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postado em 11/05/2020

Utopia para caminhar

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Em tempos de isolamento social, é importante questionar qual tipo de sociedade queremos nos tornar a partir da pandemia de Covid-19


É consenso entre pensadores contemporâneos que não seremos mais os mesmos após a pandemia de Covid-19. A necessidade de repensar os padrões sociais, muitos deles falidos, mostrou-se urgente. Alguns dos novos comportamentos adotados são resultados da aceleração de tendências já previstas, como a expansão do trabalho remoto. Outros, como o senso de comunidade e as responsabilidades política, social e ambiental, são aguçados à medida que a natureza nos relembra o seu poder inexorável e que os líderes mostram como lidam com a maior crise desde a 2ª Guerra Mundial.

A regeneração do meio ambiente durante o confinamento de mais da metade da população mundial é somente uma das tantas lições que podem nos inspirar a construir um mundo mais justo, harmônico e sustentável, habitável para as futuras gerações. Para refletir como essas aspirações podem ser esboçadas a partir de agora, indicamos alguns autores que abordaram em suas obras – lançadas nesta última década – diferentes recortes sobre o tema.

Em Utopia: a história de uma ideia (2013), o professor e pesquisador de história do pensamento político da Royal Holloway (Universidade de Londres), Gregory Claeys, aborda a idealização de uma sociedade perfeita ao longo dos séculos. O autor discute como a busca utópica de filósofos, sociólogos, arquitetos, artistas, entre outros, ajudaram a criar os modelos sociais na história, literatura, arquitetura, arte, política e religião. Nesse livro altamente ilustrado, o leitor é conduzido por uma trajetória que parte da Era Clássica e os seus mitos da criação, passando pelas descobertas de novos mundos, até as viagens espaciais e a ficção científica moderna – considerada o maior subgênero do utopismo.

Como resultado da modernização, Claeys ressalta o colapso da comunidade e as proposições de reconstrução com base em princípios mais conservadores ou liberais: “Se utopias são comunidades imaginadas, elas especificamente são comunidades imaginárias mais iguais: a diferença imposta pelo luxo mostrou-se o maior inimigo da utopia ao longo dos tempos. Avaliações recentes sugerem que a igualdade é um fator-chave para se produzir maior satisfação na sociedade”.

Já em outra parte do livro, ele ressalta que, “neste exato momento, em muitas sociedades desenvolvidas, a simples fé no ‘crescimento’ e no progresso do mercado livre – como se os recursos e a população pudessem se expandir infinitamente – também começou a declinar. No final do século 20, o espectro da catástrofe ecológica cada vez mais substituiu o totalitarismo como distopia preferida. A principal utopia concreta dos últimos dois séculos, os Estados Unidos, agora enfrenta um sério declínio econômico e político".

Essa busca de respostas para o destino da humanidade é também o foco do livro O novo espírito utópico, que homenageia os 500 anos do clássico Utopia, de Thomas Morus, completados em 2015. Nono livro da série Mutações, organizada por Adauto Novaes, é fruto de um ciclo de debates que relaciona as propostas utópicas da humanidade com as novas perspectivas criadas pelas revoluções tecnocientíficas e biotecnológicas, visando a “criação de um novo homem que passaria a habitar o admirável mundo novo”.


:: trecho do livro


Trecho do livro

Diante das preocupações com uma catástrofe ambiental eminente, o cientista político e ecologista William Ophuls examina em A vingança de Platão: política na era da ecologia (2017) como nos reaproximar da natureza pensando em modos de vida e produção mais sustentáveis para o nosso complexo mundo pós-industrial. Em sua obra, o autor busca prever as transformações políticas e sociais que levarão a uma nova política de direito natural baseada nas realidades da ecologia, da física e da psicologia. E faz isso revisitando também ideias estabelecidas de filósofos clássicos, como Platão e Jean-Jacques Rousseau, sobre moral, ética e a necessidade do conhecimento de si próprio, por exemplo.

“O homem da era industrial utilizou a riqueza descoberta no Novo Mundo e os estoques de hidrocarbonetos fósseis para criar um Titanic antiecológico. Fabricar espreguiçadeiras recicláveis, abastecer as caldeiras com biocombustíveis, instalar guinchos e molinetes híbridos, assim como todas as outras iniciativas para ‘esverdear’ o Titanic fracassarão no final. Em última análise, o navio está condenado pelas leis da termodinâmica e pelos implacáveis limites biológicos e geológicos que começam a aparecer”, escreve ele para explicar o motivo que o levou a escrever esse livro.