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postado em 16/02/2018

A Paixão Segundo Catulo

Detalhe do encarte do disco A Paixão segundo Catulo / Selo Sesc. Ilustração: Luiz A. Miele
Detalhe do encarte do disco A Paixão segundo Catulo / Selo Sesc. Ilustração: Luiz A. Miele

São cento e cinquenta e cinco anos do nascimento de um dos maiores poetas da música popular brasileira: Catulo da Paixão Cearense. Cumprindo a missão de preservar e divulgar o nosso manancial infindável de cultura, o Selo Sesc coloca na praça o álbum A Paixão Segundo Catulo, no qual Mário Sève arregimentou novas e consagradas vozes do cancioneiro nacional para fazer jus à poesia de Catulo. No texto abaixo, Zuza Homem de Melo introduz o mestre ao público - aproveite!

 

A Paixão Segundo Catulo

Catulo da Paixão Cearense foi o mais popular letrista brasileiro no início do século XX, embora “incapaz de escrever uma célula melódica que fosse”, segundo Heitor Villa-Lobos. Um certo preconceito do maestro, já que Catulo aprendeu violino e se acompanhava ao violão. Paixão era o sobrenome de seu pai, um ourives cearense que, vivendo em São Luís, acrescentou o adjetivo de sua origem formando o novo nome da família que, ao se transferir para o Rio, propiciou a Catulo tornar-se conhecido no meio musical carioca.

Imaginoso e de uma fertilidade poética incessante, admitiu, com razão, que peças instrumentais da época pudessem ganhar fama se devidamente letradas. Ou seja, Catulo detectou que canções seriam muito mais populares que temas puramente instrumentais, alguns dele tão bem elaborados que estavam como que a pedir uma letra para cair na boca do povo.

 

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A noite - Agosto/1940

 

Catulo se constituiu numa personalidade original e controvertida de grande sucesso na música popular brasileira nos recitais que o consagravam e, sobretudo, através de sua inegável intuição em poetar melodias.

Poetar melodias sintoniza-se com expressões frequentes em seus versos ostentosos, excessivos em metáforas e abundantes em elocuções pernósticas – níveas lágrimas, travor do seu dulçor, odor de resedá, antera da flor, flóreas sendas sempre ovantes ou lenir o seio – espalhadas pelas composições de grandes músicos como João Pernambuco, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Joaquim da Silva Callado e outros que se ouvem neste disco.

Vaidoso como ele só, Catulo é o intrigantes personagem central do CD, a figura de vida própria para enredo de cinema nos seus altos e baixos: ovações consagradoras no Palácio do Catete diante de plateia culta que incluía o presidente da República e, no outro extremo, o trabalho braçal como estivador no cais do porto.

 

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O Jornal (RJ) - Junho/1942

 

Amparadas na maior parte das vezes por arranjos do saxofonista e flautista Mário Sève, o produtor deste trabalho, ouvem-se vozes cuidadosamente escolhidas no cenário da música atual. Joyce Moreno, Leila Pinheiro, Claudio Nucci, Carol Saboya, Lui Coimbra, Rodrigo Maranhão, Alfredo Del-Penho e Mariana Baltar formam o elenco de intérpretes que dão vida às canções representativas da essência da obra de Catulo.

Nesse conjunto destacam-se composições que deram a Catulo a alcunha de “poeta do sertão” ao estabelecer um verdadeiro parâmetro da poesia cabocla quando introduziu em sua poética a linguagem herdada do que ouvia na adolescência vivida no nordeste.

Assim, se entende porque sua mais conhecida composição, “Luar do Sertão”, chegou a ser quase um segundo hino brasileiro (“Não há ó gente, oh não / luar como esse do sertão.... Se a lua nasce por detrás da verde mata / mais parece um sol de prata / prateando a solidão...) abafando o nome do compositor da bela melodia de origem folclórica, o violonista João Pernambuco, além de soterrar o título original, “Engenho de Humaitá”. No pioneirismode letras extensas no estilo caboclo está “Cabocla de Caxangá”(“Caboca di Caxangá / minha cabôca vem cá / Quiria vê si essa gente também senta tanto amô...”) em que Catulo abre mão de seu estilo pomposo em favor da simplicidade da fala do homem do sertão.

O estilo está presente na maior parte de sua obra, cerca de 150 composições, nem sempre mantidas com o título original, em que incorpora versos que as consagraram. Assim “Choro e poesia”, conhecida como “Ontem ao Luar”, se inicia com versos que seresteiros saboreiam ao cantar “Ontem ao luar, nós dois em plena solidão.....”. “Terna saudade”, que foi re-intitulada como “Por um beijo” e extensamente gravada, termina com estes versos valseados “Se tu velada no mais casto véu, concederes-me a vitória, a suprema gloria de um só beijo teu”. Enquanto “Rasga coração” tinha melodia de “Iara”, “Talento e formosura: assumiu o lugar de “Nair” com versos sarcásticos já no início ”Tu podes bem guardar os dons da formosura / que o tempo um dia há de implacável trucidar..... E quanto a mim, ireia cantando meu ideal de amor........Mas quando a morte conduzir-te à sepultura / o teu supremo orgulho em pó reduzirá”.

Construções invertidas, frases hiperbólicas, versos em métrica correta, palavras fora de moda permeiam esse universo de arrebatadas declarações de amor purificado que nos dias de hoje parecem proceder de outro planeta. Não são. São as trovas e serestas que foram glorificadas no início do século XX atingindo extratos sociais de todo tipo, do presidente ao mais simples cidadão, bem como seresteiros que as entoavam nas ruas mal iluminadas ou sob os lustres dos salões na voz do próprio Catulo em concorridos recitais.

Aqui regravadas respeitosa e cuidadosamente nos arranjos e nas interpretações de um elenco que soube concretizar essa bela ideia de Mário Sève, as canções de Catulo representam pois a música de caráter eminentemente popular enaltecidas na Belle Époque do Rio de Janeiro.

 

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A noite - Maio/1946

 

 

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A noite - Maio/1946
 
 

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