Sesc SP

postado em 12/05/2020

Mas quem foi Pio Lourenço?

Fotos extraídas do livro <i>Pio & Mário: diálogos de uma vida inteira</i>
Fotos extraídas do livro Pio & Mário: diálogos de uma vida inteira

      


Há 145 anos nascia o fazendeiro e intelectual autodidata que viria a ser conselheiro e interlocutor de um extenso debate intelectual com Mário de Andrade
 

Muitas são as pessoas que, embora longe de serem figuras públicas ou, em alguns casos, conhecidas apenas dentro de um grupo específico, são fundamentais para a cultura de um país e para seu desenvolvimento. Pio Lourenço Corrêa (1875-1957), nascido há exatos 145 anos, em um outro 12 de maio, foi uma dessas figuras. Ele era casado com Zulmira Moraes Rocha. Até aí, ok. E ela era prima de Mário de Andrade (1893-1945), o modernista que viria a deixar um legado cultural incontestável ao Brasil do século 20.

Mas Pio e Mário não eram “primos” apenas, ou “tio”, como o segundo costumava se referir ao marido de Zulmira. Pio foi confidente do poeta e, principalmente, um tipo de mentor intelectual, com quem Mário conversava sobre áreas diversas, como estudos linguísticos, música, fauna, flora e folclore e a quem ele confiava seus textos antes de serem publicados. A Chácara Sapucaia, em Araraquara, propriedade e morada exclusiva de Pio – que também tinha a Fazenda São Francisco –, era o refúgio recorrente de Mário. E foi lá, inclusive, que o poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta e fotógrafo escreveu aquela que é a sua obra mais conhecida: Macunaíma.

Fisicamente, Pio e Mário eram bem diferentes e em temperamento também, embora, claro, tivessem suas semelhanças. Mário era conciliador, sensível, aberto a tudo o que era novo; Pio era conservador, extremamente autoritário e metódico. Ambos se correspondiam muito, resultando na maior e mais duradoura reunião epistolográfica de Mário: foram mais de 200 cartas trocadas entre1917 a 1945. O conjunto desse rico material foi reunido e publicado há 11 anos pelas Edições Sesc São Paulo em parceria com a editora Ouro Sobre Azul. Com o nome de Pio & Mário: diálogos de uma vida inteira, trata-se de um livro revelador, afetivo, minucioso e necessário para se entender o pensamento e sentimentos do escritor e a importância do fazendeiro e intelectual autodidata em sua vida.

Pio Lourenço, por uma série de fatores, não pôde avançar nos estudos como pretendia. Isso, contudo, não impediu sua arrebatadora paixão pela leitura e o estudo por conta própria de tudo aquilo que o interessava. Na enorme biblioteca que formou, havia exemplares que versavam sobre zoologia, linguística e inúmeras outras áreas. Além disso, falava com perfeição quatro idiomas, além do português. Mas sua maior dedicação na área da pesquisa foi provar que a palavra Araraquara significava “morada do Sol” e não “cova das araras”. Para cumprir o seu feito, mergulhou na linguística, na história e na etnologia, resultando na Monografia da palavra Araraquara (1936), transformada em livro um ano depois.

Comerciante e bancário por um curto período, Pio se dedicou com exclusividade à administração da fazenda depois de meados da década de 1910 e lá morou até o fim de sua vida. Foi dessas pessoas notáveis, desconhecidas do grande público, mas que deixou uma importante marca.

 


Nesta foto, Zulmira e Pio na frente da casa que moravam na chácara Sapucaia, refúgio de Mário de Andrade e onde ele escreveu Macunaíma; acima, Pio fotografado por Mário, em 1927

Produtos relacionados