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postado em 30/11/2017

Airto Moreira - Aluê

Airto Moreira durante as gravações de Aluê. Foto Lynne Earls
Airto Moreira durante as gravações de Aluê. Foto Lynne Earls

Airto Moreira é história viva. Presente em discos que redefiniram as fronteiras da música, como Bitches Brew (1970), de Miles Davis, e eventos fundamentais da música brasileira, como o Quarteto Novo acompanhando Edu Lobo e Marília Medalha em Ponteio, vencedora do III Festival da Música Popular Brasileira, em 1967. 50 anos mais tarde, Airto lança seu primeiro disco gravado em território nacional com uma turnê que passa pelo Sesc 24 de Maio, pelo Sesc Ribeirão Preto e pelo Sesc Registro!
 

Para falar mais sobre o lançamento de Aluê pelo Selo Sesc, Charles Gavin tem a palavra! Divirta-se.

 

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ALUÊ


“Airto Moreira inventou a percussão de luxo, o acabamento, o requinte, o toque final. E foi ele também quem abriu as portas dos estúdios dos Estados Unidos para nós, percussionistas brasileiros. Foi o pioneiro, e muita gente seguiu esse caminho, inclusive eu” – disse-me numa entrevista para O Som do Vinil o também internacional Chico Batera. É interessante e oportuno que essa afirmação tenha vindo espontaneamente de outro grande artista, reconhecendo o que Airto Moreira tem feito por nossa música desde quando saiu do Brasil, em 1967.


Refletindo sobre essa declaração, a primeira lembrança que surge é Bitches Brew (1970), o emblemático álbum de Miles Davis. Em seguida, outros nomes vão surgindo: Stone Flower (1970), de Antônio Carlos Jobim; Prelude (1972), de Eumir Deodato; Return to Forever (1972), de Chick Corea; Borboletta (1974), de Santana; Native Dancer (1974), de Wayne Shorter & Milton Nascimento, e tantos outros. Mas diria que essa é apenas uma das inúmeras faces da força criadora deste gênio da nossa música que por uma série de razões (algumas absurdas) nunca havia gravado um disco solo no Brasil – até agora.

 

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 Capas dos discos com a participação de Airto Moreira

 


Aluê, seu primeiro trabalho após Live in Berkeley, de 2012, foi registrado num estúdio localizado numa fazenda, na paisagem verde do interior de São Paulo. Apoiado e construído com um time de grandes músicos (Carlos Ezequiel, José Neto, Sizão Machado, Vítor Alcântara, Fabio Leandro, Diana Purim e Krishna Booker), Aluê se apresenta como uma revisão inteligente e necessária de grandes momentos da carreira de Airto Moreira, retomando e relendo composições que evocam seu portentoso universo sonoro.


Não se trata apenas de seus ritmos, síncopes, cadências, diálogos, melodias, frases, gritos e texturas – mas também do que sua música disse e continua dizendo nos tempos estranhos em que vivemos, nos quais não podemos mais ignorar os avisos que o planeta envia a cada momento. De várias formas, essa mensagem sempre esteve na música desse catarinense, nascido em 1941 na pequena e charmosa Itaiópolis. A cada audição, Aluê nos traz lembranças, ressignificando experiências e emoções – algo como pegar uma canoa e atirar-se rio abaixo, enfrentando corredeiras rápidas e quedas perigosas, que se alternam com as águas mais calmas e límpidas cobertas por copas de árvores centenárias em meio à Mata Atlântica. É fato que a Mãe Terra sempre esteve presente na obra de Airto, sempre se manifestou nela inspirando seu sound design, sua marca registrada. Coincidência ou não, é resgatada de Natural Feelings (1970), seu primeiro disco solo, a composição que dá nome ao álbum que o Selo Sesc acertadamente lança agora.

 

 


Ao longo da carreira, a sonoridade de Airto Moreira foi se modificando, tornando-se ora mais jazzística, ora mais elétrica, às vezes mais pop, outras mais experimental, mas sempre conectada aos sons da nossa terra, magistralmente interpretados e recriados em shows e gravações: onde quer que estivesse tocando, Airto levava o Brasil junto.


Na verdade, tem sido assim desde os tempos do excepcional Quarteto Novo – quem não se lembra do grupo acompanhando Edu Lobo e Marília Medalha em Ponteio, a canção vitoriosa defendida na final histórica do III Festival da Música Popular Brasileira, em 1967? E quem também não se recorda de seu único LP, lançado no mesmo ano? A composição Misturada (que está em Aluê), assim como as outras faixas do disco, investiu em timbres e arranjos que resultaram numa ambiência, num som de sertão nordestino. Em meio às violas, violões e flautas, a percussão inovadora e extremamente brasileira revelou ao público um artista diferente daquele fenomenal baterista do Sambalanço Trio e do Sambrasa Trio, ícones do samba jazz. Pouco tempo depois, o Quarteto Novo desfez-se e Airto rumou para os Estados Unidos, a fim de reencontrar o amor de sua vida, Flora Purim. Esse foi o passo decisivo para que sua carreira decolasse.

 


Airto enquanto parte da banda de Miles Davis, no mítico show da Ilha de Wight, 1970

 


Airto Moreira participou de inúmeros álbuns e concertos de grandes nomes do jazz, colocando neles sua assinatura artística. Não tardou muito para que sua discografia solo se estabelecesse – trabalhos antológicos foram produzidos, como os clássicos Seeds on the Ground (1971), Free (1972), Fingers (1973), Virgin Land (1974), Identity (1975) e muito outros. Temos ainda os discos I’m Fine, How Are You? (1977) e mais à frente The Sun Is Out (1989), dos quais as faixas I’m Fine, How Are You? e Lua Flora foram respectivamente extraídas e recriadas para Aluê.


Neste disco de 2017 reencontro o grande mestre a que assisti ao vivo pela primeira vez, em outubro de 1994, apresentando-se com Flora Purim a seu lado no clube de jazz londrino Ronnie Scott’s, num show arrebatador em que o público não permitia que saíssem do palco. Foi uma noite que nunca mais esqueci…


Aluê é um trabalho muito bem arquitetado pelo produtor e baterista Carlos Ezequiel, com as faixas registradas ao vivo em um único take. Os cantos – lindos – em dueto com a filha, Diana Purim, mostram a capacidade vocal deste homem de 75 anos. Sua interação com o grupo, formado pelas feras mencionadas, impressiona: soa coesa, energética e desafiadora. As performances têm dinâmicas e arranjos diferentes dentro de cada tema e devem ser apreciadas com calma e concentração, exatamente como costumávamos ouvir discos décadas atrás.


O CD reúne, como dito, peças importantes da obra de Airto Moreira, mas vai além, trazendo três excelentes composições novas: Rosa Negra, Não Sei pra Onde, mas Vai e Guarany. Vibro muito ao constatar que a música que ele faz hoje conserva as mesmas características, o mesmo poder que tinha no início da carreira – o universo sonoro do qual falei está onipresente neste trabalho. Abra as portas da percepção…


Registro aqui nossa gratidão a todos que participaram deste incrível projeto. E claro, o maior agradecimento é para a força da natureza em si: Airto Moreira. Obrigado por tudo, meu amigo. Mas olha só: queremos mais, ok?

Charles Gavin

 

 

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