Sesc SP

postado em 16/03/2017

Box Villa-Lobos - Quarteto Bessler-Reis e Quarteto Amazônia

capa villa-lobos

O Selo Sesc lança o box Villa-Lobos com a integral dos 17 quartetos de cordas do compositor brasileiro, interpretados pelos quartetos Bessler-Reis e Amazônia. Você pode conferir um pouco da obra logo abaixo e, enquanto aprecia, mergulhar no universo da música de câmara, de Villa-Lobos, e da procura pelo Brasil na beleza dos sons. Boa viagem!

 

 

O quarteto mágico

 

Se para você a lembrança mais corriqueira de um quarteto se refere à copa do mundo de 2006, não se aflija: este texto deve lhe servir bem. Não por acaso, se dizia à época, que os brasileiros - pelo menos na copa das confederações - jogavam por música: quatro peças importantes davam o tom do ataque daquele time. Na música de câmara, não é diferente.
 

Praticada desde os tempos em que a esfera privada tomou protagonismo da história, a música de câmara diz respeito, em linhas gerais e em contraponto à música sinfônica, à música feita para espaços menores, com um número reduzido e específico de instrumentos. Sem internet, Youtube, televisão ou rádio, as pessoas visitavam a casa dos músicos ou, dependendo de quão rico você era, havia um músico na sua casa provendo as mais belas harmonias para seu deleite. No período barroco, ficou famosa a peregrinação que os amantes de música faziam à casa de J.S. Bach que, junto de seus prodigiosos filhos, realizava recitais que ecoaram por toda a Alemanha do século XVIII.
 

Dois violinos, uma viola e um violoncelo. Dando muita sorte, você tem Joseph Haydn como primeiro violino, Karl Ditters von Dittersdorf ao segundo violino, Wolfgang Amadeus Mozart à viola e Johann Baptist Vanhall no violoncello. Essa formação, capitaneada por Haydn e com base na suíte barroca, consagrou uma forma de desenvolvimento da música para quarteto de cordas: quatro movimentos, um rápido, um lento, um minueto e trio e um final rápido. Por conta disso, Haydn é chamado de "pai do quarteto de cordas".
 

Essa forma adquire prestígio exultante quando compositores como Mozart e Beethoven compõem suas versões e séries de quartetos.
 

Mesmo não sabendo o que é um minueto e um trio, você sabe da importânca de Mozart e Beethoven (e agora de Haydn) para a música. Não foi diferente com um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.

 

 

Villa-Lobos

 

Heitor Villa-Lobos era um mentiroso: nunca disse com clareza a sua data de nascimento. Carioca, filho de Raul e Noêmia, teve com o pai, músico amador, a introdução ao estudo do violoncelo e da clarineta, logo abandonada em favor das cordas. Quando adolescente, Villa fez 4 viagens pelo Brasil enquanto músico de salão (Bahia, Espírito Santo e Pernambuco, para os estados do sul, para São Paulo, Goiás e Mato Grosso, e para os estados do norte por 3 anos). Essas viagens virariam anedotas na sua boca falastrona, além de manancial para a criação de uma música "genuinamente brasileira".
 

Convidado por Ronald Carvalho e Graça Aranha, participa da Semana de 22, ficando mais conhecido do público paulista que torceu o nariz para suas composições um tanto debussyanas. Depois disso, vai à Paris e fica por lá um ano sem grandes sobressaltos, a não ser pelo contato com a música de Igor Stravinsky. Este evento, somado à proximidade com os intelectuais da Semana de 22, fez brotar em Villa a necessidade de criar música brasileira de fato. Tal ímpeto, gerou frutos na sua segunda passagem por Paris: entre 1927 e 1929 foram sete concertos dedicados à sua obra, regidos pelo autor.

 


 

Esta década marca uma aproximação da Europa em relação à América Latina: poetas, pintores e compositores latinos e suas abordagens distintas para cada uma das linguagens eram bem recebidos na capital francesa, à época, capital do mundo.
 

"O que mais agradava, o que era realmente novo para a Europa, era o ritmo africano manipulado pelos descendentes de espanhóis, índios e portugueses. Não por acaso este foi o período áureo da música espanhola, ditando moda entre os artistas: Stranvinsky compõe um Tango e Maurice Ravel, um Bolero." - Flávia Toni.
 

A volta ao Brasil vai levar Villa à São Paulo numa época complexa: 1929 e a campanha de Júlio Prestes, para o qual Villa compôs um hino que, mais tarde, com pequenas alterações na letra, transmutou-se em hino da vitória de Getúlio Vargas! A ligação com Vargas iria culminar na sua nomeação como diretor da Superintendência Musical e Artística do Rio de Janeiro - cargo ocupado até 1943 - e desentendimentos com o outrora admirador, Mário de Andrade.
 

Esta época fica marcada pela Cruzada do Canto Orfeônico e pela elaboração do Guia Prático, com Villa-Lobos baseando a musicalização dos jovens brasileiros na voz como instrumento, se apresentando ufanísticamente para milhares, numa experiência que obteve sucesso, porém razoavelmente contestada com o passar dos anos. Sobre o Villa-Lobos educador, vale muito a pena ver o especial da TV Escola sobre o compositor:

 

 


Seguindo com a história, Villa casa-se pela segunda vez em 1948 e vem a falecer em 17 de novembro de 1958, aos setenta e dois anos, em decorrência de um câncer. Ao longo de sua biografia aqui resumida, o ciclo de Cirandas para Piano, as Bachianas e os Quartetos de Cordas jorraram da cabeça do autor enquanto ia e vinha, às vezes de mão dada com o establishment, noutras levando a linguagem musical brasileira mais à frente. De toda essa produção, os quartetos são frequentes pela vida toda, como se fossem pequenos retratos de quem era Villa-Lobos à época em que foram compostos.

 

Os quartetos de Villa-Lobos

 

De 1915 à 1957, Villa-Lobos compôs 17 quartetos, todos eles reunidos no box que o Selo Sesc lança agora, com interpretações dos quartetos Bessler-Reis e Amazônia. No livreto presente no box, uma aula deliciosa do professor Paulo de Tarso Salles sobre as características de cada uma dessas polaróides que são os quartetos de Villa.
 

Você pode ler o livreto aqui embaixo, mas podemos adiantar que há um grande hiato entre o início do Quarteto no.4, de 1917 e o Quarteto no.5 de 1931, justamente o período que remonta à semana de 22, o reconhecimento de Villa na Europa e seu envolvimento com o projeto nacionalista de Vargas.

 

 

 

A forma sonata para o primeiro movimento, consagrada por Haydn como explicamos no começo do texto é a mais empregada, com exceções como o Quarteto no.6, de 1938, com seis movimentos e o Quarteto no.5, cujo primeiro movimento não é em forma sonata. Esses dois quartetos tem caráter especialmente nacional e apontam a proximidade de Villa-Lobos com os ideários varguistas de unificação do país por uma cultura popular. É interessante apontar que a segunda fase, por assim dizer, dos quartetos (pós-hiato) ocorre paralela às Bachianas, obra celebradíssima do compositor, aproximando o barroco do J.S. Bach da música do Brasil.
 

Os Quartetos Amazônia e Bessler Reis contam com um time afinadíssimo de intérpretes, compostos da seguinte forma, Bessler Reis: Bernardo Bessler, primeiro violino, Michel Bessler, segundo violino, Marie-Christine Springuel, viola e Alceu Reis, violoncelo; Amazônia: Cláudio Cruz, primeiro violino, Igor Sarudiansky, segundo violino, Horácio Schaefer, viola e Alceu Reis, violoncelo. Sim, você não leu errado, a pessoa que interpreta o "instrumento" de Villa-Lobos é a mesma nas duas formações: Alceu Reis, personifica a voz do maestro-compositor enquanto intérprete.
 

Trata-se, por tudo exposto, de um produto de altíssima qualidade e que reafirma a missão do Selo Sesc de construir e dar acesso a um catálogo de música brasileira fundamentado nas premissas de reconhecer e discutir a nossa identidade mestiça e prenhe de criatividade e invenção. Esperamos que tenha uma boa audição!

1. Quarteto Amazônia | Quarteto de Cordas nº 8 (1944) - Allegro

5. Quarteto Amazônia | Quarteto de Cordas nº 9 (1945) - Allegro

9. Quarteto Amazônia | Quarteto de Cordas nº 10 (1946) - Poco animato

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