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postado em 20/08/2020

A disputa pelas redes durante a pandemia

Reprodução | Pxhere
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Entre fake news, discursos endurecidos e embates narrativos, vozes há muito silenciadas aprendem a se mobilizar

Por Sergio Amadeu da Silveira*

 

A internet ampliou as possibilidades de falar, mas não as de ser ouvido. A comunicação em redes distribuídas não anulou a força do poder econômico, muito menos das técnicas de atração de atenções, de marketing e de modulação. Assim, as redes digitais permitiram que a extrema direita mundial, financiada por bilionários, declarasse guerra à razão, a mesma que ajudou a consolidar a ciência e o capitalismo. Mas os ataques reacionários não ocorreram porque a racionalidade fosse insuficiente para preservar o planeta, para explicar nossos temores e esperanças, para assegurar o respeito às diferenças. Foram desfechados exatamente porque a autodenominada direita alternativa passou a afirmar que a razão teria conduzido as sociedades à ideia de igualdade, ao agigantamento do Estado e à limitação do capital. Portanto, a razão e a democracia estariam destruindo a liberdade de iniciativa. Assim, foi declarada guerra à análise baseada em fatos, à ciência e à razão. 

A onda de desinformação que inunda a internet não tem origem em quem acredita no que divulga. Nasceu com a estratégia de dissimulação da realidade, de inspiração militar. O fundamental é destruir os juízos baseados em fatos. “Cloroquina salva!”. “O holocausto não existiu!”. “O Greenpeace jogou óleo no mar!”. “Quem compôs as música dos Beatles foi Theodor Adorno!”. “A globalização é uma armação dos marxistas”. A estratégia é criar confusão, disparar versões contraditórias, suspender a realidade e vencer a guerra, utilizando todos os meios, não importa quais. Assim, os inimigos são os artistas e sua sensibilidade crítica, os cientistas e suas pesquisas baseadas na empiria, os professores e sua insistência no respeito à história, as feministas porque “querem ocupar o lugar sagrado (sic!) dos chefes de família”, o movimento negro por “trazer a discórdia para nosso país tão harmônico”. Enfim, até George Soros se tornou comunista.

Entretanto, durante a pandemia, em uma situação de isolamento social, quem poderia imaginar que as redes digitais seriam utilizadas para articular os movimentos em defesa da democracia? Nos mesmos dutos do WhatsApp, em que redes criminosas de milicianos distribuem notícias falsas, as torcidas organizadas agendaram as manifestações antifascistas. As mesmas redes que permitiram que negacionistas convocassem as “carreatas da morte” contra o isolamento social foram utilizadas para convocar manifestações em defesa da vida e contra o racismo. Quem imaginaria a ampla dimensão mundial que as manifestações antirracistas adquiriram nas redes sociais online? Quantas vezes vimos subir a hashtag #BlackLivesMatter?
 

Reprodução | Clay Banks para Unsplash
 

A ambivalência é uma característica da internet. As tecnologias da comunicação em rede não servem apenas ao poder do dinheiro. As vantagens do capital podem ser enfrentadas pela ação dos movimentos. Na pandemia, um grande exemplo de utilização das redes na luta pelos direitos básicos ocorreu na paralisação dos entregadores e trabalhadores de aplicativos, o “breque dos apps”. Nomeados pelos neoliberais de “empreendedores”, os entregadores das plataformas Uber Eats, iFood, Rappi, entre outras, não têm direitos trabalhistas, seguro saúde, muito menos uma remuneração adequada. Constituem o novo precariado. Muitos analistas diziam que sua organização seria impossível. Que o capitalismo tinha extirpado da nova dinâmica de trabalho o fantasma do sindicalismo. Quem poderia prever que em meio ao isolamento, o precariado iria se levantar e realizar manifestações com reivindicações que sensibilizariam boa parte da sociedade? WhatsApp, Telegram, Instagram, Twitter, Facebook, YouTube, TikTok foram fartamente utilizados para convocar e disseminar informações sobre a manifestação e luta dos entregadores por direitos.
 

Reprodução | Pixabay
 

Assim, é perceptível o avanço consistente das mobilizações democráticas nas redes. Uma das muitas manifestações online de combate ao totalitarismo durante a pandemia ocorreu na onda de apoio ao movimento antifascista. Era difícil navegar no Instagram sem esbarrar em emblemas tais como “hackers antifascistas” e até “leitores de Harry Potter Antifas”. Curiosamente, programadores que aderiram ao movimento antifascista criaram geradores automáticos de bandeiras antifas que eram facilmente acessados pela web. Obviamente, as ações na internet pela democracia e por direitos só terão eficácia se gerarem efeitos concretos fora das redes. Mas essa dicotomia dentro e fora da rede parece fazer cada vez menos sentido. Veja, por exemplo, a iniciativa Sleeping Giants, que pressionam as empresas a não anunciarem em sites, canais e perfis que reproduzem o discurso de ódio e notícias falsas. Muitas empresas fazem publicidade em redes programáticas, as quais colocam anúncios em tempo real onde possíveis compradores estão visitando. O sistema é operado automaticamente por algoritmos. Assim, os anúncios de empresas idôneas estariam remunerando pessoas que disseminam desinformação e notícias falsas. Essa campanha já está gerando resultados e reduzindo parte do financiamento das chamadas “fake news”.

Nesse sentido, observamos que os movimentos sociais, novos, novíssimos e tradicionais utilizaram as redes digitais para articularem ações de solidariedade e de combate à covid-19. Enquanto o governo federal abandonou à população, os movimentos, coletivos e universidades realizaram importantes ações de defesa da vida. O mapa das práticas colaborativas dos movimentos sociais registrou mais de 2000 ações de solidariedade e de combate à covid-19 (mapacolaborativo.org,br) desde abril de 2020. Ele mostra que o entorpecimento que abate muitos intelectuais não paralisou os coletivos, os ativistas e muitas lideranças dos movimentos que utilizam as redes para organizar a luta e a solidariedade nos territórios. Durante a pandemia, a defesa da democracia, da cultura, da ciência e da vida avançou mais do que as forças fundamentalistas.

 

*Sérgio Amadeu da Silveira é sociólogo, defensor e divulgador do Software Livre e da Inclusão Digital no Brasil. Foi um dos grandes implementadores dos Telecentros na América Latina e presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação. É autor do livro Tudo sobre tod@s e organizador da Coleção democracia digital, publicados pelas Edições Sesc.

 

 

Veja também:

:: Tudo sobre tod@s | Uma abordagem das implicações entre o crescimento das redes digitais e o estabelecimento de um mercado de coleta e venda de dados pessoais que avança nesses ambientes

:: Coleção democracia digital | Publicados exclusivamente em e-book, cinco títulos discutem as mudanças que os aparatos digitais trouxeram para as democracias

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