Sesc SP

Esta atividade faz parte da

BREU - Atividades que abordam as inquietudes urbanas e o relacionamento do homem com a cidade. saiba mais

Noturnancias

Confira os relatos das errâncias do poeta e escritor Kleber Félix pelas noites urbanas do BREU.


Sobre ficções e encomendas

Kleber Felix

 

“A cidade enlouquece sonhos tortos

Na verdade, nada é o que parece ser”

Lobão

 

A cidade às vezes me quer puto, mundrungo, fumador de pedra, mendigão de meio-fio. Desço a Independência pensando no fim, em frases certeiras que me golpeiam a fuça e me fazem caminhar mais rápido. Daí penso em cervejas. Em seis ou sete cervejas. 

Sigo caminhando.


São esses contrastes. Sujeitos sambando em avenidas principais em horário de pico, outdoors como plano de fundo. Sinal vermelho, bolas e claves pro alto. Vidros fechados. Chapéus e bolsos vazios. A multinacional na esquina e uma coleção de “Hoje não”.


A cidade às vezes me quer fodido, mais um verme rastejante, poeta sem inspiração.


São esses contrastes. Tipos que chegaram “lá”. E esses seres humanos de segunda classe arrastando suas carcaças renitentes de coisas quebradas. Angariando sem sucesso antídotos que afastem a dor. Amanhã é sempre tarde demais.


Sigo caminhando.


Adentro o Sesc. Trombo alguns brothers. Eles bebem cerveja. Penso que o Sesc devia me arrumar umas latas de cerveja (Que cê acha, Ana Paula?).


Lirinha grita uns poemas no palco do teatro. Mó bacana. Do mais, são intervenções que vou perdendo. Músicas que não entendo. Porque eu entendo de noites quentes regadas a conhaque vagaba, de blues na vitrola. Entendo de noites bestas que se arrastam retardando dias deprimentes. Entendo de insônia, de planos irrealizáveis. E de qualquer forma não tenho a pretensão de ameaçar o emprego de nenhum crítico de arte. Eu tinha esse mote. Contar uma história já rascunhada dias antes. Uma ficção pra essa encomenda.


O caso é que a minha ficção caiu fora quando trombei com esse velhinho. A gente ia virar a mesma esquina, bem, cê sabe. Ele me conta sua história. A parte da história onde ele encontra esse sujeito à espreita, sacando suas pinceladas num muro do Centro da City. Profeta das Cores, o nome do velhinho. O olheiro é o brother Danilo Oliveira, curador da exposição “Cidade Inquieta”, onde o Profeta tá expondo ao lado duma porrada de artista foda (só passei os olhos nos trampos, terei tempo pra uma apreciação mais cuidadosa). Danilo me conta a sua versão da história. São alguns ruídos, detalhes e pequenas contradições. Existe a verdade, a mentira e todo o resto. O Profeta é artista em tempo integral. O pintor e o cidadão comum são a mesma pessoa, fazem parte da mesma ficção. Meu mote já não parecia tão bom assim.


Bem, era hora de cair fora. 


A cidade cospe na minha cara. Dobro a esquina. Adolescentes mocozados tragam em silêncio. Aceno pra eles. Ignoro os sujeitos estampados nas suas camisetas.  A cidade escarra sangue na minha do velho Buk que eles também – julgo – desconhecem. Sigo caminhando. Penso no fim. Penso sobretudo no fim. E em cervejas. Em cervejas e no fim.

Kleber Felix é só um escritor quebrado tentando pagar as contas, escrevendo pro BREU alguma coisa que preste ou que nem preste muito, tudo bem. Acha que além do cachê, devia ter direito a algumas cervejas, não muitas, mas algumas.




 

Sobre esquinas e multidões

Kleber Felix

 

“Sou todo errado no mundo

Não há esquadro que vá consertar

Sou todo perdido no mundo

Não existe bússola pra me orientar”

Saco de Ratos


Segunda noite do BREU. Circulo ali pelo Espaço “Noites Urbanas”. Lata verde, grande, na mão. Eu tô legal. Vou trombando os brothers. Brindamos o nada que nos constitui. Renovo meu estoque de piadas sujas. Anelis Assumpção e banda detonam grooves e reggaes, estimulando o balançar de alguns traseiros. O meu não. É que eu não danço. Mas me sinto um bom expectador, caramba. O público é menor nessa segunda noite, ouço lamentos. Pra mim tá tudo bem. 

 

Tem esses lambes da Raquel Wohnrath espalhados pelas paredes. São essas fotos e haicais bem sacados. Gosto desse aqui “em ponta de lança/o desejo do alvo/vem antes da mira”. Ela distribui réplicas em formato postal, o pessoal parece gostar. Alguns tiram fotos das paredes e empacam a fila na escada.

De quando em quando, sigo até o frigo-car estacionado na esquina e municio-me de mais uma lata verde, gelada. A vida é bacana. Um pessoal me enquadra. Elogiam o meu texto sobre a noite anterior, expõem suas expectativas para com os próximos. Prometo pra eles que vou me esforçar pra ser pior. Sou simpático. 


Fico contente com a intervenção “Circo Noturno”. É que a Michelle e o Henrique são brothers. A gente se conheceu lá na longínqua Dourados-MS. O Henrique tinha esse trampo de punk-rap com o brother Almir. Intimei os dois pra tramparem num curta tosco que eu tava produzindo por lá. Eles protagonizaram a parada e gravaram a trilha. Ficou bacana, tosco e bacana. Lembro quando o Henrique descolou seu primeiro trio de bolinhas que iam sempre do alto pro chão. Agora a história é outra. 


Volto pra esquina e a matilha tá toda ali. Anelis e uns membros avulsos da banda. Esquinas são como segundos eventos, são como os bares ao lado do seu emprego. Fico sacando uns muros anêmicos, tão pálidos, sem graça. Colo um postal da Raquel num deles. Já é alguma coisa. A arte tem que ir pra rua, pras esquinas. É necessário entender essa necessidade de cair fora. Entender as esquinas, essas zonas autônomas temporárias, onde levamos ideia, trocamos impressões e tragos e criamos planos mirabolantes sobre dominarmos o mundo com arte (fala aí, Macaco!). É necessário entender que se caímos fora é porque estávamos antes em algum lugar. Somos acolhidos por essas esquinas avessas a multidões, porque ali é a continuidade, é a roda da vida girando. E eu não falo de qualquer esquina, mas de esquinas de lugares bacanas. Essas esquinas metafóricas onde as vans encostam e levam os artistas pros seus respectivos mundos, longe dos palcos e das multidões.


Trombei a Ana Paula mais cedo. Levamos ideia sobre projetos literários e a coisa toda. Sobre as cervejas? Talvez não role, mas em momentos oportunos como esse, gosto de acreditar em coisas do naipe: a esperança é a última que morre. Acho que no fundo cê não quer que ela morra. Você a quer bem, mesmo que moribunda. Mesmo que cê tenha lido livros demais do Bukowski durante anos e anos duma adolescência tardia. Mesmo que você use um espaço midiático dentro dum evento fodão pra reivindicar cervejas. Pô, mesmo que cê seja um projeto (em bom andamento) de escritor malditinho. Mesmo que cê use palavrões demais e acredite que na maior parte das vezes eles não são gratuitos. Mesmo que cê seja, ou simplesmente se sinta, às vezes, um rato mendigando a multidão ao mesmo tempo em que vislumbra aquela esquina no mocó em companhia de dois ou três comparsas da sua laia. Mesmo que cê seja contraditório e nem sempre feliz. Cê não quer que morra a esperança. De qualquer forma fui prevenido. Por isso o frigo-car. Foi uma bela noite.


PS. Terceira noite do BREU. Ressaca. Público miado. Ouço lamentos. Pra mim tá tudo bem. Pedro Improvisador manda seu recado. Tá vestido feito um padrinho de casamento. É que ele tava mesmo sendo padrinho de um casamento e foi direto pro Sesc. Aproveita o mote pra mandar a ideia. Rap não é pano, rap é atitude, é sentimento.


Na sequência, Lady Incentivo parodia Amy Winehouse e outras paradas que não conheço. Defende o orgasmo feminino, tem essa luzinha vermelha piscando entre as pernas. Incentiva o debando dos esquineiros que, pesarosos, se queixam, querem que eu tome partido. Mas eu não tomo. Como disse o Mário Bortolotto, as pessoas têm o direito de produzir seus lixos inofencivos. Acrescento mais, as pessoas têm o direito de escrever seus textos deprimentes, pintar seus quadros surreais demais pra compreensão dos desavisados, cuspir suas verdades todas erradas. Tá tudo certo. A Isabela Martinez disse que entendeu a proposta, disse que gostou. Daí vem o pessoal da Baiana System. Guitarrinha swingada, baixo grooviado, percussão em contraste com essas batidas eletrônicas e letras bacanas desse vocalista que me lembra o velho Chico Science. Letras maloqueiras de amor. Sambas malandrões carnavalescos e vibes regueiras de quem deseja plantar flores no jardim pra colher paz e amor. A Raquelzinha gostou. Entregou seu último postal poético da noite, tirou as sandálias e dançou com a pequena multidão. Segui ao seu lado, balançando a cabeça de quando em quando. Uma noite bacana.    


Kleber Felix não tem a intenção de botar em risco o emprego de nenhum jornalista. Mas, espera no ano que vem ser convidado pra escrever sobre as noites do evento Sesc Blues & Jazz, com bom cachê e cervejas. Prefere whisky, mas aceita cervejas. Aposta que as esquinas serão menos atraentes nessas noites, pelo menos enquanto o som tiver rolando.

 

 





A dor é só esse troço se ajeitando dentro da gente

 

Kleber Felix

 

“Ópios, Édens, analgésicos

Não me toquem nessa dor

Ela é tudo que me sobra

Sofrer vai ser a minha última obra”

Paulo Leminski

 

Quinta-feira, 22 de outubro, 20:30 h. Vento frio soprando em lá menor. O princípio do caos. Uma chuva indecisa entre diluviar de vez ou relevar as cagadas da humanidade. Breu. Esquineiros pesarosos amotinados em frente ao Sesc, tragando cigarros molhados. Penso (dessa vez sem metáfora) no fim. A gente tinha essa intervenção às 22. “Onde foram parar meus guarda-chuvas”, nome homônimo do livrão de poemas malucos do Ubirathan do Brasil, que virou audiobook pra deficientes visuais e leitores preguiçosos. O safado subornou e arrastou 47 camaradas pro Estudio RBS e o negócio rolou. A Aline Alencar, o André Fernandes (dono das trilhas destruidoras do negócio) e eu, fomos subornados duas vezes. Intimados a participar da tal intervenção. Mas daí, tinha esses geradores de energia fodidos, esse suposto armagedon, essa dúvida sobre a coisa rolar ou não. O tempo em suspensão. E não é que no último momento veio a luz? Pode crê. Do breu pro BECO do BREU. Plateia acomodada. Blecaute. Luz no palco improvisado e esses poemas saindo com naturalidade das nossas bocas com hálito de Bavaria, acordes certeiros estraçalhando o caos, o mundo intacto lá fora. No final, aplausos. Modéstia à parte, merecidos. E o Xico Sá comprou um exemplar do “Guarda-chuvas” e um do meu “Num dá pra apagar os riscos dum disco furado”.  Fim de noite, princípio do meu caos particular.

 

Sexta-feira. 23 de outubro, 21h. É essa dor. Mais uma vez Pedro Improvisador mandando seu recado. Dessa vez em trajes mais confortáveis, rimando coisas em poesia, rimando em rap. Um rapper do bem. Na sequência esses dançarinos do Núcleo Avoa em performance “Voo-Vão”. Sanfoninha gritando e esses movimentos de garças, cisnes, bem-te-vis chapados ou coisa assim. Não entendo nada dessas coisas. Mas devo dizer, é um trabalho bonito. Dá pra sacar o trampo por trás de cada gesto. Essas coisas quebradas dentro de mim. 

 

22h, TROVADORES DO MIOCÁRDIO – músicas de amor diluídas em crônicas. É essa gangue anárquica de poetas-trovadores, fazendo biópsia dos corações perturbados. Caroline Fauqueamonte, Junio Barreto, Xico Sá, Fausto Fawcett, com direção de Eduardo Beu. Tudo muito simples e certeiro. Projeções de antigas pulp magazines, trilhas destruidoras e eles sobem ao palco, um por vez. A regra é: se há texto, todo mundo ouve. Se há música, todo mundo dança. E a bagunça tá armada. Leonard Cohen e Fauquemonte, paixões devastadoras, amor libertário sem compromisso pro resto da existência. Junio Barreto ao som desse bolerão sacana, trovando voos rasantes, escalpelando cabeças e corações em cheque. Xico Sá, se apropriando de um poema do Ubirathan. Acrescentou e suprimiu versos, improvisou, deixou o negócio mais engraçado do que já era. Belchior gemendo de fundo. Amor e dor incondicional, a inutilidade da psicanálise. Doses de cachaça e linguiça frita, butecagem e camaradagens substituindo Prozacs e afins.  Por fim o grande Fausto-Jurássico-Fawcett e sua prosa de humor devastador, perseguindo raybans desenvolvidos pela NASA, acoplados em olhos nocauteantes e casamentos que duram pra sempre, nesse “bar temático aberto pra visita do amor”. 

 

E eu, escritor falido, cronista das NOITES URBANAS do BREU, sem uma lata na mão, um trago de inspiração. E essa dor. Ou essa dorzinha que eu chamo de DOR, porque dorzinha é muito bossa-nova. É essa dor solando um blues despedaçante no meu peito envolto entre fumaça e pequenas mágoas. Insisto na dor. Mesmo sabendo que dor, quem sente, é aquele sujeito fodido que trombei na Bady horas antes. Aqueles que não têm pra onde ir ou pra onde voltar. Aqueles que desistiram. Aquela mãe velando o filho picado de bala. O pai de família mangueando um rango sem sucesso. O viciado em abstinência. Os doentes terminais e seus entes queridos. Os desgraçados.

 

A noite termina ao som das pick-ups do DJ OMULO, a turba dançando animada, afastando suas dorzinhas cotidianas. Bacana. 

Volto pra casa. Nem penso em cervejas.  

 

 


 

 

A última crônica do escritor falido esquineiro todo errado nas “Noites Urbanas” do BREU

 

“O amor é a única coisa

eternamente nova”

Bêbados Habilidosos

 

Pequenos desafetos que resolvemos com vodka barata e diálogos noite adentro. O sábado dá as caras prometendo um sol brutal. Às vezes o sol brilha mais que o necessário. Às vezes erramos, julgamos mal, proferimos demasiadas besteiras ofensivas. Eis o levante da dor. Mas dor é só a vida, caramba.

 

Sigo tranquilo pro Sesc, vendo uns livros pelo caminho. É minha última noite como cronista/esquineiro/observador. Penso no que não deu certo, no que fugiu do controle, nas expectativas frustradas, motes noturnos geniais se tornando besteiras pretensiosas no dia seguinte (vaidade de escritor).

 

Sentado na área externa da comedoria, fico sacando esses vultos malucos na parede. É a intervenção visual “Quanto você ocupa?” do pessoal do Andar7. Não entendo (ainda) do que se trata. Talvez por isso esses vultos que se movem em blocos fantasmagóricos me lembram que já não existem fantasmas no meu encalço, que a vida/dor também pode ser tranquila. Que multidões são exércitos dos quais podemos desertar em busca duma esquina/novo-amor de braços abertos, pernas à mostra, sorriso nocauteante.

 

Lá dentro soa os primeiros acordes desse sax meio jazz esquiso, embalado a outros metais de fôlego marcado por um batucão ensurdecedor. Vou conferir. São os charangueiros. Quer dizer, o saxofonista Tiago França e sua trupe no show denominado “A espetacular charanga do França”. É essa mistura de ritmos afro-brasileiros com solos certeiros à la be bop bop. Fico por ali, pensando que podia mesmo rolar no ano que vem esse convite pra escrever sobre as noites do Festival Sesc Jazz & Blues. Pô, podia mesmo. Marco um tempo por ali, sentindo falta dos esquineiros habituais. Os charangueiros seguem a pauta. Balanço o pé no ritmo maluco do negócio. Sou quase feliz. 

 

Bem, esquineiros tardam, mas não falham. Colamos lá. Trocamos. Brindamos e damos continuidade aos planos mirabolantes sobre dominar o mundo com anarquia e arte. Voltamos. E é aí que entendo qual é a dos vultos malucos na parede. Tem uma caixa preta no chão que quando cê passa em frente, projeta seus movimentos de forma tresloucada. Kinect, é o nome da tecnologia. Os artistas esquineiros, animados, criam coreografias exageradas, teatros de sombras. Dançam daquele jeito que eles costumam dançar, ao som dessa gang de DJS riscadores de vinil. Calefação Tropicaos. Caio fora.

 

Escrevo esse último texto ao som de Bêbados Habilidosos, enquanto essa chuvinha maneira cai lá fora e o gato busca abrigo sobre os livros espalhados pela sala.

 

PS. Sobre as cervejas? Foi só uma piada que não vingou. De qualquer forma, é só literatura instantânea ou a tentativa de.
Foi divertido. 


Kleber Felix queria ser guitarrista ou cantor de blues, mas não passa duma espécie de hiperativo-preguiçoso. Talvez por isso, insiste em alardear pequenas dores embaladas a piadas repetidas envolvendo cerveja, esperança, solidão e alguma diversão.

Literatura

Noturnâncias Intervenção L

Essa atividade aconteceu de 16/10/2015 a 27/10/2015
no Sesc Rio Preto.

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