Sesc SP

postado em 09/11/2020

No embalo de Jorge Ben Jor

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Terceiro livro da coleção Discos da Música Brasileira, África Brasil: um dia Jorge Ben voou para toda gente ver conta a história do álbum que foi o divisor de águas na carreira do músico carioca

 

Quando lançou seu primeiro disco, em 1963, Jorge Ben Jor (na época, assinava apenas Jorge Ben) foi acompanhado pela banda de jazz Meirelles Copa. Dos músicos que o compositor buscou para tocarem junto com ele, aqueles eram os únicos que tinham compreendido de fato sua batida e seu suingue. Autodidata, Jorge criou uma maneira particular para dominar as cordas do violão e com ele fez incríveis peripécias, trazendo para a música brasileira um ar que de tão fresco não podia ser definido. Como o próprio declarou certa vez, “é um samba, mas não é”. Treze anos depois, já conceituado, o artista carioca se reinventou mais uma vez. Trocou o violão acústico pela guitarra e, misturando ritmos afro-brasileiros com soul e funk norte-americanos, lançou o álbum que é considerado um dos maiores divisores de água de sua carreira e da música nacional: África Brasil. Entre as faixas desse álbum está um de seus principais sucessos, a música Xica da Silva.

 

 

É sobre esse disco mítico que a jornalista Kamille Viola escreveu o livro África Brasil: um dia Jorge Ben voou para toda gente ver, terceiro da coleção Discos da Música Brasileira, organizado pelo crítico Lauro Lisboa Garcia. E é ela também que nos conta mais sobre a publicação na entrevista que pode ser conferida a seguir.


África Brasil é um divisor de águas em muitos sentidos na trajetória de Jorge Ben Jor. Como você define o álbum e a importância dele como referência para outros criadores?
O África Brasil é um marco porque o Jorge muda completamente a sonoridade dele nesse disco. Ele já vinha fazendo mudanças, já misturava o samba com música norte-americana, mas nesse álbum ele cria uma sonoridade completamente única. Tem uma guitarra com um riff marcante, de repente se escuta uma cuíca, uma conga cubana e os metais característicos do funk e do soul norte-americanos. No sentido político, ele colocou três personagens africanos no disco, que estão nas músicas Ponta de lança africano (Umbabarauma), Xica da Silva e África Brasil (Zumbi), a qual ele regrava, fazendo uma versão muito poderosa. E a gente vê no livro como artistas negros de gerações mais novas, os quais eu entrevistei, foram impactados por esse disco. O Mano Brown fala que Xica da Silva é, provavelmente, a música mais bonita do Brasil. O BNegão diz que Xica da Silva foi a primeira música que ele escutou falando sobre uma personagem preta e aquilo o impactou. O Marcelo D2 fala que essa versão de Zumbi, intitulada África Brasil (Zumbi) virou um hino. E o Lúcio Maia, da Nação Zumbi, conta que é impressionante como Jorge se reinventou nesse disco. Penso que esse álbum tem toda a importância, está conectado com os interesses dos músicos negros da época, que buscavam essa conexão com a música norte-americana, mas tem a assinatura de Jorge Ben, que, por si só, traz na bagagem suas próprias referências, como ter tido contato com músicas de terreiro, de frequentar jongo, de ter um pai sambista, do próprio Jorge tocar em bloco de Carnaval desde pequeno. Não à toa, África Brasil está em listas de melhores do mundo.

Em algumas entrevistas de Jorge nos anos 1970, ele reclama do resultado final de África Brasil, tanto técnico quanto estético, pois o estúdio de gravação seria mais precário e ele não teria gostado da capa do disco. Ao ler isso, me parece que ele não tinha noção da importância que esse álbum teria. É isso mesmo?
Não é que o Jorge não tinha noção da importância do álbum. Acontece que ele vinha de dois álbuns para os quais ele tinha escolhido a capa, participado de todo o processo. E, de repente, esse álbum foi lançado e ele nem estava no Brasil, então tem a ver com essa coisa do artista querer ter controle das etapas de sua obra. Mas isso já passou, com o tempo ele aceitou. Mas não sei se ele tinha noção da importância que esse disco teria, mas sei que ele fez o seu melhor e sabia que se tratava de uma coisa nova. O Marco Mazzola [produtor musical] conta no livro que o Jorge disse a ele na época que queria fazer coisas diferentes no África Brasil, chamar um monte de músicos. Mas saber se vai ficar para a história, não tem como se prever nunca. O fato é que estava no auge de sua carreira ali.

 

 

Pensando nas novas gerações, qual é, em sua opinião, a importância principal dos mais jovens embarcarem no som de Jorge Ben Jor?
Acho que os mais jovens, quando tiverem um contato mais profundo com a obra do Jorge, primeiro poderão ver crônicas de vários momentos do Brasil. Vejo que o Jorge faz uma coisa muito bonita que é contar um outro lado da história do Brasil. Porque a cultura negra, a cultura de origem africana foi muito apagada da nossa história ou restrita à escravidão, e o Jorge faz o resgate ao falar de personagens negros históricos como o Zumbi e Xica da Silva. Além disso, os jovens podem descobrir essa sonoridade única que ele criou. Ele tem uma influência da música norte-americana e mistura vários estilos musicais brasileiros, como samba e maracatu, baião, forró e jongo. Enfim, é uma criatividade absurda e tem todo um mundo para as pessoas descobrirem, ainda mais porque ele foi  se reinventando, se recriando ao longo da carreira.

E é possível defini-lo?
Definir Jorge Ben? Não sei, é um grande artista que criou um trabalho único, que fez músicas surpreendentes, marcantes, admiradas no mundo inteiro. No trato pessoal, eu não tive e não tenho um contato aprofundado com ele, mas no pouco que pude ter, ele é uma pessoa doce, muito grata quando as pessoas são fãs e conhecem a sua obra, é um cara que sabe de sua grandeza, mas não é arrogante por isso. Ele também é superexigente com o seu trabalho, está sempre em busca de fazer o melhor, de se aperfeiçoar. Ele regrava as próprias músicas, muda o nome, letra, melodia, ele vai sempre retrabalhando. Um dia assisti a uma entrevista na qual Jorge, ao falar sobre o B. B. King, comentou que era mágico vê-lo tocando guitarra, pois parecia que ele estava sempre procurando uma nota e nunca encontrava. Achei isso bonito e sinto que tem a ver com a obra do Jorge.