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Estado-de-Sítio

Após os maus presságios pela passagem de um cometa, os habitantes de Cádiz, na Espanha, passam a ser governados pela Peste, que depõe um governo reacionário e institui um poder arbitrário por meio da ameaça de morte. Ela instaura o Estado de Sítio e cria um regime burocrático, esvaziado de sentido e dominado pelo medo. Uma cidade sitiada e uma população dividida.

A vida dos cidadãos é submetida ao império da Peste e de sua Secretária, de modo que o sofrimento e o desespero se tornam banais. No meio desse cenário desolador e aterrador haveria espaço para uma "revolta" estimulada pelo amor aos seres humanos e pela liberdade? Para se libertarem da Peste será preciso resistir ao medo que se tem dela acreditando que, assim como a aparição do cometa, a situação instaurada é uma força histórica e passageira, e que o povo sempre detém o poder eterno. Texto de Albert Camus e Tradução de Cecília Boal.

Ao escrever Estado de Sítio, Albert Camus declarou que pretendia “atacar" frontalmente um tipo de sociedade política que se organiza, à direita ou à esquerda, de modo totalitário. Esta peça toma o partido do indivíduo, da natureza humana naquilo que ela possui de mais nobre, o amor, enfim contra as abstrações e os terrores de um regime autoritário” (resposta de Camus ao crítico Gabriel Marcel de Les Nouvelles Littéraires, publicada na edição dos Essais de Camus,1965).

A escolha de Cádiz (Espanha) como cenário de Estado de Sítio não é nada casual. Apesar da memória recente do nazismo e do fascismo na Europa, o regime fascista de Franco, extremamente violento, ainda sobreviveria na Espanha por quase quatro décadas (1938-1973), uma mácula na história de uma Europa que já começava a avançar na transição para a democracia liberal. Escolhendo Cádiz, uma cidade brutal e longamente ocupada, a pestilência ganha transparência no seu potencial alegórico e se tornam mais eficazes as alusões a torres de vigilância, campos de concentração, deportações, torturas e... atos de resistência. Se na
peça é a coragem que triunfa sobre o mal, vale lembrar que Camus nunca foi um pacifista ingênuo – ele sabia que a resistência exigia sacrifícios, algumas vezes sobre-humanos.

A ENCENAÇÃO
O totalitarismo infecta o organismo social de maneira insidiosa; os sintomas podem não ser facilmente identificáveis, mas os efeitos são implacáveis.  Para colocar Estado de Sítio em cena, Gabriel Villela “parte do princípio de que a epidemia deveria ultrapassar a condição de alegoria – o que na atual conjuntura talvez reduzisse a poética de Camus a uma espécie de alerta político, correndo inclusive o risco de fazermos um espetáculo panfletário – para atingir a categoria mais ampla de símbolo”.

Segundo o premiado diretor, que recentemente nos brindou com os elogiados espetáculos Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, e Hoje é Dia de Rock, de Zé Vicente, “a riqueza dramatúrgica de Camus não se limita a um contexto histórico específico nem a um campo político delimitado, mas é um mosaico de teatralidades que nos lembra que a liberdade exige esforço coletivo e contínuo”.  Villela também assina os figurinos dessa montagem, trazendo dessa vez o preto como cor básica complementada com cores nos adereços de cabeça. A maquiagem de Claudinei Hidalgo também realça o caráter grotesco e não realista dos personagens. A música, mais uma vez, está muito presente na encenação de Villela. A direção musical de Babaya Morais e Marco França. O espetáculo traz no coro trágico grego arranjos polifônicos de canções revolucionárias icônicas, como Fischia il Vento, o Hino da Resistência Francesa, músicas ciganas de Goran Bregovic e outras cantadas em ladino (língua falada por comunidades judaicas originárias da Península Ibérica). 

Ficha Técnica
Texto: Albert Camus. Tradução: Alcione Araújo e Pedro Hussak. Direção, Adaptação e Figurinos: Gabriel Villela.

Elenco: Elias Andreato, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Rosana Stavis, Mariana Elisabetsky, Kauê Persona, Pedro Inoue, Arthur Faustino, André Hendges, Rogério Romera, Jonatan Harold, Nathan Milléo Gualda e Zé Gui Bueno.

Cenografia: J C Serroni Iluminação: Domingos Quintiliano. Direção Musical: Babaya e Marco França Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo. Foto: João Caldas Fº. Produção executiva: Augusto Vieira. Direção de Produção: Claudio Fontana.

Teatro 

(Foto: João Caldas)

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Estado De Sitio, de Albert Camus Adaptação e Direção de Gabriel Villela 14

Essa atividade aconteceu em 28/06/2019 no Sesc Santos.

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