Duração: 150 minutos
atividade presencial
Grátis
Local: sala 7
Dia 30/1, sexta, das 18h30 às 20h
A dissertação investiga as experiências de mulheres negras atendidas na Casa Angela – Centro de Parto Humanizado, localizada no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo. A pesquisa parte da vivência pessoal da autora, mulher negra e indígena (kariri), e de sua experiência de gestação e parto na instituição, marcada simultaneamente por cuidados afetuosos e por estranhamentos que permaneceram “em suspensão” e, anos depois, ganharam nome: racismo institucional.
O estudo busca compreender como o racismo institucional se expressa mesmo em espaços voltados à humanização do parto e nascimento, refletindo sobre qual noção de humanidade fundamenta tais práticas. Para isso, a autora entrevista duas mulheres negras usuárias da Casa Angela e duas profissionais (uma obstetriz e uma doula), analisando como suas narrativas convergem ou se tensionam. A metodologia combina análise qualitativa, escrevivência inspirada em Conceição Evaristo, entrevistas semiestruturadas e levantamento quantitativo do território, articulando caminhos metodológicos nomeados como Burundi e Iorubá, referências à encruzilhada que orienta a pesquisa.
Os resultados indicam que, apesar da proposta de humanização, as mulheres negras relataram episódios de desatenção, constrangimento, dor emocional, epistemicídio e práticas naturalizadas de racialização, revelando que a humanização ali praticada foi construída a partir de uma referência de humanidade branca. Isso inclui desde pequenos gestos, como a forma de registrar raça/cor, o modo de ler prontuários ou a postura com acompanhantes negros, até silenciamentos profundos que moldam quem é visto, reconhecido e legitimado como sujeito do cuidado.
Ao mesmo tempo, a pesquisa identifica que mulheres negras desenvolvem estratégias de proteção, resistência e recusa, visíveis em ações como participar voluntariamente do estudo, questionar procedimentos, buscar apoio fora da instituição ou não aderir totalmente às propostas oferecidas. Essas atitudes, muitas vezes interpretadas como desinteresse, revelam outra face do racismo: a ocultação das contribuições e presenças negras na própria história da Casa Angela e da luta pela humanização do parto no Brasil.
A partir de uma perspectiva amefricana, decolonial e profundamente comprometida com a experiência encarnada das mulheres negras, a autora demonstra que a humanização do parto não pode ser pensada sem enfrentar o racismo estrutural e suas ramificações institucionais. A pesquisa conclui que o cuidado verdadeiramente humanizado exige reconhecer a potência das mulheres negras, suas histórias, dores e saberes – e que, sem isso, qualquer proposta de humanização permanece incompleta.
Com Aline Kariri Mina, advogada e mestra em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política da USP.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.