Sesc SP

postado em 11/06/2020

Adeus a Carlos Moreira

Vão livre do Masp, em foto da década de 1970
Vão livre do Masp, em foto da década de 1970

      


Um dos mais importantes nomes da fotografia nacional, artista faleceu aos 83 anos, deixando um acervo com mais de 700 mil imagens


Certa vez, em uma entrevista, o fotógrafo Carlos Moreira declarou que o dia em que ele se voltasse ao próprio arquivo, seria um fotógrafo morto, já que estava sempre em busca do novo. Justamente por isso, sua morte nesta última quinta-feira, dia 11, aos 83 anos, é apenas física. Seu trabalho continua a revelar algo sempre inédito, ainda que possa ter sido visto muitas vezes. O artista, vitimado por complicações em decorrência de um câncer, começou a trajetória como fotógrafo no fatídico 1964, primeiro ano da ditadura militar e também o ano em que se formou como economista pela Faap, embora jamais tenha exercido a profissão.

Em vez disso, buscou com a câmera em mãos revelar a cidade, quase sempre São Paulo, mostrar a intimidade, as relações interpessoais no espaço da metrópole, revelar a si mesmo, ainda que oculto, em cada paisagem, em cada recorte. Fez parte do grupo Novo Ângulo, foi professor de jornalismo fotográfico na USP e, depois, a partir dos anos 1990, no M2 Studio, estúdio de fotografia fundado por ele e pela também fotógrafa e grande amiga, Regina Martins. Ao todo, passou cinco décadas fotografando diariamente, somando mais de 700 mil imagens entre analógicas e digitais.
 


Praça Ramos de Azevedo nos anos 1970


Em 2014, as Edições Sesc, em coedição com a editora Tempo D´Imagem, lançaram Carlos Moreira – São Paulo, reunindo imagens da capital paulista. A organização da obra, que marcou uma exposição de seu trabalho no Sesc Bom Retiro, ficou a cargo de Rosely Nakagawa, curadora, gestora e amiga de longa data. Para homenagear esse que é um dos maiores nomes da fotografia nacional, publicamos a seguir o texto de apresentação do livro, assinado por Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do Sesc São Paulo.
 



São Paulo é o mundo. Um território capaz de englobar países inteiros, milhares de habitantes de diferentes proveniências, uma cultura local mesclada a influências regionais e estrangeiras, um mosaico jamais acabado, que se transforma dia a dia. Em São Paulo, dificilmente se encontrará um paulistano da gema, cujas origens não levem a lugares distantes e cuja identidade não tenha encontrado na cidade uma boa acolhida, a despeito do sentimento de urgência a pautar a vida por aqui.

Em São Paulo não se vive tranquilo, mas em tensão contínua, sem que esta seja necessariamente considerada negativa. Falamos de uma tensão que move o paulistano, de nascimento ou de coração, a não desistir, a insistir sempre, a suportar pressões e transpor desafios, a estar atento e ser paciente, mantendo alerta seu olhar diante do futuro.

Se essa descrição é capaz de traçar um brevíssimo retrato da São Paulo neste século XXI, há que se ressaltar que a consolidação desses aspectos se deu ao longo dos anos 1900, sem que se assinalasse estagnação no processo de desenvolvimento urbano, cada vez mais complexo e frequentemente desprovido de planejamento, vivido pela cidade.

 


Floricultura na Avenida Angélica, em 2010


No entanto, observando-se a natureza desse processo, comumente veloz e hostil, percebe-se o comportamento não raro autômato do paulistano, o que evidencia uma aparente indiferença no trato estabelecido por ele com o cotidiano, deixando-lhe escapar a poesia. Mas que poesia é essa, que se edifica sob o concreto, resiste à violência e às dificuldades? Trata-se de uma poesia urbana que foge à obviedade, prima pela nuance e exige de seu observador um olhar obstinado, em busca da humanidade presente na aridez, na astúcia, no abandono da cidade e seus habitantes.

Nessa perspectiva, encontra-se a fotografia de Carlos Moreira, a reunir o cuidado peculiar ao registro documental e o olhar aguçado de um artista que encontra em São Paulo mais do que inspiração, mas sua possibilidade de (re)inventar um mundo sensível e afetuoso que sobrevive em meio à geografia paulistana.

Influenciado por Henri Cartier-Bresson, Carlos Moreira fotografou e permanece fotografando São Paulo. Nas ruas da capital, o artista congelou instantes que se perderam na vida de pessoas anônimas, cuja experiência desapareceria com o passar do tempo e a desimportância atribuída às pequenas atividades do cotidiano. Este livro reúne imagens produzidas entre os anos 1960 e 2013.
 


Represa de Guarapiranga na década de 1980


Para tanto, Carlos Moreira jamais negligenciou sua curiosidade pela vida ordinária, consolidando, por meio dela, o profundo conhecimento que tinha das ruas e praças, assim como dos rostos que transitavam na cidade. Muito mais do que isso, é o amor pela capital que move o artista, certo de que a discrição, associada ao exercício contínuo da transparência, permitiria a ele captar momentos fluidos, quase imperceptíveis para olhares menos habituados a ver poesia no que não é extraordinário.

Nada há de banal nas imagens de Carlos Moreira, que captura a realidade por meio da simetria, das possibilidades existentes entre o preto e o branco, como também do uso da cor, do exercício perspicaz de composição, sofisticado a cada foto produzida.

Ao publicar o livro de Carlos Moreira sobre a capital paulista, o Sesc deseja fortalecer os vínculos entre os paulistanos e sua cidade, reestabelecendo entre eles o apreço, o cuidado, a possibilidade de se surpreender e alegrar-se, muitas vezes perdidos por aqueles que aqui permanecem sem se desviar de seus caminhos habituais, deixando de abrir suas janelas, temendo perder-se e, por fim, encontrar-se em meio ao desconhecido que chamamos São Paulo.
 


Avenida 9 de Julho, em 1994

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