História, formação, identidade e características culturais do Brasil

Unilasalle / Canoas (RS)

10/04/13

Ao abordar o tema da cultura brasileira e permitir que aspectos relacionados à história e à identidade ganhem relevo, é importante atentar para algumas questões. O que denominamos “cultura brasileira” é um amálgama, uma trama de fios os mais diversos, cuja dinâmica é tanto mais rica quanto menos escondamos suas variações, suas contradições, suas linhas de força divergentes.

Se a reflexão sobre cultura e identidade ganha lucidez na medida em que consegue se precaver de generalizações, não basta apelarmos para o pólo oposto, e adotar um relativismo absoluto, cujo resultado pode ser uma indiferenciação pouco estimulante. Afinal, há sim possibilidade de lermos o panorama cultural brasileiro apontando linhas de força principais, desde que fiquem claros os critérios mobilizados nessa leitura.

Está colocada, desse modo, a pergunta: como organizar uma análise adequada da realidade da cultura brasileira, sem evitar o tema da identidade brasileira, atentando para as dificuldades já apontadas?

Para tanto, valem duas observações:

1. Uma listagem exaustiva de artistas e movimentos, costumeira em determinadas abordagens culturais, será evitada por dois motivos: além do risco de ser historicamente ingênua ao separar as manifestações de seus contextos, esse tipo de abordagem tende a tomar a parte pelo todo, ou seja, propõe-se a debater a cultura, mas restringe-se ao campo da arte, desconsiderando as relações dialéticas entre ambas.

2. Haverá, de minha parte, a tentativa de aproximar, quando for possível, a explanação verbal de minha experiência como gestor do Sesc em São Paulo, aproveitando exemplos dessa prática para ilustrar determinados pontos.

Para esse exercício de pensamento, farei primeiro uma consideração geral sobre cultura e, depois, irei me reportar à cultura brasileira, procurando pontuar características que me parecem marcantes.


Da palavra cultura

Voltemo-nos então para o conceito de cultura.

Não quero me deter-nos muitos significados históricos que foram e são atribuídos à cultura, principalmente na antropologia. Mas quero ressaltar dois aspectos de seu sentido etimológico, que permanecem muito atuais nos dias correntes.

Na tradição romana, a palavra cultura advém, originalmente, do verbo latino “colo”, que era utilizado para designar o plantio e que significava “eu cultivo”.

À época, tratava-se de uma Roma ainda agrária, contrastando com o império em que se converteria mais tarde. Por isso, o uso específico para esse verbo: “eu cultivo o solo”. Assim, a palavra cultura circunscreve, rigorosamente, “aquilo que deve ser cultivado”.

Seguindo esse sentido, Alfredo Bosi, que foi meu professor e, hoje, é professor emérito do Departamento de Letras da Universidade de São Paulo, nos diz que:

“[a palavra cultura] era um modo verbal que tinha sempre alguma relação com o futuro; tanto que a própria palavra tem essa terminação –ura, que é uma desinência de futuro, daquilo que vai acontecer, da aventura. As palavras terminadas em –uro e –ura são formas verbais que indicam projeto, indicam algo que vai acontecer.” 1.

Este sentido destacado na citação se refere simplesmente ao aspecto material do verbo, que durou séculos entre os romanos. Não se tinha, ainda, o sentido ideal e intelectual como “desenvolvimento humano”, “conjunto de ideias e valores” ou “transmissão de conhecimentos”.

Isso só vai ocorrer quando o mundo romano se heleniza, após a conquista da Grécia.

Nesse momento os significados do termo grego “Paidéia”, que se referem ao sentido ideal e intelectual, ligados à formação e ao desenvolvimento humano, passam a alimentar e a manter equivalência com o termo latino “cultura”.

Cabe lembrar que Paidéia deu origem à Pedagogia, o que indica a forte relação entre cultura e educação, relação esta que é a base do trabalho realizado pelo Sesc em São Paulo.

Com a influência grega, a palavra cultura ganha densidade e se liga a uma outra dimensão: passa a se referir, também, ao passado, à herança, à transmissão de valores, ideias e conhecimentos.

Assim, é possível notar que a cultura, em sua riqueza etimológica, mantém, ainda nos dias de hoje, esses dois sentidos:

• ela se refere a tudo aquilo que foi herdado, ou seja, ao passado; e

• ela diz respeito àquilo que é projeto, que está direcionado para o futuro.

Abordar a cultura brasileira tendo como perspectiva investigar traços identitários consiste numa tarefa que, se manejada de modo grosseiro, leva a estereótipos que desrespeitam a riqueza cultural em questão. Para isso, é importante termos em mente a natureza ambivalente da cultura, sua dupla face que olha para o que foi feito e para o que será construído.

É nesse sentido que vale a pena olharmos para a questão da identidade brasileira como projeto – ou seja, elaboração contínua e coletiva – e como herança – ou seja, considerando um legado constantemente re-significado.

Exemplos do enredamento entre passado e futuro não faltam, e remetem, inclusive, à dialética entre linguagens artísticas e o contexto cultural mais amplo, que inclui formas diversas de ser, conviver e se expressar.


Três exemplos entre muitos

Quando nos remetemos, por exemplo, a momentos valiosos da história cultural brasileira, vale a pena colocar em suspensão noções como “genialidade” e “inspiração”. Não afirmo que sejam ideias desprovidas de realidade, mas são inadequadas se queremos vislumbrar, de modo mais integrado e orgânico, as conexões entre arte e cultura.

Para não progredir apenas com abstrações, tomemos, na forma de uma indagação, um caso específico:

(¿)Em que medida a circunstância cultural, que caracterizou a região das Minas Gerais no século XVIII, marcada por alta concentração de poder político-econômico e por uma estruturação social inédita no país, foi causa da criatividade manifestada na arquitetura, nas artes visuais e nas letras? E, em que medida, foi consequência?

Urge notar que uma reflexão que considere a cultura como campo de ações – ou seja, um jogo polissêmico de mútuas influências – pode dar conta de um panorama sofisticado como esse. Panorama que se inscreveu como memória persistente em nossa matriz cultural, e que se revela pelos mesmos traços nos quais se esconde: nas marcas que deixou em nós, em nossos modos de falar, em nossas casas e museus, em nossas culinárias e cidades.

Cabe ressaltar, por esse caro exemplo, que a cultura, pensada como campo, está aberta a variadas pressões internas e externas. Tal campo constrói-se nesse embate, que não ocorre sem uma mistura de desejos, frustrações e acomodações. Afinal, estamos falando do terreno das manifestações humanas, pleno de articulações que flexionam o individual e coletivo, sem jamais apartar as duas instâncias.

Assim, é impossível pensar a cultura da velha Vila Rica sem considerar a mescla rara de aspirações iluministas, das particularidades do lirismo ibérico, das marcas de resistência de negros e índios. Se tal legado nos diz respeito até os dias de hoje, é porque aquilo que era condição transformou-se em projeto, conectando, no conceito de cultura, vetores divergentes de tempo.

Guardadas as imensas distinções históricas, é possível fazer uma analogia com outros contextos de riqueza cultural cuja importância é semelhante. Dentre eles, nos vêm rapidamente à lembrança duas referências:

• um caso evidente é o modernismo brasileiro em sua primeira fase, na década de 1920, cujo epicentro foi a cidade de São Paulo, embalado pela economia cafeeira, e ligado a uma primeira promessa de efervescência urbana; e

• outro exemplo faz referência à passagem da década de 1950 aos anos 60, quando energias oriundas de variados terrenos – as artes, os esportes, as humanidades, o urbanismo – explicitaram seus respectivos projetos de nação, confluindo num mosaico que nos diz respeito até hoje.

Recuperando a dupla face etimológica de “cultura”, seria possível aprofundar a análise de cada um dos três exemplos citados.
Essa tarefa consistiria em investigar em que medida cada um deles revisitou e revigorou sua herança e suas ascendências, bem como os modos pelos quais cada um dos processos comentados ajudou a reelaborar o que se entendia, à época, por cultura brasileira.
Ao citar esses três momentos privilegiados da história cultural do Brasil, emergem questionamentos dos quais não devemos nos desviar. Isso porque tais questionamentos sublinham o caráter arredio inerente a um debate sobre cultura e identidade brasileiras que procure escapar de estereótipos e fórmulas prontas.


Várias culturas no Brasil

Uma primeira questão a ser colocada refere-se a nosso olhar sobre o passado, quando se propõe a buscar as nossas possíveis raízes. Nos acostumamos a pensar sobre o passado com um apego excessivo a episódios privilegiados, muitas vezes desconsiderando um fluxo mais amplo, impulsionado e refreado por motivações, camadas de sedimentação, inconsciências e concessões.

Tal miopia histórica, sobre a qual os estudiosos devem estar permanentemente advertidos, nos leva ao problema da legitimação. Quem deve opinar e quais critérios devem ser levados em conta nos debates acerca de “história brasileira”, “identidade brasileira” e “cultura brasileira”?

Novamente, o professor Alfredo Bosi nos adverte que:

“[...] não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos nossos comportamentos e dos nossos discursos.
Ao contrário, a admissão de seu caráter plural é um passo decisivo para compreendê-la como um ‘efeito de sentido’, resultado de um processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço” 2. 

Somos um país continental, com marcantes diferenças constitutivas e culturais ao longo de nossa história; com processos de urbanização e desenvolvimento distintos; e com especificidades geográficas e culturais, local e regionalmente.

As várias culturas que habitam simultaneamente a realidade brasileira travam, há séculos, embates tácitos ou declarados, em busca de legitimação. Nesse sentido, até as primeiras décadas do século XX o Brasil experimentou uma situação comum no mundo ocidental, na qual a chamada “arte erudita” ocupava, de forma quase exclusiva, o posto de representante da cultura brasileira, chegando mesmo a se confundir com a própria ideia de cultura.

Segundo esse modo restritivo de ver a cultura, parcelas numerosas da população brasileira, apesar de desenvolverem modos próprios de dar sentido ao mundo, não produziam ou consumiam a cultura legitimada. Estavam, assim, alijadas do debate sobre cultura e identidade nacional.

Outro sintoma de uma leitura classista de cultura, o reverso da moeda que acabamos de descrever, consistia em reservar um espaço circunscrito à denominada “cultura popular”, embutindo nessa precária noção alguns preconceitos ligados à pureza e à espontaneidade. O efeito mais grave dessa construção teórica consiste em desconsiderar os ricos contatos entre essas manifestações e a cultura legitimada.

Entretanto, as condições históricas que emergiram no mundo ocidental ao longo do século XX tornaram mais fluidas as fronteiras entre as várias “culturas”. Um dos sintomas dessa fluidez foi o interesse de artistas, considerados eruditos ou de vanguarda, por manifestações ditas populares: lembremo-nos de Picasso, lembremo-nos de James Joyce.

No Brasil, o modernismo escancarou o trânsito intenso entre culturas. Isso fica claro, por exemplo:

• na pesquisa por uma “linguagem brasileira” feita pela literatura de Mario de Andrade;

• no interesse de Villa-Lobos pela música popular e por aspectos das culturas indígenas; e

• na pintura de Tarsila do Amaral, na qual se fundiam características cubistas com elementos iconográficos do interior do país.

Ao mesmo tempo em que as fronteiras entre cultura erudita e cultura popular tornavam-se mais tênues, uma nova instância ganhava consistência, colaborando para embaralhar ainda mais o campo cultural: a cultura de massa ou indústria cultural. Resultante da organização em larga escala do trato com a cultura, a cultura de massa incorpora meios de reprodução de som e imagem, metodologias industriais e ferramentas publicitárias de difusão.

Criticada por teóricos da Escola de Frankfurt, a cultura de massa constituiu uma sintaxe específica a partir da apropriação seletiva de aspectos da cultura erudita e da cultura popular. Sua presença no contexto urbano impôs-se velozmente. Logo após a Segunda Grande Guerra, artistas norte-americanos e europeus já estabelecem diálogos com o universo das propagandas, das histórias em quadrinhos e do imaginário do cinema e da televisão.

Assim como ocorreu com artistas mundo afora, muitos pintores, músicos e escritores brasileiros incorporaram signos dessa nova realidade a seus repertórios, dotando-os de agudo senso crítico.

Desse modo, notamos nas últimas décadas uma progressiva aproximação e mistura de elementos das várias dimensões da cultura: cultura erudita, cultura de vanguarda, cultura popular, cultura de massa. Parece ocioso buscar algo de puro num contexto cuja riqueza advém, precisamente, desses contatos entre culturas. 

O Sesc São Paulo organiza suas ações tendo por base esse contexto plural de culturas, no qual as relações são dinâmicas, as hierarquias são provisórias e os papéis intercambiam-se o tempo todo. Os espaços do Sesc têm como objetivo oferecer oportunidades de vivenciar a riqueza dessa diversidade, por meio de uma programação que possa suscitar reflexões atuais sobre um panorama, por natureza, multifacetado.

Um dos exemplos marcantes da incorporação das conexões entre dimensões da cultura no dia-a-dia do Sesc está associado à experiência do Sesc Pompéia. Centro de Lazer consagrado à convivência, sua inauguração, em 1982, representou um estímulo para fruições e práticas dentro de uma cultura que se move organicamente.

Tudo principia em sua configuração arquitetônica, oriunda também da sensibilidade da arquiteta Lina Bo Bardi para atar temporalidades distintas, preservando a herança estrutural de uma antiga fábrica de tambores e transformando-a, com intervenções discretas, em espaço para múltiplos encontros. Encontros entre pessoas e entre culturas.

Sintomas efetivos dos encontros entre culturas são exposições temáticas realizadas nos primeiros anos de existência do Sesc Pompéia, como “O design no Brasil: História e realidade” (1982); “Mil brinquedos para a criança brasileira” (1982/83) e “Caipiras, Capiaus: Pau-a-Pique” (1984). Aqui, ressaltemos o protagonismo da cultura popular, bem como o reconhecimento de suas conexões com outras instâncias.

O mesmo espaço que reconhece o vigor de manifestações denominadas populares é palco de experimentações artísticas de vanguarda, seja na música, no teatro, na cultura digital, na performance. A essas camadas, mescla-se um cotidiano ligado à alimentação, ao esporte, aos processos educativos – e à disponibilidade para o diverso.

A experiência não se circunscreve apenas ao Sesc Pompeia: as ações do Sesc em São Paulo trabalham dentro dessa polifonia cultural, polifonia essa abordada de modo variado, de acordo com a realidade na qual cada centro cultural e esportivo está inserido.  


Culturas do Brasil, culturas do mundo

É fácil notar que o debate sobre a identidade cultural deve, necessariamente, considerar essa complexidade rapidamente descrita. Outro ponto a ser levado em conta, inescapável no caso brasileiro, é o fator geográfico, conforme se manifestou ao longo dos séculos até os dias de hoje.

O que é a realidade brasileira, senão o resultado de encontros entre matrizes culturais de diversas partes do globo, aliado a uma vocação para contágios mútuos?

Aqui, algumas considerações devem ser feitas:

1. as aproximações entre tais matrizes culturais se deram ao longo de cinco séculos, formando extratos antigos e recentes que se interpenetram;

2. devemos considerar tanto os contatos entre culturas estrangeiras, que se encontraram no Brasil, como os intensos trânsitos de pessoas e bens culturais dentro do próprio país;

3. as diversas culturas que constituem a nossa realidade sofreram e sofrem processos desiguais de legitimação - mais lentos ou mais rápidos, mais ou menos aprofundados.

Hoje, parece restar poucas dúvidas de que a complexidade advinda dessas noções de espaço e de tempo é a principal marca de nossa riqueza cultural. Daí a pluralidade de modos de ser, conviver e se expressar.

Se não faz sentido pensarmos em culturas estanques, mas na dinâmica entre elas, não é certo imaginar que as particularidades possam se dissolver em homogeneidade resultante de repetidos contatos. Identidades regionais e locais reinventam maneiras de manter o vigor de suas formas de ver o mundo contemporâneo e nele agir.

Como tornar o Sesc permeável a esse quadro, cuja globalização transforma permanentemente?

Trata-se de um exercício constante, expresso em algumas frentes:

• o reconhecimento de realidades específicas, dentro e fora do país, direcionando-se até elas em ações comunitárias, em processos de educação para a diversidade e pelo Turismo Social;

• a incorporação dessas realidades aos nossos espaços numa ampla programação artística e cultural; e

• o estabelecimento da memória cultural como valor a ser cultivado, permitindo que influências menos recentes aflorem em novas significações.

São muitos os exemplos da presença desse caleidoscópio cultural na lógica cotidiana do Sesc. Para nos atermos a um caso emblemático, trago aqui a experiência do MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, cuja segunda edição ocorreu em 2012.

Ambientado em lugares diversos de Santos e região, trata-se de uma iniciativa bienal que evidencia, na esfera do teatro, os acentos nacionais e os paralelismos entre produções da América Latina, Espanha e Portugal. Além dessa visão panorâmica, propõe-se o aprofundamento em torno de um país específico: foi o caso da Argentina, em 2010, e do México, em 2012.

O resultado é a transformação temporária da baixada santista em “capital” ibero-americana do teatro. Numa parceria com as prefeituras, espaços públicos e privados sediaram, por doze dias, experiências cênicas que combinam aspectos tradicionais e inovadores, sob a forma de espetáculos, instalações, vivências e debates.


A cultura como condição humana

Ao descrever o que denominamos polifonia cultural, ressaltamos dois vetores, que tentam dar ordem para o que é, em essência, pouco afeito a ordenações precisas:

• o vetor das dimensões da cultura, abrangendo instâncias interligadas, como cultura erudita, cultura popular, cultura de massa e suas variações; e

• o vetor geográfico, que mostra a dinâmica de influência de ascendências e localidades diversas.

Os dois vetores não devem ser pensados isoladamente: interpenetram-se e têm uma realidade histórica, variando ao longo do tempo. Tomados em conjunto, podem nos ajudar a vislumbrar a complexa rede de relações do campo cultural.

A rede da cultura não conhece limites, tem vocação para o espalhamento, para a amplidão. Ao invés de incorrermos na visão restritiva que compreende a cultura como uma esfera da vida humana que estabelece relações com outras, sejam elas políticas, econômicas, filosóficas ou científicas, sugiro que pensemos a cultura numa perspectiva expandida: a cultura confunde-se com a própria condição humana para vivenciar as coisas do mundo e construir representações dessas coisas.

A essa disposição do campo cultural para o espalhamento, soma-se outro fenômeno, mais diretamente relacionado à experiência contemporânea. A cultura tem adquirido crescente centralidade em agendas do debate econômico, político e social. Há pensadores que a consideram, inclusive, o elemento mais importante para formas renovadas de desenvolvimento.

Quando consideramos de forma conjugada essas duas expressões da cultura – sua onipresença e sua relevância -, naturalmente percebemos o desafio envolvido em se pensar em identidade cultural, ainda mais num contexto como o brasileiro.

Identidade e diversidade cultural podem ser encaradas como faces de uma mesma moeda: é o convívio respeitoso de identidades culturais que permite que a diversidade seja experimentada como valor. Contra previsões pessimistas, percebemos que um mundo globalizado não é hostil a esse binômio. A própria posição central da cultura na circunstância contemporânea está relacionada à coexistência de visões culturais – convergindo aqui, divergindo acolá.

Podemos falar de uma identidade brasileira?

Como ela se relaciona com a diversidade típica de um país de dimensões continentais, marcado por cinco séculos de fluxos migratórios externos e internos?

Enxergamos um grau de regionalização em certas manifestações culturais brasileiras, que nos leva a identificar traços gaúchos ou mineiros, particularidades nordestinas ou cariocas.

De forma análoga, percebemos que grandes cidades de uma determinada região chegam a compartilhar modos de expressão, sem negar sotaques locais.

Entretanto, é possível sugerir elementos que, em linhas gerais, parecem dizer respeito a uma “brasilidade”. Citá-los pode significar a adesão a estereótipos que simplificariam nossa complexidade cultural.

A identidade na diversidade. O diverso como fator de reconhecimento identitário.

O que parece um jogo de palavras tenta dar conta de uma situação profundamente paradoxal, cujos paradoxos não devem ser reduzidos a qualquer síntese apaziguadora.

A expressão “campo cultural” pode nos ser útil nesse momento. Afinal, trata-se de um campo onde as culturas negociam por maior ou menor visibilidade e legitimação. O Brasil é um terreno fértil para essas negociações: temos uma disposição para o outro que não se encontra em qualquer parte. A identidade brasileira e as muitas identidades que a compõem só podem ser pensadas como soluções provisórias para um debate que é permanente.

Emerge aqui a veia processual que deve estar presente em qualquer abordagem da cultura:

• as políticas culturais são eficazes se concebidas como processos;

• as ações educativas relacionadas à cultura ocorrem em regimes processuais – é o que podemos denominar de educação permanente;

• a produção, a difusão e o consumo são mais bem entendidos quando considerados em sua dependência mútua. 

A construção de uma identidade brasileira encontra-se num processo que, felizmente, não atingirá seu fim: seria uma contradição. Ou sua morte.

A cultura é um testemunho da dinâmica dos indivíduos e das comunidades. A trama de culturas que enreda cotidianamente o Brasil registra e qualifica essas movimentações.

Cabe a nós, pensadores e gestores da cultura, fazedores e fruidores de bens culturais, buscar entender esse imperativo: captar o que há de mais vivo em pleno voo, sem jamais imobilizá-lo.


Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do Sesc São Paulo


1     BOSI, Alfredo. ‘Entrevista’. In: Revista de Cultura e Extensão nº 0 jul-dez. Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005. Disponível em http://www.usp.br/prc/revista/entrevista.html e consultado em 30/06/2011.

2     BOSI, Alfredo. “Plural, mas não caótico.” In: _____. Cultura Brasileira. Temas e situações. São Paulo: Ática, 1987, p.7.