre causou incômodo, inclusive no próprio interior do movimento psicanalítico, promovendo um debate no qual se destacaram muitas psicanalistas mulheres, tais como Helene Duetsch, Josine Müller, Karen Horney e Melanie Klein, dentre outras. Isso sem mencionar a importância, para Freud, da interlocução com Lou Andreas-Salomé. Lembremos também do primeiro caso clínico da psicanálise, Anna O., cuja verdadeira identidade é Bertha Pappenhein – protagonista do movimento judeu feminista – que cuidava de crianças órfãs filhas de mães solteiras rejeitadas por suas famílias, e prostitutas. 

 


Bertha Pappenheim, 1882. Foto: Arquivo do Sanatorium Bellevue, Kreuzlingen, Alemanha.

 

Muito além da inveja do pênis, entretanto, a psicanálise sustenta posições fundamentais para pensar o que é uma mulher: sua experiência particular com o narcisismo e a imagem, a relação ambígua e devastadora com a mãe, a irredutibilidade de sua realização na maternidade e a consequente ambivalência no seu modo específico de amar e querer ser amada, a íntima relação de suas fantasias com a bissexualidade, dentre outras.

Mas foi Jacques Lacan quem mais avançou em relação à pergunta deixada de herança por Freud e os questionamentos de suas contemporâneas. Curiosamente, esses avanços correspondem à chamada segunda onda do feminismo, iniciado em meados dos anos 50, e que tem como fundamento as questões relativas à sexualidade, ou melhor, a opressão sofrida pelas mulheres a partir do sexual. Entre a primeira e a segunda onda, entretanto, ocorre um acontecimento chamado O segundo sexo, livro publicado por Simone de Beauvoir em 1949 e que constituiu, nas palavras de Julia Kristeva, uma verdadeira revolução antropológica, marcando um antes e depois para o movimento feminista, a partir da fórmula radicalmente antibiologizante: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, bem como a inclusão da intimidade na cena pública, oferecendo à primeira uma irreversível relevância política. O ponto obscuro de Beauvoir, entretanto, como aponta a própria Kristeva, é a redução da diferença homem/mulher a uma disparidade de poder a ser eliminada em prol de uma igualdade absoluta, tendo como uma das consequências mais problemáticas a negação da maternidade como uma das vias possíveis para a manifestação do feminino, como indicava Freud.

 


Simone de Beauvoir | Reprodução

 

Seja como for, é notória a presença da extensa pauta levantada por Beauvoir no próprio ensino de Lacan, assim como a influência das feministas de maio de 68 que frequentavam seu divã em suas elaborações mais radicais no que tange a sexualidade feminina, mais especificamente sua formulação a respeito de um gozo propriamente feminino, mais além do gozo fálico. O paradoxo desse gozo, entretanto, é que ele recusa a totalidade universalizante do falo, desta forma, deixa aberta a pergunta a respeito da possibilidade de um coletivo de mulheres.

Dando continuidade a essa relação de tensa intimidade entre a psicanálise e os feminismos, cabe à nossa geração aprofundar e avançar o debate com a terceira onda do feminismo e suas dissidências contemporâneas, notadamente a partir do trabalho de Judith Butler nos anos 90 a respeito da crítica do binarismo de gênero e de Beatriz Preciado nos anos 2000 propondo a eliminação da divisão dos sexos. Em que pese a constatação cotidiana a partir da experiência do divã de que os modos de gozo são sempre singulares, e de que, parafraseando Lacan, o ser sexuado só se autoriza por si mesmo, seria importante nos perguntarmos quais as consequências para o movimento feminista, e para as mulheres, da eliminação da diferença. Dessa vez, não mais pela via do constrangimento das especificidades biológicas do corpo feminino ao plano do direito universal, mas pelo imperativo pós-moderno de pulverização e indeterminação absoluta.

Nesse contexto, sustentar o nome mulher, ao conjunto aberto e singular de corpos “não-todos” fálicos parece ser uma posição feminista urgente a ser sustentada a partir da psicanálise. Afinal, se a mulher não existe, ça n’empêche pas d’exister! 

 

*Ana Laura Prates é psicanalista e escritora. Membro a Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Doutora pela USP, Pós-doutora pela UERJ e Pesquisadora do LABERURB/UNICAMP. É autora, dentre outros, de Feminilidade e experiência psicanalítica (3ª edição). Coordenadora da coleção Heresia Lacaniana da Editora Larvatus Prodeo e colunista do Jornal GGN.

 

Veja também:

Bate-papo sobre o livro Beauvoir presente | No livro, a psicanalista e escritora Julia Kristeva discute os reflexos da obra e do pensamento de Simone de Beauvoir para as gerações seguintes, assim como sua atualidade frente às pautas do feminismo hoje.
- 07/03. Sáb, às 14h. Sesc Santos. Com a professora de filosofia contemporânea Izilda Johanson e a drag queen Rita Von Hunt.
- 11/03. Qua, às 19h30. Centro de Pesquisa e Formação Sesc São Paulo. Grátis. Com a psicanalista Ana Laura Pacheco e a drag queen Rita Von Hunt.
 

Nós tantas outras | A força coletiva das mulheres e como elas transformam a vida de suas comunidades é a pauta da segunda edição do Encontro Internacional Nós Tantas Outras. De 04 a 07 de março de 2020. em cinco unidades do Sesc São Paulo. Inscreva-se. Grátis

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