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postado em 19/05/2020

É possível perdoar?

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Livro da filósofa espanhola Amelia Valcárcel esmiúça nossa relação com o perdão, sentimento tão caro em época de tantos conflitos ideológicos e pessoais


Quando a edição brasileira de A memória, a justiça e o perdão foi lançada, em 2014, o Brasil estava em um ano conturbado de eleições presidenciais e, justamente por isso, observava o crescimento exponencial da polarização política. Como reflexo, inúmeras foram as pessoas que entraram em atritos ideológicos e romperam relações com colegas de trabalho, amigos e familiares.

Agora, seis anos depois, o livro da filósofa espanhola Amelia Valcárcel permanece contundente e necessário. Além da polarização gritante e permanente, também enfrentamos um momento delicado de isolamento social, como medida de amenizar a expansão da pandemia de Covid-19. Assim, estando uma ampla parcela da sociedade em sua casa, a convivência por um longo tempo com aqueles que dividem o mesmo lar também vem provocando para alguns um desconforto, reativando mágoas ou sentimentos conflituosos.

O que Valcarél faz em A memória, a justiça e o perdão é justamente investigar a fundo o perdão. Afinal, é possível perdoar? Como esse sentimento pode ser esmiuçado? Em nove capítulos, escritos de maneira clara e atraente, a autora avança em variadas áreas do conhecimento humanístico, trazendo informações, conceitos, argumentos e ideias, relevantes para a abrangência das reflexões. Em determinada parte, ela escreve que “em geral, nos contextos arcaico e clássico, perdoar está perto da vilania. Entende-se que um particular perdoe, embora exista a possibilidade da clemência para quem, tendo em vista um resultado coletivo e maior, pode tê-la”.

Professora de Filosofia Moral e Política na Universidade Nacional de Educação a Distância (UNED) de Madri, a pensadora produziu uma obra atemporal e que, em suas palavras, “tem a ver, sobretudo, com a memória. A memória humana, a única que conhecemos”. Assim, no capítulo que se dedica a mostrar a relação do perdoar com a memória, Valcarél escreve: “Duas questões devem ser postas para mostrar como a instrução de esquecer é bastante complexa. Uma, que não é uma instrução fácil de seguir: esquecer as coisas que conduzem à tristeza não é simples; se o fosse, a própria afecção não teria por que existir. A vontade da pessoa pode ser mais frouxa do que o decalque de sua memória naquilo que se representa”. E completa: “Ao dizer ‘esqueço isso’, não esquecemos. Só podemos estar certos de que esquecemos quando nos esquecemos de esquecer”.

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